Rebobinando #131: Carnificina Total

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Ah, os anos 90. Repletos de músculos, trabucos e braços mecânicos. Mas se você fosse fã do Aranha, além dos clones também havia muitos, MUITOS simbiontes. Vem comigo rebobinar uma das primeiras críticas a vibe sanguinária dos anos 90:  Carnificina Total.

Eu até curtia o Venom nos anos 90. Não era dos meus vilões preferidos (em geral isso ficava com o Octopus e o Mystério), mas ele era legal. A princípio eu o chamava só de “Homem-Aranha com boca”, mas aos poucos ele foi se consolidando como um dos grandes vilões da galeria do herói. Ele surgiu como uma espécie de “anti-Homem-Aranha” no finalzinho dos anos 80, nos EUA, vestindo o simbionte alienígena que já havia pertencido ao herói no passado, e possuía quase todos os mesmos poderes. Além disso, ele era maior, mais musculoso e não tinha a mesma moral ou a mesma responsabilidade que Peter Parker. No lugar dessa responsabilidade, aliás, era a vingança que servia de motivação para o personagem. Com o sucesso, ele acabou ganhando um gibi próprio e era só questão de tempo até as cópias surgirem. Então lá por 1992 a Marvel resolveu expandir o conceito de simbiontes homicidas, começando pelo Carnificina.

Uma das partes do Carnificina surgiu primeiro aqui no Brasil em Homem-Aranha #135. O assassino serial Cletus Kasady era colega de cela de Eddie Brock, que estava em um presídio comum porque o simbionte aparentemente havia morrido algum tempo antes em uma das histórias do Aranha. O uniforme alienígena surge para tirar Brock da cadeia para uma nova busca por vingança que rendeu a edição #136 com o “V de Vingança, V de Vilão, V de Venom”. Só que na fuga, o simbionte deixou parte de si para trás, antes achávamos que era só uma gota qualquer da roupa, mas na verdade era uma “cria”. A raça alienígena da qual o simbionte faz parte se reproduz assexuadamente e foi assim que Cletus conseguiu o seu próprio uniforme mortal. Como essa reprodução ocorreu na Terra, houve a desculpa dele surgir diferente da massa viscosa preta habitual, surgindo como um novo uniforme cor de sangue, com veias pretas espalhadas pelo corpo.

A primeira aparição do Carnificina e uma das quatorze capas de Carnificina Total.

E se o Venom era a antítese do Homem-Aranha, movido por vingança, o Carnificina era a antítese da antítese. Ele não só não possuía a mesma moral do herói ou do vilão, como era completamente amoral. Um cara que só gostava de caos e de colecionar vítimas, não importando quem fossem. E com poderes diferentes do simbionte original, mais mortais. Durante sua primeira aparição, Peter foi obrigado a rever seus conceitos e juntou forças com o Venom para derrotá-lo e prendê-lo. O simbionte de Kasady foi destruído na luta porque era “muito jovem” e não tinha a mesma resistência que o de Brock.

– Mas se ele foi destruído, tio Kadu, como é que ele volta para a Carnificina Total?

Aí é que tá, jovem nerd! Nos quadrinhos ninguém morre, nem mesmo quando temos um corpo à vista. Vem comigo!

Taí um vilão cheio de garra, né?

MAXIMUM CARNIFICINUM

A história é longuíssima, mas vou procurar resumir bastante por aqui. Ela foi publicada originalmente nos EUA em 1993, uma época mágica para este tipo de gibi. Foi um evento de crossover das revistas do Aranha e se espalhou por QUATORZE EDIÇÕES, sendo publicada nas revistas Spider-Man Unlimited, Spider-Man, The Amazing Spider-Man, Web of Spider-Man e The Spectacular Spider-Man. Ufa. Aqui no Brasil o arco de histórias saiu em duas edições especiais com o nome da saga, publicadas em setembro e outubro de 1996. 

As revistas contavam com um grupo grande de roteiristas e desenhistas, obviamente. Mas a linha principal da história foi concebida pela dupla Tom DeFalco e J.M. DeMatteis. Além deles dois, havia também outras figurinhas fáceis dos gibis do Aranha, Terry Kavanagh e David Michelinie. Os desenhistas variavam de acordo com suas respectivas edições americanas, claro, que contavam com os nomes de Rom Lim, Mark Bagley, os veteranos Alex Saviuk e Sal Buscema e o novato Tom Lyle. De todos os meus preferidos eram os três primeiros. Bagley e Lim eram os “paus-pra-toda-obra” da editora e Saviuk era um cara dos clássicos cujo o desenho eu sempre curti (eu achava a MJ dele lindona). Buscema tinha aquele hate básico na época, junto com o Tom Lyle que tinha acabado de chegar mas eu também achava o desenho horrível.

O Comitê de Reclamação do Sal Buscema gostaria de acrescentar uma reclamação ao Tom Lyle também.

J.M. DeMatteis comentou sobre a saga que, como muitos dos criadores de histórias na época, ele não era muito fã do Venom e similares. Segundo ele, sua preferência eram os vilões e personagens com mais “tons de cinza” e menos os psicopatas (que eram bem comuns na maioria dos gibis dos anos 90, como lembramos bem). Porém, quando o editor Danny Fingeroth propôs a ele o argumento básico para o arco de histórias, acabou propondo também que, apesar do protagonismo de Venom e Carnificina, a história era mais sobre como a moral e a responsabilidade do Homem-Aranha são valores dignos de ainda serem respeitados em meio a tanta violência e caos.

Simplificando bastante, Carnificina Total é o Reino do Amanhã do Homem-Aranha! 

quem é herói? Quem é vilão? Quem é o Magog? Quem é o Shazam? Tantas perguntas…!

Ok, forcei a barra. Mas a linha principal da história é quase a mesma. O Aranha é forçado a passar por poucas e boas, e se aliar a alguns de seus piores aliados e vilões para enfrentar vilões “mais piores ainda”. 

TOTALIZANDO A CARNIFICINA

A história começa no Instituto Ravencroft, que é basicamente o Asilo Arkham da Marvel. Cletus Kasady está sendo levado para um exame porque descobriram que ele tinha alguma “anomalia sanguínea” que afetava o seu cérebro e talvez esse fosse um dos motivos para o seu comportamento violento. Aparentemente não sabiam que ele já era uma pessoa péssima mesmo antes de virar o Carnificina e, ao tirarem uma amostra do seu sangue, libertam o simbionte que estava dentro dele. Veja bem, quando ele foi derrotado pelo Venom e o Aranha na primeira vez, o simbionte deixou parte de si no sangue de Kasady, transformando o seu DNA e se mesclando por completo com o serial killer. Então quando o simbionte externo morreu, o de dentro cresceu e se desenvolveu, esperando só uma chance de sair. 

Kasady mata quase todo mundo no Instituto Ravencroft, exceto por uma outra pessoa internada. A mutante Shriek, uma personagem nova, criada especialmente para a história. Shriek tem uma variação de poderes que vão desde rajadas sônicas até a emissão de ondas psíquicas que ampliam suas intenções violentas. Os dois fogem do lugar com o intuito de pintar NY de vermelho. Vermelho-sangue.

Família! Família! Demônios, vampiros e monstros! Família! Família! Sai na porrada todo dia! Nunca perde essa mania!

No caminho, os dois acabam formando uma espécie de família doentia, arrebanhando alguns dos vilões da galeria do Aranha que são os mais violentos e agressivos. Figuras como a Contraparte Aranha criada durante a saga Guerra Infinita, o Duende Demoníaco e o Carniça. Enquanto eles matam inocentes pela cidade inteira e transformam pessoas comuns em loucos violentos, o Homem-Aranha une forças com o Venom muito a contragosto, tanto dele próprio, quanto de sua esposa Mary Jane. Ao longo da história o grupo de heróis vai aumentando e juntando nomes diversos como Manto e Adaga, a Gata Negra, Deathlok, Flama, o vampiro Morbius, o vigilante novato Nightwatch e até mesmo o Capitão América

Você até se pergunta como quatro vilões derrubam tantos heróis de uma vez. Mas no início eles foram pegando praticamente um por um em separados. No fim, quase todos já haviam apanhado o suficiente sozinhos, e estavam sem forças para atuarem decentemente, mesmo em conjunto. Essas surras consistiram na aparente morte de Adaga logo nos primeiros capítulos, no Aranha passar a história inteira com costelas quebradas, entre outras coisas. 

A “morte” de Adaga no início é uma metáfora pra “perda da luz” no caminho da escuridão da carnificina! Sacou?

Como o foco da história era mostrar que mesmo no buraco mais escuro, a luz ainda é a salvação, o valores do Aranha foram colocados em xeque a cada página. Suas alianças com outros vigilantes mais determinados em utilizar quaisquer meios para derrotar seus inimigos faz com que ele se pergunte constantemente se vale a pena poupar alguém como Kasady e levá-lo para a prisão ao invés do cemitério. Quando o Capitão América chega, aliás, parece que dá até um alívio de “puxa, ainda bem que existe mais gente boa por aí”. 

No final, a cidade é salva por uma “bomba do bem”. Lembra que eu falei que um dos poderes da Shriek era amplificação psíquica de seus instintos violentos? Isso quer dizer que a vilã consegue influenciar as pessoas à sua volta para se tornarem tão violentas quanto ela. Com a ajuda dos Vingadores e do Capitão eles conseguem uma geringonça qualquer que amplifica as ondas alfa do cérebro, fazendo com que a pessoa se sinta bem. Eles usaram a máquina na própria Shriek que cuidou de, involuntariamente, expandir sua “boa influência” para todos na cidade.

Cara, quanta fita adesiva a Gata Negra gastou nesse uniforme?

Kasady, como é “pura maldade” acaba morrendo.

Só que opa! É mentira! Ele volta na edição seguinte, a última, para um último embate contra seu “papai” Venom e o Homem-Aranha. Em meio a flashes do seu passado, vemos que Kasady teve uma infância horrível e uma vida horrível que o levaram a se tornar quem é. Venom tenta matá-lo com uma explosão, mas acaba apenas incapacitando o serial killer, que vai preso pelos Vingadores.

HAHAHAHAHHAHAHHAHAHHAHAHHAHAHAH! *respiiiiira* HAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHA

Tô LendoPontos Fortes
  • Duas edições. São só duas edições. Fáceis de achar em qualquer mercado livre da vida ou sebo por aí.
  • Arte. Bom, tirando o Sal Buscema e o Tom Lyle, a arte das histórias é um dos pontos altos. Mark Bagley em especial tá arrebentando nos desenhos, já que garras e dentes parecem ser a especialidade dele.
  • História. Tem seus altos e baixos. Acho ela bem “ok”, na verdade. Hoje eu gosto mais do embate de valores que ela se propõe, mas no passado eu só curtia pelo fator “massavéi” mesmo.
Tô LendoPontos Meh
  • História. Foi o que eu disse dos altos e baixos né? Tem lá seus pontos bons, mas os pontos ruins são beeem ruins. Em geral quando a história simplesmente para pra que a gente veja as discussões da família Parker sobre “o uso ou não de violência para fazer justiça”. A Mary Jane que sempre foi tão compreensiva e até mesmo motivadora do Peter está particularmente chata nessa história também, o que acaba arrastando um pouco a trama.

Gente, eu AMO o Mark Bagley.

No fim, Carnificina Total é bem típica de seu tempo. Guardadas as devidas proporções com o Reino do Amanhã, eu acho interessante essa discussão de valores. Ainda assim, não é como se isso fosse um tema novo nas histórias do Aranha, né? Sempre que ele se encontra com o Wolverine ou o Justiceiro este tipo de questão vem à tona. Fica a sensação de que, para aproveitar ao máximo seus personagens populares, eles estenderam a história até onde podiam. Saga do Clone vibes, sabe? Talvez se ao invés de quatorze edições o crossover tivesse dez edições ou um pouco menos, ele ficasse mais enxuta e passasse seu ponto mais claramente.


Carnificina Total vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-07-20T22:36:12+00:00 20 de julho de 2020|0 Comentários