Em tempos de crise, o futuro vira um lugar sombrio. Nos anos 90 a Marvel lançou o universo 2099 mais ou menos nessa vibe distópica e, enquanto era um futuro ruim para todo mundo, para os mutantes era especialmente pior! Hoje vamos rebobinar os X-men 2099!

Xis-méin?

Em uma das primeiras edições da Rebobinando lá em 2017, eu falei do carro-chefe desse novo universo explorado pela Marvel, o Homem-Aranha 2099. Essa edição da coluna é meio curtinha e não desenvolve muito o que era o universo 2099, mas logo depois eu falei do Motoqueiro Fantasma 2099, que era um dos pouco personagens que eu achava mais maneiro. E esses dois são bons exemplos do que havia de legal no Universo 2099. Em contrapartida, temos essa encarnação dos X-men.

O lance é que foi nos anos 90 que a Marvel aprendeu a inovar com seus gibis. Tinha uma lenda de que a cada década depois da criação do Homem-Aranha, a Marvel Comics tentava recriá-lo usando a mesma fórmula em outro personagem. Nos anos 70 foi o Nova, Richard Ryder. Nos anos 80 foi o Speedball, nos anos 90 foi o próprio Homem-Aranha 2099, em 2000 foi o Aranha Ultimate do Bendis e a nos anos 10 foi Miles Morales. Nessa onda de experimentação, a editora cria e explora novos conceitos pra ver o que se adapta ou não aos novos tempos e depois inclui as melhores ideias no universo 616 sem a necessidade de reboots extensos (às vezes, pelo menos).

Então antes do universo ultimate, o universo 2099 foi a primeira “caixinha de ideias” onde os criadores poderiam brincar como quisessem, do zero, com uma cronologia nova e novos personagens. Como o selo abriu com quatro heróis (Aranha, Justiceiro, Doom e Ravage), nada mais óbvio de que os X-men fossem os próximos a serem adaptados, seguidos do Hulk e do Motoqueiro Fantasma. 

E hoje em dia a gente reclamando de spoiler…!

O gibi saiu por aqui em agosto de 1994, quase um ano depois do lançamento do Aranha 2099. Nos EUA aconteceu da mesma forma, só que com o Aranha sendo lançado em 1992 e os mutantes em 1993. O que foi uma experiência interessante pro público brasileiro que não precisava esperar os habituais três ou quatro anos de diferença entre as publicações originais.

Mas um lance interessante dessa época era essa visão de futuro distópica que a gente tinha. Como eu falei em Um Dia de Fúria, os anos 90 foram uma época bem cínica no zeitgeist americano. É só lembrar de como os quadrinhos andavam naquele tempo com todos os heróis passando por situações limite como morte, aleijamento, carnificinas totais e crepúsculos! O milagre econômico americano tinha morrido, o Nirvana tava fazendo sucesso com o grunge deprê e os velhos de cueca nos clipes da MTv, e todo mundo tava começando a se preocupar com o meio ambiente e a atuação das grandes corporações. Isso se reflete bem no universo 2099 como um todo, em que todos os personagens parecem uma versão do Cable com roupas e poderes diferentes. 

“Ei, Sucata! Toca aqui… ops!”

Com os X-men não foi diferente. Escritos pelo autor John Francis Moore, eles nunca chegaram a dizer exatamente ao que vieram e passaram boa parte do seu run separados e agindo cada um por si do que juntos. E ainda assim, quando juntos eles não agiam como as equipes de X-men que costumávamos ver nos desenhos ou ler nos gibis originais. Inclusive, passando o olho nas histórias por alto, arrisco dizer que esses X-men perderam mais batalhas contra os seus vilões do que ganharam. E quando ganhavam, provavelmente era por causa de um deus ex machina meio mal colocado (leia-se pura sorte).

Curiosamente, John Moore foi o roteirista responsável por Destino 2099, pelo menos pelos dois anos iniciais da revista, da edição #1 à #25. E lá, as histórias eram bem mais empolgantes e levavam a algum lugar. Claro, trabalhar com Destino talvez fosse mais tranquilo porque teoricamente ele era o mesmo personagem do universo 616 que viajou no tempo e, em geral, os fãs já conheciam parte de sua história. Os novos X-men eram uma nova página na longa história da equipe e não tinham qualquer ligação com a equipe original criada por Xavier. Inclusive, numa das poucas tiradas bacanas do gibi, houve outras duas iterações de X-men comandadas por outros líderes que nós nunca chegamos a ver ou conhecer: Mencionados por alto num discurso, ficamos sabendo que além do Professor X e Magneto, os outros mutantes foram comandados por um tal de Del Ruiz e Zhao.

Pois é né, Xian? Cê dá a mão e eles querem o braço!

Os desenhos ficaram a cargo de ninguém menos do que o Ron Lim. Aquele que eu costumo chamar de “o primo pobre do Jim Lee”. Isso porque ele tem um estilo limpo e rápido de desenhar, não era um desenho feio, e todo mundo tinha basicamente a mesma cara de oriental. Alguns dos designs dos personagens não eram especificamente marcantes, mas cada um deles marcava um ponto no “bingo” das super equipes dos anos 90.

A equipe, os coadjuvantes e alguns vilões na capa comemorativa da edição #25 americana.

OS X-MEN DE 2099

A equipe de desajustados do deserto era formada por alguns personagens bacanas, algumas ideias de poderes legais, mesmo não sendo suuuper originais. O mais curioso é que tirando os mutantes Furacão e Asa Sangrenta, quase nenhum deles era chamado pelo codinome nas histórias. Como eles quase nunca saíam em missões juntos, aparentemente não havia necessidade de manter segredo. Os nomes dos dois em inglês “Meanstreak” e “Bloodhawk” soavam irados demais para não serem usados com frequência, hehe.

  • Xian Xi Chan. O primeiro líder da equipe. Antigo membro de uma gangue chamada Marginais, Xian viajou para Saigon, no Vietnã, e voltou um homem mudado. Determinado a deixar para trás o seu passado de criminoso, ele imbuiu a si mesmo de uma missão que era juntar novamente o grupo de mutantes conhecidos como X-men. Assombrado constantemente pelos seus fantasmas do passado, ele sofria de algum tipo de “dupla personalidade” que era exemplificada pelo seu poder mutante: sua mão esquerda tinha o poder de desestabilizar as coisas em nível molecular e destruí-las, e sua mão direita tinha o poder de curar ferimentos, doenças e outros males, mas a um custo dolorido para si. Seu codinome que nunca era usado era Fantasma do Deserto.
  • Shakti Haddad. A nativa-americana Shakti era filha de um cientista e trabalhava para a Stark/Fujikawa antes de conhecer Xian. Ela abandonou sua vida de luxo e se tornou a proverbial mão direita do novo líder dos X-men e usava seus poderes para identificar novos mutantes e arrebanhá-los para o grupo. Seu codinome, Sensora, funcionava bem em português, mas em inglês era mais significativo. Ela se chamava Cerebra no original, uma alusão à máquina de achar mutantes do Prof. X, o Cérebro. Boa luta, séria e determinada, Shakti também tinha poderes psiônicos, mas de baixa escala. Ela podia nocautear ou causar dores mentais em poucas pessoas por vez, geralmente precisando de algum contato físico primeiro.
  • Tim Fitzgerald. Tim era o novato da equipe. Encontramos o personagem pela primeira vez na primeira página da história e é através dele que somos apresentados a este novo universo. Dadas as características dos seus poderes, ele meio que evitava contato humano pois explodiu seus pais e a namorada na primeira vez que seu gene x se manifestou. Sua timidez durou poucas edições, no entanto, depois do contato com a mutante Lunática durante o arco do Teatro da Dor. Tim deixou de ser tímido e medroso e passou a ser mais porra-louca, meio Wolverine meio Gambit. Seu codinome que também nunca foi usado nos gibis, Dínamo, também era o puro suco dos anos 90 em inglês: Skullfire, uma alusão à liberação de seus poderes energéticos que sempre iluminavam o seu corpo a ponto de seu esqueleto aparecer.

O “caveira de fogo” ataca de novo!

  • Krystalin. A mutante Kris Porter tinha o poder era o mais inútil de todos e era engraçado como todo mundo tratava ela como uma mutante com um poder de alto nível, mas ela sempre tava tomando porrada e sendo raptada por boa parte das histórias. Ela era irmã de um líder dos Panteras Negras de Oakland, mas não tinha nada a ver com os de Wakanda, na verdade, e estavam mais na linha do grupo americano mesmo. Seu poder consistia em usar os minerais suspensos no ar para criar cristais multicoloridos como bem quisesse. Em geral ela criava armas como facas e bastões, mas era tudo de pouca utilidade, já que ela sempre ficava pra escanteio como, sei lá, a Jubileu. Outra mutante de poder inútil.
  • Furacão. Henri Huan havia sido funcionário da Alchemax antes de se unir ao grupo. Super inteligente, ele era o gênio da equipe e também o velocista. Suas habilidades faziam dele um cara muito confiante e metido, o que até gerava momentos divertidos, mas também funcionavam como o calcanhar de aquiles dele. 
  • Asa Sangrenta. Era o típico Wolverine da equipe. Tava lá, mas não tava. Tinha garras. Era mau-humorado. E tinha “sangue” no nome, ou seja, era o violentão da turma. Não tinha paciência pro grupinho e agia mais como um eco-terrorista solitário atacando instalações das grandes corporações espalhadas pelo deserto americano. Seu poder era se transformar em uma fera alada de pele vermelha e escamosa com garras e dentes afiados.

Asas, sangue e garras! Tudo isso num pacote bem wolverinesco de mau-humor!

  • Metálico. Tive minhas dúvidas de colocar o Metálico aqui. Ele também era nativo-americano e era a força bruta da equipe até mais ou menos a sexta edição. Seu poder permitia que sua pele absorvesse as propriedades de qualquer metal que ele tocasse. Por conta disso ele tinha pulseiras de diferentes metais espalhadas pelos braços e pelo corpo, mas em geral ele só se transformava em adamantium ou aço. Depois de um encontro com um degenerado cujo poder era causar infecções, Metálico não pôde mais reverter à sua forma original e ficou com o corpo deformado, como um golem de metal. Depois disso ele abandonou os X-men e voltou por duas edições, já no final da revista.
  • Serpentina. Outra menção honrosa. Ela era o espírito da inocência da equipe. A fofinha que todo mundo adorava e obviamente, dado o cinismo dessa época onde ninguém podia ser feliz ou não ter um lado maligno escondido no subconsciente, ela foi morta logo na segunda edição. Seu poder era o de esticar os braços. Pois é. Não foi à toa que ela morreu também. Quase no fim da série ela também voltou, seu cadáver havia sido reanimado por um vilão chamado Saqueador de Túmulos.
  • Lunática. Era a vilã que virou mocinha. Era escrava do Teatro da Dor, uma empresa de entretenimento comandada por um diabão que raptava pessoas e as torturava para transmitir essas sensações para clientes ultra-ricos com fetiches sádicos. Depois de um encontro com Dínamo, Kris e Furacão, ela conseguiu se libertar de seu captor e agiu sozinha por um tempo, até esbarrar com os X-men de novo. Ela engatou num romance de motoqueiro com o Dínamo e os dois formaram um “power couple” difícil de derrotar. Seus poderes consistiam em um ataque psíquico através do contato físico, que causava dor e sofrimento em sua presa, fazendo com que ela revivesse seus piores momentos e traumas. A energia liberada por essa dor servia de alimento para Lunática. Além disso ela tinha superforça e resistência aumentada.

Sucata, os Degenerados e os Escolhidos de Zhao.

Em meio a muitos mistérios, esse grupo de X-men passou meio sem objetivo pelo universo 2099. A princípio eles formaram o grupo e foram atrás de informações sobre um grupo de resgate que recolhia fugitivos e os levavam a um lugar chamado Ávalon, uma espécie de reduto mutante. Comandado por Mama Furacão, esses mutantes eram levados até o misterioso Condutor que garantia a segurança deles. Durante essas descobertas eles só foram “trombando” em problemas e fazendo inimigos pelo caminho: O Sindicato Criminoso de Las Vegas, o Teatro da Dor e seu líder Amor Doentio, Os Degenerados, Zhao e seu X-men, Os Desmortos, e até mesmo Destino 2099.

E é na parte em que Destino vira presidente dos EUA que o grupo ganha um foco melhor em suas histórias. Veja bem, John Moore escreveu Destino 2099 por dois anos e no terceiro entrou um novo roteirista, um tal de Warren Ellis. Com isso, o golpe de estado virou toda linha de gibis de ponta cabeça. John Moore continuou com os X-men e com isso pôde prestar mais atenção nos heróis (é o que eu acho, pelo menos). Então os mistérios sobre o que aconteceu com os mutantes ou o sonho de Xavier ficaram pra trás e a equipe passou então a gerenciar um refúgio mutante em Halo City. Dínamo passou a ser o líder da equipe e eles passaram a ter que lidar com dilemas políticos além dos eventuais supervilões querendo causar problema. 

Os X-men e Halo City.

Uma pena que esse foco tenha chegado só no fim da linha. X-men durou vinte e nove edições apenas, no Brasil. Nos EUA foram trinta e cinco edições, com algumas edições especiais.

Tô LendoPontos Fortes
  • Expansão. Apesar de não ter uma direção muito estabelecida, os gibis foram uma adição bacana ao universo 2099. Fugindo do esquema das grandes corporações dos outros personagens, eles focaram em pequenos grupos desgarrados pelos deserto de nevada nos EUA e arredores.
  • Personagens. Como quase todo mundo era meio nervosinho e tinha um lado sombrio, era difícil diferenciar o Xian do Dínamo, do Asa Sangrenta, ou mesmo do Sucata (o arqui-inimigo do grupo). Mas algumas adições eram interessantes. Eu gostava particularmente da Shakti e do Furacão. Gostava da Lunática também. E achava o visual do Condutor maneiríssimo.
  • Mix. O mix das histórias no Brasil contava com algumas histórias dos outros heróis do universo marvel 2099. Justiceiro 2099, Motoqueiro Fantasma 2099 e algumas histórias do Ravage (mas só porque elas eram desenhadas pelo Joe Bennet).
Tô LendoPontos Meh
  • Foco. O gibi atirava pra todo lado. Parecia até que o John Moore não sabia bem qual história queria contar e no meio do caminho ia elaborando outros plot points para explorar, separando os personagens a toda hora. Dessa forma, cada história focava em um ou dois personagens, mas não o suficiente para que ficássemos conhecendo eles melhor. Em vez de ser um gibi de equipe, algo que não existia na linha 2099, ele era um gibi de personagens solo que andavam juntos de vez em quando. É uma pena que isso tenha se desenvolvido melhor só no finalzinho.
  • Anos 90. É aquela coisa de época, né? Tudo muito sombrio e cínico. Mas como isso não se refletia no ambiente ou na cidade, como em Nova York e a Alchemax do Homem-Aranha, acabava encontrando eco nos próprios personagens. Na época eu achava iradaço! Mas hoje é um pouquinho cansativo.

Halloween Jack, o Condutor e os Desmortos! É uma galeria de vilões bacana, vai?

Apesar dos pesares, eu gostava muito de X-men 2099. Era um dos meus gibis favoritos durante os anos 90, junto com todos os outros gibis do Aranha (é, eu sei, teve a saga do Clone também). Reler parte das histórias para a coluna foi divertido, mas ajudou a consolidar a ideia de que o Aranha e o Motoqueiro 2099 eram de fato dois dos melhores personagens da linha de gibis. 


X-men 2099 vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.