Rebobinando #129: Um Dia de Fúria

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FAÇAM A AMÉRICA SER GRANDE DE NOVO! Todo mundo já conhece essa frase e o que ela carrega consigo. Mas um clássico dos anos 90, do diretor Joel Schumacher, corre o sério risco de ser o precursor dessa linha de pensamento. Hoje vamos rebobinar Um Dia de Fúria!

Michael Douglas e seu olhar semiótico sobre o mundo. Sacou? Hein? Hein?

Não lembro bem de ter assistido Um Dia de Fúria no cinema em 1993. Entre outros filmes daquele ano, eu tava mais preocupado em ver Jurassic Park, ou ainda dois clássicos do Stallone, O Demolidor e Cliffhanger (clássicos?). E como o filme de Joel Schumacher ainda era conhecido por ser extremamente violento (e nem é, pelo menos não de forma gráfica), eu acabei não indo vê-lo nos cinemas. A oportunidade veio alguns anos depois, provavelmente na Bandeirantes ou no SBT, quando eu já era adolescente mesmo e pude matar a curiosidade.

Lembro de ter gostado, mas como percebi depois de rever o filme, pode ter sido pelos motivos errados. E arrisco dizer que muita gente, aliás, pode ter cometido o mesmo engano. O lance é que o filme é sempre lembrado como uma forma de catarse de alguém que explode depois de não aguentar as pressões do dia-a-dia, mas ele é muito, muito mais do que isso. 

Algumas referências são sutis. Outras, mais óbvias.

A PRODUÇÃO

A produção do filme começou ainda em 1992. As filmagens começaram em abril do mesmo ano, mais ou menos quando os protestos em Los Angeles começaram. Esses protestos foram mais ou menos como os protestos realizados mais recentemente em 2020, só que em 1992 foi em nome de Rodney King, um homem negro assassinado pela polícia. Após um julgamento espetaculoso, os quatro policiais envolvidos foram inocentados, o que acabou gerando o protesto. Milhares de lojas foram saqueadas e destruídas e pelo menos 50 pessoas morreram neste processo.

As filmagens estavam sendo feitas no local, em Los Angeles mesmo, e tiveram que ser interrompidas. Por conta disso filmaram boa parte do filme nos estúdios da Warner Bros e só terminaram em junho de 1992. Reza a lenda, inclusive, de que o ar fumacento que deixa a cidade enevoada no início do filme (e visível no pôster) não era apenas um efeito, mas um resultado do fogo desses protestos de abril. Muita gente, no entanto, sentiu que faltou um pouco de sensibilidade no lançamento de Um Dia de Fúria no ano seguinte. Isso porque em meio a um clima social instável, a história mostrava um homem branco se “revoltando contra o sistema”, mas nessa revolta a maioria das pessoas agredidas por ele são pessoas que já são agredidas pelo sistema também. 

“Veja bem, eu TAMBÉM sou um estereótipo, sabe? Uma metáfora e…”

Mas a sutileza do texto infelizmente se perdeu para essa galera. Será? O crítico Roger Ebert, em 1993, disse o seguinte:

Muitas das resenhas de “Um Dia de Fúria” vão compará-lo a filmes mais antigos sobre homens brancos num ataque de fúria como “Desejo de Matar”. Muitos ainda vão achá-lo racista pois os alvos do herói da história são pessoas afro-americanas, latinas e coreanas (com alguns brancos aí no meio para dar um equilíbrio). Ambas as interpretações são uma leitura rasa do filme, que é na verdade sobre uma grande tristeza que se transforma em loucura e que pode afligir qualquer um que, após anos de trabalho duro, são considerados desnecessários ou irrelevantes.

Dois filmes do Joel Schumacher num gif só.

CONTEXTO HISTÓRICO

É difícil entender esse filme sem o contexto histórico em que ele se insere. Ou corremos o risco de fazer uma “leitura fácil” dos ataques de D-FENS, o nome do personagem Michael Douglas durante boa parte do filme (e que consta nos créditos). 

Durante o filme, descobrimos aos poucos quem é D-FENS e porque ele faz o que faz. O personagem é um resquício da Guerra Fria, um engenheiro do setor de defesa dos Estados Unidos, que trabalhava para alguma empresa privada que vendia mísseis para os militares. Com o fim da União Soviética no anos 80, o conflito atômico se encerrou. E com isso, a necessidade do trabalho de D-FENS também. Além disso, muitas outras inovações foram chegando e se inserindo no trabalho e no dia-a-dia das pessoas, como a internet e a informática. Então um engenheiro das antigas, como o personagem de Michael Douglas, que não soube (ou não quis) se especializar, se tornou obsoleto.

“A foto é meramente ilustrativa”.

Muitos outros americanos como ele foram perdendo seus empregos no início dos anos 90 por diversos motivos. Os sindicatos foram se deteriorando porque as empresas que tiveram que enfrentá-los e, com isso,  somado às novas regulamentações ambientais, passaram a terceirizar seus empregos em outros países como a China ou a Índia. O sonho americano de progresso e sucesso estava ruindo e essa galera não sabia para onde ir. O roteirista Ebbe Roe Smith comentou sobre o tema do filme:

“Para mim, ainda que o filme fale sobre problemas urbanos complicados, ele é basicamente sobre uma coisa apenas: O personagem principal representa a antiga estrutura de poder dos EUA, que se tornou arcaica e completamente perdida. E dessa forma, acho que pode-se dizer que D-FENS é como Los Angeles. Para ambos é época de se ajustar ou morrer…”

D-FENS, aliás,  é o típico “protagonista sem nome” de um filme de “auto-inserção”. Por ele não ter um nome durante boa parte da sua história, como Edward Norton em Clube da Luta, ele pode ser qualquer um. A identificação do público com o protagonista se dá nesse nível porque, sem um nome específico, ou só com um apelido, o nome dele pode ser qualquer nome. Até mesmo o meu, ou o seu. É o “protagonista de Schrodinger”. E essa é uma sacada legal do roteiro porque, conforme a história é contada, de repente você toma uma rasteira nessa identificação até perceber que talvez o herói não seja nem mesmo um anti-herói, mas sim o vilão.

D-FENS

Mais tarde na história descobrimos o verdadeiro nome de D-FENS: William Foster. Mas a essa altura, já não importa mais. Ele já havia se tornado o espectador há muito tempo. Por ser uma junção de vários dramas da classe média americana na época (em especial a do homem branco de classe média) muitas das atitudes do personagem parecem justificadas mesmo que elas sejam excessivamente explosivas e violentas. Ainda mais porque ele passa um dia verdadeiramente de merda onde não encontra uma só pessoa que demonstra carinho por ele. Durante todo o seu trajeto por Los Angeles ele só encontra gente grossa, babaca e violenta, independente de credo, raça ou cor. Em certo ponto, parece até uma forçada de barra do roteiro porque simplesmente não é possível encontrar tantos babacas assim num dia só, mas é aí que a nossa suspensão de descrença tem que agir.

Na cena inicial, que é uma referência a um filme de Federico Fellini, D-FENS larga o carro num engarrafamento da rodovia dizendo que vai para casa. 

O primeiro ataque dele, numa vendinha coreana, se dá porque o dono do lugar se recusa a trocar uma nota de um dólar por algumas moedas de 25 centavos para ele fazer uma ligação no orelhão do outro lado da rua (vamos lembrar que são os anos 90, ninguém tinha celular à mão). O cara manda D-FENS comprar algo e, quando o troco não dá para usar no telefone público, ele arranca o bastão de baseball do cara e explode, destruindo a loja toda! Em meio a agressões racistas sobre o sotaque do coreano, ele reclama da inflação e de como tudo é muito caro hoje em dia! 

Em seguida ele é atacado por dois membros de uma gangue, latinos, que querem roubar sua valise. Em meio a discussões territoriais, D-FENS arrebenta os dois com o taco de baseball antes de fugirem correndo. Na luta um deles derruba uma butterfly knife (faca borboleta?) e ele cata e põe no bolso. Até esse ponto vemos suas ações justificadas porque as coisas parecem surgir sem ele querer. Ele não carrega nenhuma arma no início, mas todas as que ele passa a ter parece que caem no seu colo como um presente divino. Como um personagem de RPG ele vai recolhendo cada uma dessas armas e levando consigo, fazendo a gente só esperar alguma tragédia ainda maior depois.

Como num videogame, ele evolui de bastão pra faca, pra pistola, pra metralhadora até chegar na bazuca!

A todo o tempo, ele diz que só quer ir para casa e faz ligações constantes para a ex-esposa no processo. Descobrimos assim que ele tem uma filha que está fazendo aniversário e que a ex-esposa morre de medo dele. Conforme a história passa, vemos que ele não tem um histórico de violência doméstica, mas que pelas atitudes dele, obviamente a mulher não iria querer pagar para ver. Ela chama a polícia diversas vezes, mas a cada vez a polícia se torna mais e mais descrente de que o homem que a ameaça durante todo o tempo do filme seja de fato um problema. Ela é tachada de histérica e paranóica. Se até aquele momento as atitudes de D-FENS não foram suficientes para provar que ela estava certa, um momento já no terceiro arco do filme soletra para quem não entendeu. Quando chega na casa da ex-esposa, ela já havia fugido e D-FENS senta para ver uma antiga fita VHS da família. Nela William insiste que a filha brinque em um cavalinho de brinquedo que ele comprou e, apesar do choro de desespero da menina e dos apelos da mãe, ele continua insistindo, cada vez mais forte, cada vez mais alto, cada vez mais ameaçador.

É nessa hora que o público entende que essa “casa” para qual ele quer voltar é um passado que só ele lembra. Um passado onde as coisas eram melhores, onde a esposa o amava e a filha era feliz, mas que claramente não é a realidade!

O cara fala “até que a morte nos separe” assim e você ia querer pagar pra ver? Ou pedir ordem de restrição?

OS PARALELOS

O filme não acompanha apenas a história do surto de D-FENS, mas também do policial Prendergast, interpretado por Robert Duvall. Os dois têm jornadas semelhantes onde sofrem com questões da vida pessoal e do trabalho. Enquanto um é divorciado e perdeu o emprego, o outro perdeu uma filha e está se aposentando mais cedo por causa da esposa, além de ser desprezado pelo chefe e por colegas de trabalho. As pressões são semelhantes porque Prendergast também é quase obsoleto, mas ele consegue segurar as pontas. 

Em outra parte do filme o protagonista encontra um supremacista branco de verdade, um nazista que é dono de uma loja de armas e equipamentos militares que sabe quem D-FENS é porque ouviu sobres seus ataques no rádio da polícia. Ele olha para o protagonista como um ídolo e proclama “nós somos iguais” e, ao gritar xingamentos homofóbicos e racistas, nós sentimos vergonha de ter nos identificado com ele posteriormente. Ou pelo menos deveríamos. O nazista é uma das duas vítimas fatais de D-FENS no filme e a gente até volta a se identificar com ele depois disso e sentir essa legitimação. Porque a gente pode até concordar em dar uns tiros numa lanchonete, mas se aliar ao nazismo AÍ JÁ É DEMAIS! Será?

Prendergast (Robert Duvall) e Sandra Torrez (Rachel Ticotin) duas das poucas pessoas boas do filme!

Além disso, assistindo esse filme hoje em dia é muito difícil não se sentir incomodado em alguns momentos. Não porque o filme seja super violento ou agressivo, mas porque alguns temas e algumas atitudes do protagonista soam reais demais para nós. Enquanto nos anos 90 essa ideia de supremacia branca e legitimação masculina era algo existente, porém escondido, hoje em dia isso é bem mais explanado e encarado como perigoso.

Não tem como não perceber o eco que as reclamações de D-FENS na lanchonete, ou na loja de conveniência, tem nos casos de abusos de funcionários de pessoas nos EUA. Coisas como “fale em inglês, estamos na América”, ou “quero falar com o gerente, pois o cliente sempre tem razão”, ou ainda ameaçar funcionários com armas para que eles façam o que você quer. Tudo isso tem um reflexo muito grande na forma de pensar de muitas pessoas hoje em dia, de “gente de bem” que acha que pode resolver qualquer inconveniência na vida com uma submetralhadora na mão, seja ela um assalto ou um hambúrguer molenga no McDonald’s.

A crise atinge cada um de forma diferente.

O protagonista ainda encontra um homem negro na frente de um banco, protestando com uma placa, reclamando que não recebeu um empréstimo porque não era “economicamente viável”. Enquanto ele protesta, dois policiais chegam para levá-lo por perturbar a ordem pública e enquanto ele vai preso, o protagonista se identifica com o homem negro. De dentro da viatura, o cara olha para ele e diz “não me esqueça”, ao que D-FENS acena com a cabeça. Mas é curioso notar que enquanto um vai preso por protestar pacificamente, o outro é responsável por diversas agressões e carrega uma bolsa cheia de armas e anda livremente pelas ruas.

Seria D-FENS oprimido pela sociedade? Pelo sistema? Talvez sim. Mas a resposta dele não é contra o sistema, mas contra pessoas que muito pouco tem a ver com seus problemas. A inflação não é culpa do atendente da loja assim como a obra na rua não é culpa do funcionário babaca. William Foster se transforma em D-FENS quando ele percebe que está perdendo o seu espaço de homem branco de classe média para quem tudo é feito e direcionado. Obsoleto, arcaico, sem ter direção ele reage da única forma que sabe. Com fúria.

Tô LendoPontos Fortes
  • Humor. Apesar de uma temática pesada, o filme carrega um bom humor a fim de aliviar um pouco a tensão. O momento da lanchonete, apesar de tudo, é bem engraçado e não à toa é um dos momentos mais lembrados do filme. 
  • Música. Nada suuuuper memorável. Mas ao rever tudo, reparei como a música foi muito bem usada nos momentos certos para dar a sensação de panela de pressão prestes a explodir. A sequência inicial, inspirada em 8 ½ de Fellini, é maravilhosamente construída.
  • MD. Putz. O trabalho DA VIDA de Michael Douglas. Sim, eu sei que ele fez Wall Street e Atração Fatal, que também são filmões. Mas esse tá lá em cima.
Tô LendoPontos Meh
  • Personagens Secundários. A maioria, na verdade, mas não todos. Afinal de contas o filme foi feito de uma forma a deixar o espectador incomodado e de certa forma a justificar em parte o comportamento do protagonista. Seria difícil ele estourar uma cabine telefônica ou sacanear um mendigo se as pessoas fossem gentis com ele. Mas afe. É muita gente babaca O TEMPO TODO. Até mesmo na delegacia de polícia do Sargento Prendergast. Tirando a parceira dele, todo o resto dos policiais são incrivelmente babacas.
  • Disponibilidade. Foi meio difícil de encontrar para assistir. O filme não está em alguns dos maiores serviços de streaming atuais.

Why so furious?!

Olhando para trás, Um Dia de Fúria é quase premonitório. Não á toa ele é um dos filmes preferidos de movimentos de ativistas de homens e outros parecidos, o que é algo muito chato. Parece que ele é mais um daqueles filmes que as pessoas idolatram pelos motivos errados como o próprio Clube da Luta, que eu mencionei anteriormente, ou ainda Tropa de Elite, Táxi Driver, ou mais recentemente Coringa. Inclusive, eu acho que Coringa seria mais interessante se tivesse copiado o Joel Schumacher ao invés do Scorcese. 

Em inglês, o nome do filme é “Falling Down”, significando a “caída”, a “derrocada” não só do cara, mas dos EUA em si. É um “cautionary tale”, uma história de alerta, sobre o que a sociedade poderia se tornar se pessoas como o protagonistas se recusassem a aceitar a evolução dos tempos e se adaptar a isso.

Como podemos atestar hoje em dia, infelizmente.


Um Dia de Fúria vale cinco rebobinandos. 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-06-30T00:58:37+00:00 29 de junho de 2020|0 Comentários