Rebobinando #128: Tubarão

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Verão. Praia. Gente bonita. Sangue. Dentes. E uma música-tema de arrepiar até o último fio de cabelo do corpo. É isso aí, pega o seu político irresponsável favorito e vamos rebobinar um clássico de Steven Spielberg, Tubarão.

No último dia 20 de junho foi aniversário de um dos grandes clássicos do cinema-pipoca. Talvez o nascimento do primeiro filme-pipoca (carinhosamente apelidado de blockbuster por Hollywood, os filmes “arrasa-quarteirão”)! Após a estreia no verão americano de 1975, Jaws faz 45 anos agora em 2020 e isso me trouxe uma questão: será que o filme ainda se sustenta? Então eu fui em frente e resolvi revê-lo para saber a resposta.

Para ser honesto, eu não lembrava muito de Tubarão. Era um filme que eu havia assistido ainda moleque, na TV (ou talvez alugado na locadora) com a minha família. E tirando o PAVOR que eu tinha do tubarão do título, o filme no geral me parecia meio chato, pelo que eu conseguia puxar pela memória. E talvez para uma criança o filme não seja exatamente o ideal, convenhamos. Mas para um pré-adolescente daquela época ele é basicamente perfeito!

Não perca no próximo verão CÃIBRA MORTAL!

Não foi à toa que ele mudou por completo o mercado cinematográfico hollywoodiano para sempre! Até a sua estreia nos cinemas em 20 de junho de 1975, a maioria dos grandes filmes eram programados para serem lançados na época do natal. Muita gente não acreditava no lançamento de filmes durante o verão americano porque, ora bolas, era verão! E além disso, é época de férias escolares no hemisfério norte! Segundo os executivos ninguém ia querer ficar trancado num cinema, quando poderia brincar “lá fora”. Spielberg apostou no lançamento de junho apesar disso e foi como aquele ditado popular: “mirou no que viu e acertou no que não viu”.

Acontece que por volta do fim dos anos 70 e início dos 80, algo começou a crescer muito nos EUA: Os shoppings. Eles eram uma alternativa ao clima quente do verão por conta do ar-condicionado e também com a chegada dos cinemas multiplex, facilitando a exibição de vários filmes, ou do mesmo filme em diversos horários. Enfim, foi uma época muito frutífera para o lançamento. Nesse novo contexto de verão dominado pelos adolescentes “ratos de shopping”, o filme arrecadou mais de 470 milhões de dólares, valendo o equivalente a 1.15 bilhão de dólares nos dias de hoje.

O ministério da saúde adverte: tubarões fazem mal à saúde.

Isso elevou o patamar do que se esperava de um filme nesta época e, de repente, todo mundo estava lançando filmes empolgantes durante o verão. Foi assim especificamente com a filmografia do próprio Spielberg nos anos seguintes com E.T. e os filmes da série Indiana Jones, bem como do seu grande amigo George Lucas e Star Wars. Pro bem e pro mal, Tubarão foi o precursor do cinema blockbuster!

Spielberg fez uma boquinha e encheu o bolso de dinheiro!

A PRODUÇÃO

Como de praxe em qualquer histórico de filme produzido nessa época, ele foi abarrotado de problemas. Era o segundo grande filme do Spielberg, depois de Asfalto Quente (1974) e seu nome chegou aos produtores depois que o primeiro diretor pré-selecionado acabou com as próprias chances ao chamar o tubarão de “baleia” repetidas vezes. Heh. Com o orçamento na casa dos 4 milhões de dólares e as filmagens programadas para levar 55 dias mais ou menos, o filme acabou custando mais de 9 milhões e levou quase 160 dias para ser filmado! O próprio Spielberg achou que sua carreira tinha acabado quando estava para entregar tudo.

O roteiro não ficou pronto até o dia de filmagem praticamente, e foi baseado no livro de mesmo nome do autor Peter Benchley. Foi ele mesmo, aliás, quem produziu três versões do texto até que o diretor e dois roteiristas, Carl Gotlieb e Howard Slacker (sem créditos no filme), resolveram se meter para deixar os diálogos mais leves e agradáveis, amenizando alguns personagens. O lance é que mesmo durante a própria filmagem o roteiro ia sendo alterado, em especial na parte dos diálogos, usando improvisos do elenco durante os ensaios. Anos depois o ator Richard Dreyfuss, que interpreta o oceanógrafo Matt Hooper na história, comentou que eles haviam começado a produção “sem roteiro, sem elenco e sem tubarão”.

COM QUE DINHEIRO, BRÓDI?

O TUBARÃO

Apelidado de Bruce por Spielberg, em homenagem a seu advogado, o tubarão era a estrela do filme, obviamente. O plano era utilizar o animal em diversas cenas e, para tanto, foram buscar um especialista em animatrônicos: Bob Mattey, o produtor de efeitos especiais responsável pela lula gigante em 20.000 Léguas Submarinas (1954). Foram criados três tubarões para serem utilizados no filme e que funcionavam super bem galpão onde foram montados, mas que ao primeiro contato com água salgada, PFFF. Há quem diga que a gente aprende com os erros, mas como o making of de Jurassic Park mostra, Spielberg ainda sofreu por muito tempo por querer colocar seus animatrônicos em contato com a água.

O fato é que, como os tubarões não funcionavam de acordo e o filme precisava ser terminado, ele chegou a uma conclusão com a editora Verna Fields te tornar o tubarão uma ameaça mais “hitchcockiana”. Assim sendo, o filme ganhou um grau de tensão ainda maior porque o público passou a lidar com o peixe assassino sentindo medo sem vê-lo. Como era possível ver apenas o resultado dos seus ataques, além de escutar a música-tema de duas notas composta por John Williams, a sensação do medo passou ser maior do que se o tubarão estivesse na nossa cara desde o início.

“RIDI, PAGLIAAAAAACCIOOOOO!” 🎵🎵

O bicho só aparece pela primeira vez lá pela marca do minuto 81, de um filme com 120 minutos. E foi assim, na base da gambiarra, que Spielberg criou uma das obras-primas do cinema de monstro da história! Foi só durante a primeira exibição-teste que ele percebeu a pérola que tinha em mãos:

“Foi a primeira vez que eu percebi que o tubarão funcionava, que o filme funcionava, que tudo funcionava (…) O público pulou das cadeiras. Eu vi pipoca voando na frente da tela duas vezes durante a exibição. Mas eu fui ganancioso e pensei, ‘nossa, será que eu consigo fazer essa pipoca voar pra fora do pacote três vezes?’ E foi aí que eu resolvi filmar a cena na piscina da minha editora, Verna. Eu tinha uma ideia de colocar o Richard Dreyfuss para mergulhar e ir arrancar um dente do tubarão do casco de um barco, mas nessa hora a cabeça de Ben Gardner viria flutuando pelo buraco. Então filmei tudo com um pouco de madeira e uma cabeça falsa na piscina”.

Escrevendo essa coluna, eu me deparei com esse trecho de entrevista e morri de rir porque, ao ver o filme novamente FOI JUSTAMENTE NESSA PARTE QUE EU PULEI DO MEU SOFÁ. Heh. Spielberg, te amo, cara! ❤️

“Alguém levou anos para reparar que o cara que cumprimenta o Hooper nas docas é o mesmo cara que cumprimenta o Hooper debaixo d’água?” TÔ BOQUIABERTO!

O FILME

Impressionante como ele continua atual hoje em dia. Pela internet afora há diversas análises sobre o que é Tubarão. Qual o tema do filme? Ele fala sobre o quê? E, enquanto eu ache muito curiosa a maioria dessas análises, para mim Tubarão é um filme de monstro puro e simples. Bem feito, bem amarrado, com drama, ação e tensão o suficiente para te manter entretido e ligado na tv por duas horas inteiras.

Ele não segue a maioria das teorias de roteiros que dizem que todo personagem tem que ter um arco, ou uma jornada do herói. O chefe de polícia Martin Brody começa o filme igual a ele termina, talvez ele tenha perdido o medo de água, mas no geral ele não se desenvolve muito mais. Além dele, há apenas Matt Hooper que também não tem nenhum arco. São só dois caras contra uma cidade e contra um tubarão que devora várias vítimas no processo.

Brody, meu bródi.

A história não perde muito tempo e em menos de 5 minutos nós já vemos o primeiro ataque do animal, devorando uma pobre moça na praia. Em seguida conhecemos o chefe de polícia interpretado por Roy Scheider vivendo na pacata cidadezinha de Amity Island. Um lugar fictício que fica provavelmente ali na área de Long Island, NY. Ele descobre que a moça foi morta por um tubarão e resolve fechar as praias para impedir novos ataques e proteger a população.

Numa reviravolta que seria típica de vilões e políticos equivocados do cinema, o prefeito fica com medo do potencial ataque de tubarão, mas não porque a população ficaria em risco, mas porque a economia do local dependia bastante do público que viria passar as férias de verão nas praias locais, além do feriado de 4 de julho que se aproximava. Numa jogada clássica de certos políticos aí, tá ok? Ele ignora os avisos do chefe de polícia e do oceanógrafo especialista que ele chamou para ajudar e abre as praias para banho. Óbvio que outros ataques acontecem, entre eles o de uma criança de 10 anos, ou menos.

É SÓ UM BAIACUZINHO, TÁ OK? EU, COM MEU HISTÓRICO DE ATLETA SAIO NADANDO RAPIDINHO DESSE PÊXE QUE TÁ NISSO DAÍ!

Em meio a outros pescadores que querem se aventurar em capturar o grande vilão das praias, Brody e Hooper se juntam ao caçador de tubarões profissional, o Capitão Sam Quint. Que no melhor estilo Ahab e Moby Dick, fez de sua vida uma jornada de vingança contra todos os tubarões, já que ele havia sido um dos poucos sobreviventes de um naufrágio no oceano pacífico no fim da segunda guerra. Todos os seus amigos haviam sido devorados por tubarões enquanto boiavam por cinco dias à deriva, esperando resgate. Em seu barco “Orca”, os três partem em busca do grande tubarão branco que aterroriza o local, mas percebem que ele é um desafio muito pior do que imaginavam.

Hooper e Quint. O oceanógrafo e o pescador. O estudioso e o experiente.

Tô LendoPontos Fortes
  • Spielberg. Estilo. Muito estilo. Depois de velho e sabendo reconhecer o estilo do diretor, rever Tubarão é uma experiência fascinante. Você encontra cacoetes e paralelos que ele repete com certa frequência nos próprios filmes, como o clássico Spielberg Face. Além de detalhes mais técnicos como o uso de filtros com dioptria de foco dividido, colocando em foco duas coisas em planos diferentes.
  • Clássico. É isso, né? Clássico é clássico e vice-versa. Vale super a pena porque é uma aula de roteiro (apesar de uma leve barriga no terceiro ato) e uma aula de cinema em geral. Spielberg sabe criar tensão e suspense e esse filme é a prova disso (e muitos outros, né?). E olha que é o segundo filme grande dele!
  • Disponibilidade. Tem em vários lugares para assistir e em diversas plataformas de streaming. Netflix, Amazon Prime e Telecine Play. Divirta-se.
Tô LendoPontos Meh
  • Bruce. A graça toda do filme está onde a gente não vê. E é aquele negócio: “The shark still looks fake”. Hoje em dia, com os mega-sharks e sharknados pode parecer ainda mais gritante a diferença do animatrônico. Mas podemos considerar o charme do filme hoje em dia.
  • Sequências. Como eu lembrava mal do primeiro, fui saber um pouco mais sobre as continuações e AFE. Só pelo enredo já dá para sentir que os filmes são bem ruins. Em Tubarão 2 (1978) os ataques de tubarão retornam à Amity como uma forma de retaliação dos tubarões ao Chefe Brody. Tubarão 3D (1983) é tipo um Jurassic Park com tubarões, mas era só uma desculpa para usar efeitos em 3D no cinema. E Tubarão: A Vingança (1987), o animal vira uma espécie de assassino sobrenatural que vai atrás da família Brody até às Bahamas em busca de vingança!

O verdadeiro vilão da história é a boa e velha POLITICAGEM!

Adorei rever o filme! É um clássico divertido e eu fiquei verdadeiramente entretido e envolvido com a história mais uma vez. Ajuda bastante na identificação nós estarmos passando por uma situação atual onde há um perigo grande nas ruas e as autoridades responsáveis sendo absolutamente inaptas! Triste, porém real. 

Mas a graça do Steven Spielberg está toda lá, como o grande cineasta de filme-pipoca que ele é. Todos os elementos que ele mesmo reaproveitaria em filmes posteriores e que fãs copiariam anos depois em filmes como Super 8 (2011), ou seriados como Stranger Things (2016). Só um exemplo final. Enquanto procuravam pelo tubarão, há uma cena no barco onde o Capitão Quint olha para o oceano e sua linha de pesca dá uma puxada curta. Ele olha de lado, preocupado e a linha puxa mais um pouco. Quint então se prepara e põe o cinto que o prende ao barco e ajeita a vara de pescar exatamente quando a linha passa a puxar com mais força e desenrolar freneticamente. Minha cabeça voltou direto para o copo d’água no ataque do T-rex.

Everything is a remix, guys.

“Com licença, você teria um tempinho para ouvir a palavra de nosso senhor das profundezas, o Kraken?”


Tubarão vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-06-24T14:40:26+00:00 22 de junho de 2020|0 Comentários