NÃO ENTRE EM PÂNICO! Hoje é o dia da toalha (também conhecido como o “dia do orgulho nerd”), então pegue sua fiel escudeira de banho e vamos rebobinar mais um clássico da literatura! Hoje a Rebobinando é sobre O Guia do Mochileiro das Galáxias!

Palma, palma! Não priemos cânico!

Vamos lá, não vou fingir que eu sou super cult desde pirralho! Durante boa parte da minha infância e adolescência, ser chamado de “nerd” na escola era um xingamento brabo. Em geral aplicado àquela galerinha mais CDF/estudiosa, os favoritos dos professores, ou ainda àquela pessoa mais certinha em sala de aula. Dois desses quesitos, inclusive, eu figurava com frequência nas escolas que eu frequentei. Então veja bem, esse não era um termo ao qual eu me afeiçoava durante o meu crescimento.

Meu contato com Douglas Adams, O Guia e o termo “nerd” como algo positivo só foi acontecer durante a faculdade, a partir de 2001. Com os filmes de heróis começando a bombar os nerds foram ganhando mais espaço e eu fui encontrando amigos com quem podia divir os meus gostos em comum. Como comentei aqui quando falei de Deuses Americanos e Belas Maldições, ambos livros de autores britânicos e bem-humorados, nós trocávamos livros e indicações e fomos conhecendo outros trabalhos de outros autores. E se levarmos em consideração que O Guia do Mochileiro das Galáxias serviu como inspiração para boa parte da literatura fantástica, de ficção científica e de humor desde então, era de se esperar que ao começar a ler Gaiman e Pratchett, eu acabasse indo parar nas mãos de Douglas Adams.

“A história até aqui: No ínicio, o universo foi criado. Isso deixou muita gente nervosa e foi encarado amplamente como uma péssima decisão.”

O Autor no Fim do Universo

Douglas Adams foi um típico britânico. Filho de família modesta, ele ganhou reconhecimento na área da escrita e literatura logo cedo, ainda na escola e na faculdade. Porém na vida adulta teve uma certa dificuldade em emplacar seus roteiros e esquetes de comédia para os programas de rádio e TV da BBC. Só em meados dos anos 70, mais especificamente em 1974, foi que ele emplacou um esquete em The Monty Python’s Flying Circus, depois de ter sido descoberto por um dos membros do grupo, Graham Chapman. O esquete, chamado Patient Abuse, foi exibido no último episódio da última temporada do programa (que tem na netflix, então corre lá).

Depois disso ele emplacou mais roteiros em outros programas de rádio da BBC (vamos lembrar que no Reino Unido o rádio ainda é um veículo muito popular e tradicional) até virar editor e roteirista de outro seriado que eu amo, Doctor Who. Por dois anos ele trabalhou na série, durante o período do Quarto Doutor, interpretado por Tom Baker. Dois episódios são assinados por ele, The Pirate Planet e City of Death, além de um terceiro, intitulado Shada, que não chegou a ser terminado (devido a uma greve de funcionários na época). Renomeado como “O Episódio Perdido” ele foi terminado duas vezes, uma em 1992 e outra em 2017. A primeira em live-action e a segunda em animação. Além disso, em 2012 a BBC lançou uma novelização adaptada do roteiro original de Adams, escrita por Gareth Roberts, que ganhou muitos elogios dos fãs.

Douglas Adams escreveu para o Doutor, mas foi um doutor em Monty Python!

Adams ainda emplacou outros trabalhos que uniam elementos de boa parte dos trabalhos da sua vida, como O Guia e Doctor Who. Uma delas foram os dois livros da Dirk Gently’s Holistic Detective Agency que além do humor nonsense habitual enveredava por um lado de horror também. Os livros foram adaptados para uma série pela Netflix, com Elijah Wood

O Guia do Mochileiro das Galáxias

A relação do Reino Unido com o rádio como meio de comunicação é algo que não se vê em todo lugar. Além dos programas de música e notícias habituais que podemos encontrar em diversos países, lá é o único lugar do mundo em que ainda se produz e se ouve o que chamamos de “radionovelas”. Até hoje, aliás! Vira-e-mexe nós podemos encontrar alguma adaptação de algum livro da cultura popular britânica em formato de radionovela da BBC (em geral tem muita coisa do Neil Gaiman assim).

Nos anos 70 isso não era diferente, óbvio, e foi assim que O Guia surgiu. Como uma radionovela, transmitida pela BBC Radio 4, em 1978. E depois de um certo sucesso, solicitaram que Adams produzisse um livro com o material da série de rádio, que foi publicado no ano seguinte, virando uma febre! Aqui no Brasil, o livro foi primeiramente publicado em 1986, pela editora Brasiliense com uma capa H-O-R-R-O-R-O-S-A (ou no mínimo engraçada). Mas foi só com a edição da editora Sextante, lançada em 2004, um ano antes do lançamento do filme, que eu fui conhecer a obra por completo. 

À esquerda, a capa da primeira edição britânica do livro. Em seguida a capa da edição brasileira de 1986. E as capas das edições mais novas de 2005 e 2004.

O primeiro livro adapta os primeiros quatro episódios da série de rádio, e conta a história de Arthur Dent, um típico rapaz britânico que acaba sendo salvo do fim do mundo por um amigo, Ford Prefect. Ele não sabia, mas Prefect é um alienígena que trabalha para o guia do mochileiro das galáxias, preenchendo-o com informações de diversos lugares do universo para ajudar viajantes interestelares a não se perder. Eles acabam sendo resgatados pela nave Coração de Ouro, tripulada por ninguém menos do que o presidente da galáxia e semi-primo de Prefect, Zaphod Beeblebrox. Além dele temos também uma humana chamada Trillian e pelo robô-maníaco-depressivo Marvin

O livro gira em torno do grupo tentando resolver o problema da destruição da Terra. Acontece que os Vogons, uma raça alienígena, estavam construindo uma rodovia espacial e, bom, a Terra estava no meio do caminho! Na esperança de comprar uma nova Terra para pôr no lugar, eles partem para o planeta Magrathea e descobrem quase que sem querer qual o sentido do nosso planetinha azul: Uma raça muito antiga construiu um supercomputador inteligente chamado Deep Thought para responder à pergunta suprema sobre a vida, o universo e tudo mais. Ao que o supercomputador responde apenas “42”.

Marvin e Arthur no seriado dos anos 80 e Trillian e Marvin no filme de 2005.

Como ninguém entendeu a resposta suprema, o supercomputador avisa que isso só aconteceu porque eles não sabiam qual era a pergunta suprema, então ele construiu um outro supercomputador que poderia formulá-la. E sim, esse supercomputador era a própria Terra. E ela havia sido destruída pelos Vogons a meros cinco minutos de finalmente formular a pergunta suprema! A história termina com os personagens indo para o restaurante no fim do universo e não se resolve por completo no primeiro livro. Seria preciso ainda uma “trilogia de cinco livros” para que fosse concluída com todos de volta aos seus devidos lugares. As continuações são:

  • O Restaurante no Fim do Universo (publicado originalmente em 1980);
  • A Vida, O Universo e Tudo Mais (publicado em 1982);
  • Até Mais e Obrigado Pelos Peixes (de 1984);
  • Praticamente Inofensiva (de 1992).

“Tem uma teoria que diz que se alguém descobrir exatamente para quê o universo serve, ele vai desaparecer instantâneamente e ser substituído por algo ainda mais bizarro e inexplicável.”

Tô LendoPontos Fortes
  • Humor. O livro é repleto de humor nonsense de primeira linha. Se você é fã do típico humor britânico, da galera do Monty Python, Terry Pratchett e afins, é um prato cheio. Com passagens hilárias do início ao fim. Duvido você não rir com o lance da baleia e do vaso de plantas.
  • Ficção Científica. É interessante ver a aplicação das ideias absurdas dele para um tipo de ciência fantástica usada no livro. Coisas que muitos fãs (e nerds) atualmente já consideram clássicas como o peixe-babel, ou o motor de improbabilidade infinita, ou ainda o campo de problema de outra pessoa.Filosofia. Adams se intitulava um “ateu radical” e isso se vê por toda sua obra. Os livros, portanto, são repletos de pensamentos e filosofias que se apresentam em forma de piada muitas vezes, mas que numa olhada mais profunda escancaram o absurdo e a hipocrisia de nossas relações com as coisas do dia-a-dia, em especial a religião.
Tô LendoPontos Meh
  • Prazos. Tem uma citação do próprio Douglas Adams onde ele diz “eu adoro prazos, adoro ouvir o barulho de vento que eles fazem quando passam”. Muitos que eram próximos ao autor já disseram que ele não era muito afeito aos prazos e que era muito difícil dele terminar alguma coisa no tempo determinado. E isso se faz notar na obra como um todo, em especial nos últimos livros da “trilogia”.
  • Franquia. A relação dos britânicos com suas séries é uma parada meio louca. E se você quiser acompanhar absolutamente tudo sobre O Guia, é um trabalho exaustivo. São radionovelas dos anos 70, livros, revistas em quadrinhos, seriados de tv dos anos 80, áudio livros, peças de teatro, filme de Hollywood e outras tantas coisas para acompanhar que eu já perdi a conta. Pelo menos os livros são fáceis de achar, já que desde o lançamento do filme em 2005 houve um novo interesse na obra.

“Ah, não! De novo, não!”

Até mais e obrigado pelos peixes!

No fim, o livro é super divertido e eu recomendo amplamente que você o leia, se é que já não leu. Afinal a Rebobinando tá aqui para isso também, né? Lembrar do que a gente gostava de ver, mas indicar essas coisas “velhas” para quem nunca leu, ou viu, antes.

Douglas Adams é um mestre da comédia e com certeza dá para dar umas boas gargalhadas com a obra dele, especialmente essa aqui. O filme de 2005 também é bem bacana e eu acho que é uma adaptação bastante honesta da obra. Tem algumas das sequências mais hilárias do cinema que eu vi na época, como o uso do motor de improbabilidade infinita e o número musical dos golfinhos. Além de contar com um elenco irado com Martin Freeman, Zooey Deschanel, Sam Rockwell e Alan Rickman


O Guia do Mochileiro das Galáxias vale infinitas improbabilidades de rebobinandos! ❤️🔥✔️🐶🥑🤸🌅📐🏳️‍🌈🦴🐬🐳🌱🍍🧂🎫🎨♾

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.