Rebobinando #125: Homem-Aranha vs Wolverine

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Ah, os anos 80. Aquela época inesquecível da Guerra Fria, do Muro de Berlim, do apocalipse atômico, do medo do comunismo… opa, talvez nem tudo seja tão saudoso assim! Mas já naquela época a Marvel lançava crossovers com seus personagens mais populares. Então vem rebobinar Homem-Aranha vs Wolverine!

Sorrisos e Sangue no Ar. Parece nome de livro de espionagem dos anos 40.

Sempre gostei muito do Homem-Aranha, mas nunca fui um fã particularmente engajado do Wolverine. Quero dizer, eu achava ele bacana e tals, as garras e o fator de cura eram poderes “novos” para mim, mas era só isso. Em grande parte, durante os anos 80 e 90 o tampinha canadense era mais uma versão mutante do Justiceiro do que qualquer outra coisa. Só depois que eu passei a acompanhar as revistas dos X-men é que eu fui conhecer melhor os personagens e ter os meus favoritos: Noturno, Fera e Gambit (só para citar alguns).

Acho que por influência do senso de responsabilidade do cabeça-de-teia eu tinha uma certa repulsa pelos personagens mais sanguinários e nunca fui muito com a cara do próprio Wolvie, do Justiceiro ou do Lobo (apesar de apreciar algumas histórias deles, depois de velho, por diversos motivos). Ainda assim, uma coisa que eu curtia nos crossovers do Aranha com este tipo de personagem era justamente este embate de ideias e em como ele ficava meio perdido na história até encontrar um motivo que o fizesse manter os seus princípios. Como por exemplo o outro crossover entre o Aranha e o Wolverine, pelas mãos de Todd McFarlane.

“Se algum dia um homem lhe oferecer garras, isto é Impulse!”

Este crossover em específico não foi diferente. Na verdade, eu diria que foi o mais “na cara” de todos. Não à toa também, foi o primeiro deles entre os dois personagens. As diferenças entre os estilos de cada um são muito bem evidenciadas e repetidas durante toda a aventura, algumas vezes até à exaustão. O que faz o texto do roteirista Jim Owsley ficar um pouquinho chato, na verdade. O que é uma surpresa, tendo em vista que ele basicamente fez de tudo nas HQs desde o final dos anos 70, quando trabalhava em Conan, O Bárbaro de Larry Hama. Priest foi o primeiro editor afro-americano das HQs (justamente com o Aranha, entre 1985-86) e é um dos membros fundadores da Milestone Media, a editora de super-heróis negros criada em 1993 juntamente com outras figuras conhecidas como Dwayne McDuffie e Denys Cowan. O cara passou como roteirista e/ou editor por várias revistas, entre elas Luke Cage e Punho de Ferro (1984-86) e o Pantera Negra (2001-2002). Hoje ele trabalha para a DC Comics com um novo nome: Christopher J. Priest.

Curiosidade: A coisa do novo nome dele nunca foi bem explicada, mas segundo uma entrevista ele mudou de nome depois do divórcio porque ele havia prometido que se seu casamento não desse certo, ele viraria um pastor. E virou, já que “priest” também pode ser “pastor” em inglês. 

Ainda há muitas críticas ao seu estilo de contar histórias, no fim das contas. Sempre tem alguém que não curte o estilo do cara e eu nem posso apontar muito, já que não lembro de ter lido muitas coisas dele a não ser meia dúzia de histórias do Aranha nesta fase. Curiosamente, a história da lua-de-mel de Peter e MJ em Homem-Aranha #100 é dele, também. Ainda assim, eu gosto bastante desta aqui.

Um dos raros casos onde a capa brasileira é melhor que a americana!

A história

Ela abre estabelecendo bem quem é o Wolverine. Longe dos dramas pelos quais ele passava em X-men do Claremont na época, nosso querido Logan aqui é o que é. É bom no que faz, o que faz não é bonito e ele gosta mesmo assim. O vemos dilacerando diversos agentes da KGB ao mesmo tempo, para proteger um amigo chamado “Charlie”. Ficamos sabendo depois na história que “Charlie” é um apelido para “Charlemagne” e que, na verdade, trata-se de uma mulher. É uma daquelas coisas que causa confusão na tradução para o português, mas que em inglês ninguém percebe. É um truque bacana para acharmos que Charlie, o maior espião e assassino da KGB durante a Guerra Fria fosse um cara, e não uma mulher. Wolverine a salva e depois voltamos ao presente, acompanhando Peter Parker tendo suas habituais crises existenciais.

Ele testemunha um assassinato de um casal de velhinhos de uma mercearia local e fica em crise sobre se é necessário bater fotos do crime para vender para o jornal. Ele se martiriza por “ganhar a vida” com o sofrimento dos outros, o que soa meio estranho porque nunca foi o tipo de problematização que ele tenha criado em sua vida profissional. Mas que seja, serve para estabelecer bem a diferença entre os dois heróis. Enquanto um sorri diante de tanta carnificina, temos o outro que sofre diante dela. Um pouco mais tarde, Peter sai do cinema com Mary Jane, onde eles viram o filme “Python” com “Sylvester Rambone” (uma clássica piada com “Stallone: Cobra”) e ele reclama dizendo que “ver um machão de metralhadora moendo outros caras na porrada não é exatamente divertido”. 

Heheheh. “Sylvester Rambone”.

É quando o sentido de aranha bate com força e ele meio que se desespera para se arrumar. O sentido está tão forte que ele demora uma eternidade para se vestir de Homem-Aranha e quando finalmente consegue, duas pessoas já foram mortas em pleno Times Square, a SWAT já está chegando e ele é visto novamente como uma ameaça. 

No Clarim Diário, Ned Leeds, um dos personagens secundários de grande importância na vida do cabeça-de-teia na época, conversa com JJJ sobre os crimes recentes. Ele descobriu que todas as vítimas eram ex-agentes da KGB vivendo em solo americano e que o assassino só poderia ser o famoso espião Charlemagne! Ele convence Jonah a pagar-lhe uma passagem para Berlim onde ele poderia investigar mais informações e de quebra leva Peter consigo como fotógrafo, já que ele não estava se sentindo bem com seus recentes fracassos em salvar vidas e havia desistido (mais uma vez) de ser o Homem-Aranha.

Quer dizer que o Homem-Aranha vai para… LONGE DE CASA?

Em Berlim, Peter é farejado por ninguém menos do que o nosso carcaju preferido! Essa parece ser o primeiro grande encontro entre os dois porque Wolverine sente o cheiro do “moleque” e pensa consigo mesmo “nunca vi esse guri na vida, mas tenho certeza de que ele é o Homem-Aranha!” E, ao invadir o quarto de hotel do amigão da vizinhança, o próprio herói finge que não o conhece, ao que ele ouve um “corta essa, já revirei teu quarto, eu sei quem você é”. Hehe. Logo em seguida, os dois passeiam pelos céus de Berlim e basicamente tudo isso foi só para Logan mandar Peter embora. O aviso vem com aquele “tu não sabe onde tá se metendo”, “essa não é a tua praia” e “pega um avião e vai embora”.

Um dos pontos de maior bagunça nas histórias do Aranha começou aqui!

Decido, Peter resolve ficar e volta para o hotel onde encontra seu amigo Ned Leeds amarrado em uma cadeira e com o pescoço cortado! Assassinado por espiões da KGB, provavelmente. Sem saber como reagir ele resolve ir atrás de Wolverine, além do muro de Berlim e corre atrás de uma loja de fantasias para encontrar algum uniforme que sirva para ele agir em segredo. Em mais um dos grandes momentos de humor do herói, ele se ferra tentando falar em alemão com o dono da loja e consegue um uniforme bem parecido com o seu antigo uniforme azul e vermelho, mas com o texto “Die Spinne” escrito nas costas, heheh.

Curiosidade: “Die Spinne” significa “A Aranha” em alemão e foi, durante anos, o nome do herói no país. 

Enquanto isso, Wolvie encontrou Charlie e ele tentou dissuadí-la de sua matança/vingança. Eles passam uma noite juntos, o Aranha entra no meio do encontro e eles quebram o pau dentro de um restaurante cheio de agentes secretos e espiões, dando Charlie a chance de fugir. Logan reclama que o cabeça-de-teia atrapalhou tudo e que agora era preciso que os dois a encontrassem antes das outras agências internacionais, como a própria KGB, a CIA, o MI-5, etc. Caso contrário, Charlie poderia ser dada como morta, já.

Após muitas discussões e enfrentamentos ideológicos (e daí a parte do “repetitivo” no texto do roteirista) ambos acabam encontrando Charlie em um cemitério. Ela pede a Logan uma “morte piedosa”, já que para ela não há nenhuma salvação. Ela cometeu tantos crimes que seria impossível se esconder em algum lugar do mundo e, caso ela seja pega por qualquer uma das agências, seu futuro consistiria apenas de tortura para revelar seus segredos de espionagem. E é aí que temos a derradeira batalha entre o Aranha e Wolverine. O versus do título.

Meu sonho é ver esses dois no cinema um dia.

Peter acha absurdo que Logan queira matar a própria namorada, e Logan acha que Peter é uma criança que não sabe no que está se metendo, que seu mundo, seus dramas, são muito mais complexos do que ele possa compreender. E o pau quebra, viu? Quebra feio entre os dois, já que o Aranha é um dos poucos que pode socar o Wolverine sem problemas por causa dos ossos de adamantium! Porém, há algo de errado. Como Peter está duvidando de si mesmo durante toda a aventura, ele não consegue lutar direito contra o Wolverine e só consegue reagir. Mesmo quando ele consegue dominar o X-man e ameaça enforcá-lo, Logan sorri e diz algo como “eu sei que você tem a força para torcer o meu pescoço e me matar, só que você não tem coragem. Eu tenho!” e ameaça soltar as garras sob o pescoço do herói.

Só quebrar o pescoço?! Ah, que saudade do velho fator de cura nerfado dos anos 80.

Nisso o cemitério é cercado por agentes que ainda tentam capturar Charlie durante a luta dos dois. Wolverine parte para cima de alguns e Peter fica meio atordoado, distraído. É quando alguém chega por trás dele. E como ele estava dependendo só do sentido de aranha para reagir, não teve dúvidas, virou dando um soco com toda a força achando que fosse o Wolverine.

Mas era Charlie.

Durma com os anjos, Charlie! Hein? Hein?

Ela morre nos braços do mutante, agradecendo a ajuda, dizendo que um dia se reencontrariam. Logan olha para os agentes e diz que sua namorada está morta, ao que todos se retiram do local como fantasmas. Peter volta à NY ainda incerto de tudo o que fez, carregando nas costas a culpa por ter matado Charlie e Ned Leeds indiretamente. A história termina com ele chegando em casa e abraçando a MJ.

Tô LendoPontos Fortes
  • Pontos de Vista. É uma coisa bacana dos quadrinhos. As diferentes formas de se interpretar suas ações e seus códigos de honra. Aqui em específico parece que além das diferenças entre o Aranha e o Wolvie, temos também a diferença entre os anos 60 e os 80, já que cada herói é uma marca do seu tempo. É bem bacana notar as sutilezas do roteiro colocando a MJ vendo um álbum de fotos antigas, ou mesmo o Aranha precisando usar seu uniforme azul e vermelho e não o uniforme negro que ele usava nos anos 80.
  • Desenhos. Mark D. Bright é um ótimo desenhista e funciona muito bem desenhando o Homem-Aranha e seus movimentos. Ele tem uma noção muito legal de ação e toda a revista é bem empolgante neste aspecto, exceto no início. Achei o Wolverine dele meio feio no começo, mas é só birra. O cara trabalhou também em Homem de Ferro na época da Guerra das Armaduras e em Lanterna Verde: Amanhecer Esmeralda.
Tô LendoPontos Meh
  • Repetitivo. Sei que eu também estou sendo repetitivo, mas o embate de ideias entre os dois heróis da história podia ter sido mais sutil, digamos assim. Sei que nem sempre as HQs são um lugar de sutileza, ainda mais na Marvel, mas é isso. Me parece que muito das reclamações do estilo dele que eu pude ver nos reviews da internet são justamente por conta deste tipo de coisa. O que é uma pena, pois ele tem umas ideias bem bacanas.
  • Cronologia. Essa história foi um chute no saco dos escritores do Aranha na época. Tudo por causa da morte do Ned Leeds que trouxe um problema enorme no desmascaramento de um dos vilões mais presentes nas histórias daquele período, o Duende Macabro. Isso acabou gerando uma das maiores confusões dos quadrinhos e um dos retcons mais retconescos que eu já vi! Tá ali téte-a-téte com a Saga do Clone!

O Duende Macabro

SEM TRUQUES! EXCETO PELO RETCON DE 1997!

Nos EUA, essa história saiu em uma one-shot chamada Spider-man vs Wolverine #1, lançada em 1987. Aqui no Brasil ela saiu em 1991, em O Homem-Aranha #94. A revelação sobre a identidade do Duende Macabro como Ned Leeds foi um dos #FUÉNS mais gigantescos da época e envolve muito planejamento, muita discórdia e muita passada de perna pelos corredores da Marvel. Por aqui essa revelação saiu nas duas edições seguintes da revista, com uma das capas sendo bem clara, revelando a identidade do vilão SEM TRUQUES, SEM FARSAS, SEM ENGANAÇÃO! Mal sabíamos nós, hahahah!

O lance é que o Duende Macabro havia sido criado por Roger Stern e John Romita Jr. como um novo vilão duende, sem precisar ressuscitar o Duende Verde ou usar outras pessoas no lugar. A ideia não era particularmente inovadora, mas funcionava. Logo de cara Stern não sabia quem seria, mas aos poucos decidiu que seria um dos personagens novos que ele introduziu nas histórias, o milionário Roderick Kingsley. O plano do autor era carregar o mistério da identidade por uma edição a mais do que a identidade do Duende Verde original. Isso seria lá pela edição #264 americana. Só que Stern saiu da revista na edição #251!

Kingsley? Estrangeiro? Ned Leeds? Ou Richard Fisk? Não se iluda! Além desses quatro, as pistas apontavam para VÁRIOS outros!

O editor do Aranha na época, Tom DeFalco, assumiu os roteiros e perguntou a Stern quem seria o vilão. Ao saber que era Kingsley, ele imediatamente não gostou e sugeriu que fosse outra pessoa, o filho do Rei do Crime, Richard Fisk. Além disso, ele achou que seria legal manter o mistério por mais tempo e foi carregando a história. Até que ele mesmo saiu da revista e foi substituído por Jim Owsley. Só que a reação entre os dois não era muito boa e, ao perguntar sobre a identidade do vilão, DeFalco mentiu dizendo que era Ned Leeds. Oslwey, que era o editor na época, matou Leeds nessa história e mandou que Peter David revelasse a identidade do vilão como sendo o mercenário Estrangeiro! Olha que confusão!

David argumentou que não faria isso porque, segundo a dica que eles receberam, fazia todo o sentido que o Duende Macabro fosse Ned Leeds! A dica que era ERRADA, veja só!

Anos depois Roger Stern lançaria uma história só para fazer o retcon necessário e colocar como o “verdadeiro” Duende Macabro o milionário Roderick Kingsley que ele tinha pensado lááá no início!


E você? Lembra de algum outro crossover que tenha gerado tantos problemas assim para cronologia de um herói? Curtia o Wolverine, ou o Aranha quando era moleque? Conta aí nos comentários!

Homem-Aranha vs Wolverine vale três rebobinandos! Só pela bagunça! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-05-19T01:57:14+00:00 18 de maio de 2020|0 Comentários