BADA-BING! BADA-BOOM! BADA-BINANDO! A Rebobinando desta semana vem trazendo aquela época boa em que a ciência era divertida, animada e explicava as coisas. Sem ninguém para questionar se a Terra é redonda, ou se vacina funciona! Vem rebobinar O Mundo de Beakman!

BEAKMAAAAA-AAA-AAAANNN!

No início dos anos 90 a internet ainda não era amplamente difundida, além disso, a tevê a cabo com todos os seus 200 canais diferentes também não era uma realidade. Pelo menos aqui no Brasil, claro. Ainda assim, quando surgiram os canais voltados ao público infantil, eles consistiam apenas no Cartoon Network e olhe lá! Então era nesse contexto que em 1994 a gente era meio que obrigado a recorrer apenas às programações infantis existentes na televisão aberta. Entre elas a gente tinha os programas matinais da Globo com Xuxa, TV Colosso e afins, além dos programas da tarde na Manchete, SBT e Bandeirantes. Mas ainda assim, havia um canal, sempre deixado de lado na hora de competir com os campeões de audiência dessa Era: a TV Cultura!

Como eu era um ratinho de televisão, não fazia distinção entre os programas maneiros que eu gostava de assistir e, assim como muitas crianças da minha época, a programação da TV Cultura foi uma parte importante do meu desenvolvimento com pérolas como o velho Rá-Tim-bum, No Mundo da Lua, Glub-Glub e, claro, O Mundo de Beakman.

“Querido Beakman, por que a galinha atravessou a rua?”

Não me recordo exatamente quando foi que eu o assisti pela primeira vez, mas admito que aos 12 anos eu, todo nerdinho, ficava encantado em “aprender sobre ciência de uma maneira divertida”! Aparentemente eu era de fato o público-alvo do programa, mesmo entrando naquela fase de pré-adolescente com interesses mudando a cada virada da lua. Lembro de uma professora de ciências no primário inclusive citar o programa em sala de aula e eu ficar todo empolgado quando mais da metade da turma nem sabia o que era… enfim. Beakman foi o responsável por moldar o meu interesse em gostar de aprender coisas sobre ciências humanas e da natureza, mesmo que estivessem bem acima do meu nível de aprendizagem.

Acabou sendo um programa meio “feel-good”, sabe? Daqueles que quando a gente tem a oportunidade, assiste inteiro sem nem perceber. Inclusive, estou fazendo isso agora, enquanto escrevo a coluna.

QUERIDO TIO KADU, DE ONDE VEIO O BEAKMAN?

O programa estreou em 1992 nos EUA, no canal a cabo TLC (na época, chamado de The Learning Channel). No ano seguinte, devido ao sucesso ele foi transferido para a rede de TV aberta CBS, também nos EUA. O show foi um sucesso estrondoso, sendo exibido em mais de 90 países, incluindo o Brasil, é claro. Por aqui, ele chegou só em 1994 na TV Cultura. Em 1997 ele passou brevemente pela Record e parou de ser exibido perto dos anos 2000. Em 2006 ele voltou pelo canal Boomerang por aqui até sumir de vez. Ainda é capaz de haver alguma reprise perdida por aí, mas não tenho muita certeza.

O mais curioso de tudo é que o seriado foi inspirado em uma tira em quadrinhos! Criada pelo cartunista Jok Church, com o nome de You Can with Beakman and Jax (ou “Você Pode, com Beakman e Jax” em português), ela fazia a mesma coisa que o programa: respondia dúvidas de crianças sobre coisas da natureza utilizando uma linguagem científica fácil de entender. A tira foi publicada de 1991 até 2016 nos jornais norte-americanos A ideia, incrivelmente, surgiu quando Jok ainda trabalhava para a LucasFilm respondendo perguntas de fãs para o George Lucas. Ao se admirar com a coragem das crianças em perguntar sobre qualquer coisa, ele começou a desenvolver uma tira e uma série de TV com o C3PO e R2D2 ensinando sobre idiomas e ciências da natureza, respectivamente. A ideia não foi aproveitada pelo tio Lucas, então ele adaptou os protagonistas. 

A “tirinha” do Beakman original.

Beakman ainda teve a proeza de estrear um ano antes de Bill Nye, The Science Guy, que era um programa bem parecido que fez um grande sucesso nos EUA. Por aqui, só fui saber do Bill Nye mesmo ao ver The Big Bang Theory. Ainda assim, Beakman não foi exatamente um precursor do estilo de “programa de aprendizado divertido”, já que vários outros programas já surgiram com essa ideia ao longo dos anos (inclusive, a origem de Doctor Who era justamente ser um programa para ensinar história para crianças, antes de ser essa epopéia convoluta de ficção científica e fantasia que temos hoje).

No fim, o show teve 4 temporadas que foram ao ar entre 1992 e 1998, totalizando 91 episódios. Em uma entrevista concedida em 2019 ao UOL, Paul Zaloom explicou o porquê do seriado ser cancelado:

Nós produzimos 91 episódios, que, naquela época, era o “número mágico” para o show ser vendido para reprises. Basicamente, o estúdio não tinha mais interesse financeiro em fazer o programa. O benefício para as crianças do mundo não se encaixava na “equação”. (…) Seria muito caro. Nos EUA, programas de TV para crianças são feitos com pouquíssimo dinheiro hoje em dia. As empresas não querem gastar dinheiro em programação infantil – a menos que haja brinquedos e outras coisas para vender. É algo muito triste e patético.

Eu poderia até fazer aqui um paralelo com a mentalidade anti-científica atual com a mentalidade desses estúdios que não acham interessante criar este tipo de conteúdo, mas isso seria basear todo o meu raciocínio em mera causalidade. E isso não seria científico. 😉

BADA-BING! BADA-BOOM! BADA-BEAKMAN!

O programa tinha uma estrutura simples, exemplificada pelos títulos dos episódios. Geralmente Beakman explicava dois conceitos científicos por programa, com uma série de perguntas rápidas no meio. O programa acima, por exemplo, se chamava “Método Científico, Beakmania e Arco-íris”, sendo o Beakmania a parte de perguntas e respostas rápidas. Normalmente ele emendava em um “Desafio do Beakman” onde demonstrava mais algum conceito científico e terminava respondendo outra cartinha de forma mais completa.

As cartas no entanto, eram uma das coisas mais divertidas da versão dublada no Brasil. O programa trazia perguntas reais de crianças reais nos EUA, obviamente. Mas como em terras tupiniquins os estados e cidades americanos passariam batidos pelas crianças daqui, houve um trabalho bem divertido de localização transformando coisas como Jaime Infeccioso, de Enfermaria Isolada, que era originalmente “James Fox de Odessa, Texas”. Ou ainda Adriano Einstein de Lixa Grossa, que era “Adrian Einstein de Birmingham, Michigan”. A dublagem brasileira, como sempre, mandou muito bem com esse seriado que parecia bem difícil de dublar por conta das caras e bocas que muitos dos atores faziam. 

Lester, o rato. E Mark Ritts, o ator com um agente ruim.

Cada episódio era apresentado pelo Beakman, claro, já que o mundo era dele. Além do cientista maluco, havia sempre uma assistente e o rato de laboratório, Lester. O personagem interpretado pelo ator Mark Ritts era muito engraçado porque trabalhava numa fina linha de metalinguagem, muitas vezes agindo como um rato “de verdade” e outras onde ele era apenas um ator fracassado com um agente muito ruim. As assistentes, no entanto, mudaram a cada temporada do programa. A primeira (e talvez a mais engraçada) era a Rosie, interpretada por Alanna Ubach. Chamada Josie no original, ela tinha uma pinta de doida, andava meio curvada e fazia umas caras engraçadíssimas na hora e ler as cartas ou examinar as experiências. A segunda assistente era Liza, feita pela atriz Eliza Schneider, entrou no programa na terceira temporada e eu achava ela a mais bonita. A última assistente, que entrou na quarta temporada, eu vi muito pouco mas também achava ela super fofinha, era a Phoebe, cujo nome da atriz era Senta Moses. 🤔

Além deles, havia outros personagens coadjuvantes que apareciam com certa frequência. Quando era preciso explicar algum conceito científico de forma mais “chata”, entrava em cena o Prof. Chatoff (“I. M. Boring” no original), ou para fazer um experimento com itens comuns, surgia o cozinheiro Art Burns e sua cozinha imunda! Paul Zaloom ainda interpretava diversas figuras históricas que faziam alguma participação. Não podemos esquecer também do incomparável e sempre solícito Ney (Ray, no original), o cameraman. Ele nunca aparecia, apenas as suas mãos, que apareciam para entregar algo que o Beakman precisava na hora, especialmente o Boguscópio.

Rosie, Liza e Phoebe. As três companions do Doutor… não péra!

Tô LendoPontos Fortes
  • Ciência Fácil. Linguagem simples, clima divertido. Nunca aprender sobre ciência havia sido tão legal. Muito embora eu acredite que aprender sobre este tipo de coisa nessa faixa etária seja muito mais legal (ou mais interessante) do que aprender depois de velho.
  • Dublagem. Incomparável. Flávio Dias é eternamente a voz do Beakman para mim, e jamais vou conseguir ouvi-lo em inglês sem sentir algo estranho. A dubladora Marli Bortoletto acabou dublando Rosie e Liza nas primeiras temporadas. E Carlos Silveira é simplesmente impecável como o Lester e aquela voz meio preguiçosa.
  • Longo. Acho um ponto bom, neste caso. São 91 episódios, a maioria super interessante e fácil de ser assistido em qualquer ordem. Dá para perder hoooras no youtube vendo um atrás do outro.
Tô LendoPontos Meh
  • Inexistente. Não existe em nenhuma mídia. Há um DVD nos EUA chamado The Best of Beakman lançado em 2004, mas não tem programas completos, só trechos separados de experiências específicas. Fora isso e o youtube, a série não existe em nenhum lugar. As quatro temporadas já estiveram no catálogo da Netflix, mas saíram em 2014 e nunca mais voltaram. Uma pena.
  • Antiquado. Acho que é o retrato de uma época, sabe? Havia muita coisa de programas e brinquedos travestidos de “ensino”, como o Pense Bem, ou a maioria da programação da TV Cultura. Nos EUA não foi muito diferente, com o próprio Beakman e o Bill Nye. Não sei como andam os pequenos hoje em dia e se a linguagem e os efeitos do programa os fariam revirar os olhos de tanta tosquice. Mas acho que vale o teste, pela ciência, claro!

Em meio à quarentenas e pandemias, passaram alguns trechos do programa pela minha vista na internet e foi isso o que me fez falar dele hoje. Beakman pode até não ter sido um marco na TV brasileira, mas sem sombra de dúvida o personagem foi muito amado por aqui. Zaloom já veio ao Brasil algumas vezes, as mais recentes foram na Comic Con de 2014 e num evento geek em Curitiba em 2019.

Não vou nem entrar no mérito de “as crianças hoje em dia só assistem porcarias e nada educativo como antigamente”, porque eu realmente não acho que as coisas funcionem assim. A gente também assistiu muita porcaria na nossa época e muita gente só acha bom porque nunca reviu, ou lembra muito pouco do que viu. O fato de eu escrever a Rebobinando me põe em contato com um bocado de coisas antigas que me fazem constantemente rever meus conceitos do que era efetivamente “bom” ou “ruim” (segundo os meus critérios, veja bem). Mas às vezes eu sinto falta de algo que pudesse dialogar melhor com as crianças de hoje em dia, do que apenas um desenho meio caga-regrinha, sabe? Vira e mexe eu encontro uma pérola para assistir com meu pequeno padawan de 3 anos, mas ainda tenho que conviver com centenas de derivados de comerciais de brinquedo nesse meio.

CAI FORA DA MINHA COZINHA!

Enfim, Beakman é um dos programas que pretendo guardar com carinho para mostrar quando ele for mais velho. Na pior das hipóteses, ele pelo menos vai assistir uns dois ou três episódios só para garantir que ele saiba que a Terra é redonda e que vacinas funcionam. Se tiver alguma dúvida, é só fazer como a Raquel Macieira de Pomar Frondoso: manda uma cartinha pro Beakman que eu tenho certeza que ele responde! 

E você? Lembra de algum outro programa científico dessa época? Você também amava o Beakman, ou é um ser humano horrível? Diz aí nos comentários.


O Mundo de Beakman vale cinco BADA-BINGS, BADA-BANGS, BADA-BOOMS! 💥💥💥💥💥

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.