Aí vem um furacão! Ve-eem emoção! Sim, meus queridos. Finalmente a Rebobinando vai relembrar este clássico das manhãs (ou tardes) do SBT! Separa o laser e o avião que hoje vamos falar de Ducktales! Uh-uh!

Antes de mais nada, clica aí e se divirta!

De fato, Ducktales, os Caçadores de Aventuras foi um sucesso absoluto, não só no Brasil nem nos EUA, claro. Mas no mundo inteiro o woo-woo da música tema foi cantado por crianças e adultos e idosos e, quiçá, periquitos e papagaios em todos os lares, quando o desenho ia ao ar. Produzido entre 1987 e 1990, a animação abriu caminho para uma nova, “renascença” da Disney na televisão. Vale a pena lembrar, que nesta época, os estúdios da casa do rato estavam iniciando sua própria renascença no cinema também, com o lançamento de A Pequena Sereia em 1989. O filme já estava em produção desde 1984, depois de ter passado quase uma década no limbo da gaveta. Buscando novos caminhos para conquistar o mercado infantil novamente no cinema, eles estavam investindo pesado na animação e nas músicas. Por que então fazer diferente na TV, não é mesmo? E não fizeram.

Ducktales tinha a responsabilidade de, ao mesmo tempo, ser uma repaginada do estúdio para um novo público infantil acostumado a altas aventuras de He-Man, Thundercats e Tartarugas Ninja (péra, eles ainda não haviam nascido, calma). O desenho precisava ser mais dinâmico do que as histórias habituais que estavam produzindo na casa e precisava se destacar entre o público jovem. Então, nada mais justo do que olhar para um de seus períodos mais aventurescos: e era do cara dos patos, o incrível Carl Barks!

As artes do Barks eram incríveis.

The Good Duck Artist

Todos sabemos que Walt Disney era um mago do empreendedorismo de entretenimento! Sonhador, dedicado e um chefe com mão-de-ferro, ele construiu o seu império com trabalho árduo seu e dos outros. Porque aparentemente, durante os anos 40 e 50 as coisas simplesmente eram assim mesmo. Há incontáveis histórias de artistas que foram explorados e sacaneados pelo pai de Mickey Mouse, assim como ele também havia sido anos antes por outros produtores de desenhos animados. Chumbo trocado não dói, diriam. 

Carl Barks foi um desses desenhistas explorados, obviamente. Vindo de uma família pobre, quase rural, Barks começou a se destacar com seus desenhos quando finalmente teve a oportunidade de trabalhar para os Estúdios Disney em Burbank na Califórnia. Ele entrou como animador assistente e aos poucos foi dando seus pitacos nas histórias. Seu humor sarcástico acabou caindo nas graças do chefe que logo em seguida o levou para o desenvolvimento de histórias. A primeira que ele produziu foi essa gag do Pato Donald cortando o cabelo em uma cadeira de barbeiro automática. Um clássico das manhãs de domingo na globo!

Em 1942 Barks saiu da Disney e acabou indo trabalhar em uma pequena editora que produzia gibis baratos para crianças. Eles tinham um licenciamento que permitiam as publicações de revistas com personagens da Disney, entre outros grandes clássicos da época. Assim, aproveitando a experiência do animador nos estúdios de desenho, colocaram-no para escrever algumas histórias do Pato Donald e o resto a gente já sabe! Durante muito tempo ele foi conhecido apenas como “o cara dos patos” ou “o desenhista bom dos patos” por conta da qualidade e complexidade de suas histórias. Barks era o responsável por todas as etapas de produção, criando as histórias, os desenhos, fazendo a arte-final, balões e letreiramento. Como de praxe na época, os gibis vinham sem créditos, rendendo ao artista os apelidos citados acima.

Durante os anos em que ele passou escrevendo e desenhando essas histórias para os gibis da Disney, Barks acabou criando cada vez mais coadjuvantes para o Pato Donald e seus sobrinhos, sendo o responsável por quase todo o elenco de patos que conhecemos: Tio Patinhas, Della Pato (a irmã de Donald), a cidade de Patópolis, o sortudo Gastão, os Irmãos Metralha, os escoteiros mirins, o Professor Pardal, a Maga Patalógica, Pão-Duro MacMônei, etc. etc.

Sua primeira história saiu no gibi Four Color Comics #9 e POR UM ACASO era uma história em que Donald e seus sobrinhos iam atrás de um tesouro pirata! Em pouco tempo, esta viria a ser um padrão nessas histórias, sempre carregadas de muita aventura, reviravoltas e humor! 

Carl Barks todo fofinho e a primeira história do Donald que o levou em busca de um tesouro perdido.

Carros, Lasers e Aviões

Voltando aos Caçadores de Aventuras, não era de se espantar que a Disney no fim dos anos 80 quisesse ressuscitar uma época tão fértil de ideias para a produção de um novo desenho animado. Muitos dos animadores e produtores provavelmente cresceram lendo essas histórias e, bom, este tipo de aventura também estava em moda na época (vide o próprio Indiana Jones, que é inspirado em aventuras da época de Carl Barks)!

O investimento foi pesado e, nos EUA, eles buscaram um horário mais à tarde, fora da concorrência dos Saturday Morning Cartoons. Além disso, a qualidade da animação (em especial a da primeira temporada) também foi maior do que a média dos desenhos da época, sendo produzida no Japão através da, eu sei que você sabe, Tokyo Movie Shinsha (produtora responsável por Akira, Batman TAS, Galaxy Rangers, entre outros desenhos). Os clássicos de Barks foram sendo adaptados para um público novo, recontando algumas das histórias clássicas, com elementos mais modernos que agradassem as crianças da geração X (ou Z? Ou Millenials? Nunca sei quem é quem). O sucesso foi imenso e a série durou quatro temporadas, lançadas entre 1988 e 1990. A primeira temporada consiste de 65 episódios de mais ou menos 25 minutos cada. As temporadas seguintes foram diminuindo de tamanho, porque acabaram sendo produzidas para serem exibidas em bloco, como se fossem um filme. A segunda tem 10 episódios, a terceira tem 18 e a quarta e última tem 7 episódios. Sem contar o filme, O Tesouro da Lâmpada Perdida, lançado em 1990, pouco antes do fim da série.

A Patota de Patópolis!

O sucesso ainda levou a casa do Mickey a investir pesado em outros desenhos que adaptavam seus personagens mais conhecidos em outros contextos mais aventurescos, como Tico e Teco – Defensores da Lei, Esquadrilha Parafuso, A Turma do Pateta e, claro, Darkwing Duck! Todos esses desenhos, porém, segundo seus criadores se passavam em “universos diferentes” do de Ducktales, o que me deixou muito confuso na época por conta da presença do Capitão Boeing tanto nos Caçadores de Aventuras quando em Darkwing Duck.

Clássicos da década de 90!

A-Woo-Hoo

O investimento pesado não foi apenas na animação, como podemos notar. Mas a música também foi um ponto alto do desenho. Começando com uma promessa de aventura TÂO grande, que era inevitável escutar aqueles primeiros acordes cantados por Luiz Ricardo (no Brasil) e não sair correndo para assistir! A música mostra inclusive uma mudança de tom da própria Disney com relação às suas produções (podemos até ir de volta à Pequena Sereia como exemplo) numa tentativa de se modernizar.

A música segue todas as regras dos grandes sucessos da música pop que estavam sendo feitos na época, e continuariam sendo feitos desde então. É uma fórmula tão básica que o compositor Mark Muller compôs tudo, desde letra até a melodia em 45 minutos, o que parece impensável. Mas era um “sucesso da música pop” como os executivos da Disney queriam, e não “uma música de abertura de desenho qualquer”. O histórico de como ela surgiu e de como ela foi construída é bem bacana como mostra um artigo da Vanity Fair:

Estudos de psicologia nos dizem que quanto mais escutamos uma canção, mais passamos a gostar dela. A nostalgia tem lá sua parte também. Para muitas pessoas, o tema de Ducktales está intrinsecamente ligado a fortes memórias da infância, de se assistir ao desenho depois da escola, de se deixar o dever de casa de lado.

Mas o tema abertura também é uma incrível obra de arte musical e não é apenas um ponto alto de um estilo de música subestimado. É um clássico pop miniatura delicioso com seu próprio estilo.

Pão-Duro MacMônei e Maga Patalógica são dois dos melhores nomes traduzidos em desenhos animados que eu já vi.

A música-tema original ainda contou com a presença do cantor Jeff Pescetto e, de acordo com o pedido dos executivos, a letra contém toda a sorte de elementos relacionados a quadrinhos, como carros, lasers, aviões e… bom, patos! Não só isso, mas o acréscimo de cada elemento da música vai num crescendo empolgante que culmina em um “WOO-HOO” impossível de não cantar junto. Até hoje, Mark Mueller é reconhecido pelo seu trabalho com a Disney e, obviamente, tanto ele quanto Pescetto foram convidados para escrever e cantar as músicas das outras séries do Tico e Teco e do Darkwing Duck. Ambas contêm elementos parecidos com Ducktales, mas não ficaram tão na nossa mente porque ao invés de irem pro SBT quando chegaram no Brasil, que tinha o hábito de colocar as aberturas, foram para a Globo, que cortava tudo para encaixar em sua programação matinal.

A versão brasileira da música foi cantada pelo apresentador Luiz Ricardo, que foi um dos Bozos do SBT. As informações sobre a canção, no entanto, são bem escassas na internet e até hoje eu não sei que é o responsável pela tradução e adaptação da letra. Na versão do remake do desenho, no entanto, a letra foi modificada e cantada por Ivete Sangalo, o que foi um pouco frustrante. Não pela cantora, mas mais por conta da nostalgia mesmo. Escutar a mesma melodia e uma letra “parecida” acaba não tendo o mesmo impacto do que escutar a versão original.

Se você quiser saber mais sobre a música, esse vídeo aqui embaixo é super bacana, mesmo em se tratando da versão original em inglês. 

Tô LendoPontos Fortes
  • Histórias. Mesmo com 65 episódios, o que me vem a mente é que a primeira temporada é muito boa e mais empolgante que as outras. Recentemente, a segunda e terceira temporadas estavam disponíveis na Netflix (mas já saíram de catálogo) e eu achei meio chatinhas. Ainda assim, o filme é bem bacana e o restante do desenho vale bem a pena.
  • Animação. Como acima, a animação da primeira temporada é bem melhor do que as restantes. E muito acima do que as animações de praxe na época. Lembro de me decepcionar muito ao rever He-Man e Thundercats, mas com Ducktales não foi esse o caso.
  • Disponibilidade. Olha, mesmo não estando nos serviços de streaming mais acessíveis, o desenho dublado está disponível em coleções de dvd e bluray, para quem ainda curte colecionar mídias físicas.
Tô LendoPontos Meh
  • Irregular. Apesar de uma primeira temporada boa, as seguintes caíram um pouquinho na qualidade. O que é uma pena. O remake acaba sendo uma versão mais interessante para o público mais novo. Então se você tem um escoteiro, ou uma escoteira-mirim na sua casa, talvez valha mais a pena curtir o remake.
  • Disponibilidade. Ponto bom ou ponto meh? Bom, neste caso, acho que pode ser tanto um quanto outro. Eu preferiria ter disponível em um serviço de streaming.

Aqui no Brasil, o trabalho de dublagem foi excelente como de praxe. E muitos dubladores novos na época começaram fazendo as vozes de personagens menores do desenho. Com vozes clássicas como o predestinado Antonio Patiño como Tio Patinhas, Miriam Fischer como Luisinho (o de verde), Márcio Simões como o Pato Bubba (o pato das cavernas), Ilka Pinheiro como Maga Patalógica e o grandíssimo Orlando Drummond como o Capitão Bafo-de-Onça. Ah, sim. E o meu amigo José Leonardo como o Tio Patinhas criança! 

Durante muito tempo tive muitas saudades do desenho animado, apesar de nunca ter lido as histórias originais do Barks que serviram de inspiração. Alguns amigos mais velhos do que eu lembram bastante dos gibis, ainda mais que durante os anos de exibição e sucesso da série animada surgiu nas bancas uma republicação dessas histórias “disfarçadas” de Ducktales. Durou pouco tempo, infelizmente. Só me resta ir atrás dos mega encadernados que ainda saem, todos bonitos e de capa dura, com as histórias do velho Barks, o “cara dos patos”.

Os gibis que saíram no Brasil com as histórias de Carl Barks.

E você? Certamente era fã de Ducktales, mas teve algum outro desenho da Disney que você curtiu muito? Foi Darkwing Duck? Você chegou a ler os clássicos do Barks, ou só viu pela tevê mesmo? Conta aí nos comentários!


Ducktales, os Caçadores de Aventuras vale, sem sombra de dúvida, cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.