Rebobinando #119 | Extermínio

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O mundo acabou e você estava dormindo. Esta é a premissa de um dos filmes de zumbi que renovou o interesse no gênero, no início deste século. Fica em casa e aproveita a quarentena, que esta semana vamos rebobinar Extermínio!

– Meu Deus, são eles! Os monstros mais perigosos! OS ANTI-VACINAS!

Eu nunca fui um grande fã de filmes de terror, como alguns de vocês já devem saber. Sempre fui uma criança e um adolescente muito impressionável e cada filme de terror que eu via, ficava me perturbando a cabeça por meses a fio, até que eu me esquecesse dele. Foi assim na infância com o clipe de Thriller do Michael Jackson, na adolescência com O Iluminado de Stanley Kubrick, e na minha vida de jovem adulto com O Chamado (o americano, mas em especial o japonês). Então durante muito tempo eu evitei assistir coisas que pudessem me dar muito medo e, nesse meio, acabaram entrando os filmes de zumbi.

Só que muitos de vocês podem virar para mim agora e dizer:

— Mas tio Kadu, filme de zumbi não configura “filme de terror”, exatamente.

Hoje em dia eu sei disso, pequeno jovem nerd™, mas na época, não. Para mim era tudo a mesma coisa! Quer dizer, eu sei que há vários subgêneros dentro de filmes de terror e que um filme de zumbis não necessariamente se encaixa na maioria deles, mas tá lá. São monstros clássicos, tem gente morrendo de forma gráfica e tal e coisa. De qualquer maneira, eu tinha birra (ou medo mesmo) de assistir quase tudo que pudesse me assustar, então eu fiquei sem ver a maioria das coisas na época em que todo mundo viu, e cresci sem muitas referências do gênero, tirando uma ou outra coisa que eu aprendia através das conversas na escola. Quem nunca, né?

É SÓ UMA GRIPEZINHA, GENTE!

Então lá pela virada do século, nos anos 2000-e-pouco, eu acabei entrando em contato com uma porrada de filmes que eu tinha conseguido driblar na minha infância e adolescência. E em pequenas maratonas nas casas de amigos, eu me vi “forçado” a assistir os tão famigerados filmes de terror/zumbi/fantasma/assombração/etc. Entre esses filmes, um em especial me chamou a atenção. E foi Extermínio

Eu tenho uma falha de caráter que preciso corrigir em breve, aliás. Eu nunca vi nenhum dos filmes clássicos do George Romero. Só conheço através de papos e referências obscuras que eu precisei encontrar na internet. Por conta disso, e da cultura pop em geral, eu tinha bem em mente o que era um zumbi. O bicho já era uma figura consagrada no imaginário popular como um ser decrépito, que come cérebros, anda devagar, mas constante. Era uma força irrefreável, que só podia ser derrotada com um tiro na cabeça e tals. Talvez por isso Extermínio tenha me parecido tão chocante quando vi. Ele me foi apresentado como O FILME ONDE OS ZUMBIS CORREM! E isso, por incrível que pareça, ERA SUPER ASSUSTADOR! Porque, né? Se os bichos já eram perigosos lerdos, imagina agora correndo?

E durante a minha pesquisa, eu descobri que esta foi de fato a estratégia de marketing do filme durante o seu lançamento, em 2002. Isso e o fato dele ter sido gravado inteiramente em formato digital.

Olhem, crianças! O Big Ben, o Parlamento… O Big Ben, o Parlamento…

O Big Ben e o Parlamento…

Com essas duas cartas na manga para o marketing, não é de se admirar o sucesso de Extermínio nos cinemas. O conceito em si de zumbis rápidos não era exatamente novo, para ser honesto. Ele já havia sido aplicado em A Volta dos Mortos-Vivos, mas tendo em vista o quanto este filme é horroroso (acabei de ver um clipe na internet), ele acabou sendo completamente ignorado no lore dos mortos-vivos. Então muito por conta de filmes como esse, que foram do horror trash para a comédia trash, durante o finzinho dos anos 80 até o fim dos 90 o gênero de zumbi no cinema estava, err, morto e enterrado.

Após a produção do filme A Praia, com Leonardo DiCaprio, o diretor Danny Boyle e o produtor Andrew Macdonald e o roteirista e escritor Alex Garland começaram a trabalhar em um conceito do próprio Garland sobre “zumbis rápidos”. Segundo o roteirista, ele foi bastante influenciado, claro, pelas obras de George Romero e por jogos de videogame da época como Resident Evil. O filme começou a ser produzido e, com um espírito de cinema independente de baixo orçamento (pelo menos para padrões Hollywoodianos), foi gravado em poucos dias com uma “ideia na cabeça e uma câmera na mão”. As câmeras em questão eram câmeras que filmavam direto em formato digital, uma inovação recente no ramo e que facilitou bastante a gravação das cenas que mostravam uma Londres deserta, arrasada pelos zumbis raivosos.

NÃO É NADA DEMAIS, A TAXA DE MORTE É DE 2%!

Revendo o filme atualmente (e eu revi pouco antes de escrever a coluna) esse formato não envelheceu muito bem, na verdade. Há várias câmeras digitais com qualidades diferentes no mercado, claro. E quase tudo hoje em dia é filmado em digital, se não me engano (exceto pelo Scorcese, mas aí é outro caso). Mas a impressão que fica é que o filme foi gravado como um seriado de tv. Toda a aparência da imagem lembra um episódio da primeira temporada de Doctor Who, o que é SUPER esquisito de se ver, ainda mais num filme de zumbi se levando a sério. As críticas na época elogiaram bastante este avanço tecnológico dizendo que deixava tudo com aspecto mais “real, gritty, sujo”… Mas para mim, não funciona mais nos dias de hoje.

Reza a lenda que o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle havia sido influenciado pelo movimento Dogma 95, que enfatizava o minimalismo e o realismo nas imagens de um filme (e abro aqui um parêntese sobre o Dogma 95, para dizer que tirando Dogville, quase nada desse movimento sobreviveu bem ao teste do tempo, mas há quem curta). 

DVD, ou VHS?

Para gravar as cenas de desolação em Londres, a equipe precisou fechar ruas movimentadíssimas da cidade, em frente a pontos turísticos famosos. Parece uma tarefa impossível, mas em alguns casos eles conseguiram fechar, arrumar e gravar tudo em 20 minutos. Em geral a produção escolheu horários de pouco movimento, como domingos de manhã para gravar as cenas e funcionou. O filme começa com essa tensão de encontrar uma cidade tão famosa e tão cheia de vida quanto Londres completamente vazia e suja. Em tempos de quarentena, chega até a dar um arrepiozinho se pensarmos na vida real.

Revitalizar um gênero cinematográfico não é tarefa fácil. Extermínio faz isso bem porque não utiliza os zumbis como foco da história. Ao se levar mais a sério do que os seus predecessores da década anterior e acrescentar uma dinâmica diferente aos monstros, ele eleva o nível do jogo. De repente, os filmes de zumbi voltam, er, da tumba! Com o interesse renovado, outros filmes aproveitam o embalo e trilham seu próprio caminho. Os expoentes mais notórios que eu posso citar são The Walking Dead (sério), Zombieland (comédia), Orgulho e Preconceito e Zumbis (mashup, crossover), isso sem contar inúmeros outros.

VÍRUS ZUMBI? É SÓ ALARMISMO DA MÍDIA!

London Calling

O filme conta a história de Jim (Cillian Murphy, até então desconhecido), um entregador de bicicleta que acorda depois de uma cirurgia em um hospital completamente vazio. Vagando a esmo, ele começa a procurar por pessoas e passa por quase toda a cidade de Londres, catando o que pode no caminho, até encontrar duas pessoas que o ajudam a sobreviver um ataque de zumbis: Mark e Selena (Naomie Harris, também desconhecida na época). Conforme o tempo passa, Jim vai se inteirando da situação até que eles encontram um motorista de táxi, chamado Frank, e sua filha. Interpretado por Brendan Glesson, Frank mostra aos dois protagonistas uma mensagem de um grupo de soldados no rádio que dizia ter “a solução” para a doença incurável, fornecendo coordenadas para que sobreviventes chegassem ao local. 

O grupo parte em direção ao local indicado e no caminho passam por alguns random encounters com zumbis e momentos de reflexão, para no fim formar uma amizade. Acontece que Frank não queria partir sozinho com a filha para encontrar com os soldados, pois se algo acontecesse com ele, ela ficaria sozinha. Em grupo, ele pelo menos poderia garantir a sobrevivência dela com a ajuda de outros. O que foi uma boa, aliás, porque numa cena que foi COMENTADÍSSIMA na época, em que uma gota de sangue infectado cai no olho do personagem, Frank acaba morrendo deixando sua filha aos cuidados de Jim e Selena.

Amo essa cena!

Para mim, o ponto alto do filme acontece mesmo no último terço da história, que mostra que a inovação de Danny Boyle não foi apenas na estética ou no tipo de monstro utilizado. Ao se levar a sério, o filme apresenta como vilão não os zumbis ou o vírus mortal que transforma as pessoas, mas os próprios seres humanos que, em uma situação limite como essa, podem ser tão ruins quanto os próprios monstros da história. Então quando o trio chega ao local de encontro com o exército, eles descobrem que não existe salvação nenhuma. Liderados pelo Major Henry West (interpretado pelo então futuro Doctor Christopher Eccleston), os soldados sobreviventes confirmam que não há mais governo, exército, ou qualquer vestígio de ordem no Reino Unido. Por isso, a partir de agora, eles fazem suas próprias regras e a mensagem de esperança na verdade era uma armadilha para atrair outros sobreviventes, especialmente mulheres, para transformá-las em escravas sexuais! Os homens eram sumariamente executados. 

Jim consegue escapar de sua execução e retorna para salvar suas amigas, causando o caos na fortaleza. Ele atrai outros infectados ao local e acaba com a ameaça dos soldados, em especial do Major West, e escapa com Selena e a filha de Frank para um local mais seguro.

É melhor correr, Rose! Porque o Major não é o Doctor!

Tô LendoPontos Fortes
  • Inovador. Por diversos motivos. Inovação de gênero, de estética, de roteiro. Vale muito até como uma “aula de história” de filmes de zumbi. Ele é tido como o “primeiro” filme que aplica bem o conceito de zumbis rápidos, e foi seguido no mesmo ano pelo lançamento de Resident Evil no cinema, que ajudou a consagrar a “nova forma” dos monstros.
  • Atuações. Tirando o Brendan Gleeson que já era um ator britânico consagrado, os outros atores eram desconhecidos do grande público até o momento do filme. Mesmo o Christopher Eccleston, que já era conhecido como um character actor na época, estava a pelos menos uns quatro anos da fama de Doctor Who!
Tô LendoPontos Meh
  • Câmera Digital. Como eu disse antes, o visual geral do filme pode ter sido inovador e bem visto na época em que saiu, mas é um aspecto que envelheceu super mal, infelizmente. É quase um choque pegar o filme para ver hoje em dia, lembrando de como ele era maneiro, e de como ele parece até mais “barato” do que deveria. Sorte que a história e a atuação se seguram bem.
  • Ritmo. Apesar de tudo, o ritmo do filme é meio lento. Para quem já está acostumado com a correria dos desmortos e filmes mais frenéticos, Extermínio pode parecer meio paradão. Eu curto porque ele aproveita bem os momentos de pausa e corre-corre, mas fica aí a questão.

REGRA #1: CARDIO!

Eu gosto bastante de Extermínio. Foi um dos primeiros filmes de zumbi que eu acabei vendo em 2003 ou 2004 e meio que pautou o meu gosto por este tipo de histórias. Gosto bastante dos filmes de zumbi que levantam algum tipo de questão mais moral ou filosófica do que apenas “cÉéÉÉéééÉreEeEbBrRrRooOOssSSss”. Os analistas de cinema sempre gostam de comparar a sociedade atual vidrada em tecnologia e consumo aos zumbis das histórias como uma forma de crítica, mas na verdade o que me atrai é ver a reação da humanidade em uma situação limite. E os filmes bons mesmo são os que navegam nessa linha com conforto. Dessa nova leva, gosto bastante do remake de Madrugada dos Mortos do Zack Snyder (*cospe no chão*), de Zumbilândia, Shaun of the Dead, o espanhol REC e seu remake Quarentena e, claro, das primeiras temporadas de The Walking Dead. Posso estar esquecendo de mais algum, mas aí vocês me lembram depois.

Acompanhando notícias recentes sobre o espalhamento do coronavírus ao redor do mundo e lendo sobre a opinião de especialistas, a gente percebe que para uma doença se espalhar muito rápido ela precisa, pelo menos, mascarar os sintomas por bastante tempo para infectar outras pessoas. O vírus da “fúria” (rage, no original em inglês) de Extermínio tem uma ação quase que imediata na pessoa infectada transformando-a num zumbi faminto o que na verdade impediria que ele infectasse gente o suficiente ao redor do mundo antes de ser contido. Isso só reforça a teoria de um dos personagens de que o vírus tinha afetado apenas a Inglaterra, que foi posta em Quarentena pelo resto do mundo para conter o avanço do vírus. 

E mesmo que os infectados tecnicamente eles não sejam zumbis, digo, “mortos-vivos”, o filme continua sendo um ponto de virada na história do cinema de terror.


E aí? Curte Extermínio também? Ou algum outro filme de zumbis correndo? Conta aí nos comentários!

Extermínio vale com certeza quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-03-23T21:22:55+00:00 23 de março de 2020|0 Comentários