Rebobinando #118 | Vírus Legado

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Quarentena. Doenças. Vírus. Morte e destruição. Como nerds, já estamos mais do que acostumados a encarar este tipo de situação através dos produtos culturais que a gente consome, desde os filmes de zumbi até os quadrinhos! E hoje vamos relembrar uma doença que massacrou a população mutante da Marvel durante os anos 90. Lava a mão que vamos rebobinar o Vírus Legado!

Um dos discursos clássicos do Xavier, sobre a humanida ser uma só “família”.

Os X-men sempre trataram de temas polêmicos desde a sua criação. Lembro de ter comentado aqui na Rebobinando #105 sobre como a equipe surgiu nos anos 60 como um reflexo do movimento de direitos civis dos negros e durante as décadas seguintes eles foram adaptando outras diversas lutas, problemas e questões minoritárias em suas páginas. Durante os anos 90 (no seu iniciozinho, inspirado pelo finalzinho dos anos 80) isso não poderia ser diferente, claro. Então uma das novas ameaças aos X-men não era um inimigo novo, cheio de superpoderes, mas um vírus, uma doença. Algo difícil de enfrentar, difícil de matar.

O vírus Legado surgiu no final da saga A Canção do Carrasco, publicada aqui em 1996 na revista X-men Gigante #1 (daqui a pouco vem uma rebobinando sobre ela). No original em inglês, The X-cutioner’s Song foi publicada como uma saga em quinze (!!!) partes, entre 1992 e 1993 nos EUA. Com um plot bem enrolado, a história tem como vilão o personagem Conflyto, que até onde sabíamos podia ser, ou não, um clone do herói Cable, que poderia ser, ou não, o filho de Scott Summers e Madelyne Pryor, essa sim, um clone de Jean Grey. Anos 90, gente. Relaxa.

Olha como você fala da sua mãe, menino!

O tal vírus havia sido criado pelo imortal Apocalipse para exterminar o restante da raça humana no futuro, mas Conflyto voltou no tempo com uma versão “recodificada” da doença, que tinha como foco a raça mutante! Usando como isca o papo de ter “todo o material genético de 2000 anos da família Summers”, o clone-ou-não-do-Cable conseguiu convencer um outro X-vilão, o Sr. Sinistro, a abrir um frasco contendo o vírus, liberando-o no ar. Mas na verdade, ele queria mesmo era se vingar dos seus pais por terem-no enviado ao futuro (essa é uma ooooutra loooonga história) e trouxe a doença como um “legado” seu para o mundo. Aparentemente no futuro do Apocalipse não existe mais terapia, o que pouparia muitos problemas para todos.

O lance da doença é que ela lembrava muito a AIDS e a paranóia que existia no final dos anos 90. Catando na internet, pude ver que o vírus Legado atingia o fator X presente no DNA mutante e o reescrevia, fazendo com que o mutante contaminado fosse se “desfazendo” a cada vez que usasse seus poderes naturais. Isso até chegar a um ponto irreversível, onde a vítima ficava cadavérica, com feridas na pele e o descontrole total dos poderes como consequência, levando-a à morte. Durante os oito anos em que o vírus foi usado como plot device nos X-gibis, vários roteiristas foram dando o seu pitaco em como ele agia, fazendo com que a Marvel estipulasse em certo ponto a existência de três variedades do Legado.

  • Legado-1: Atacava as células indiscriminadamente, e causava uma degeneração celular nas vítimas. Era a versão mais aproximada da que foi criada por Apocalipse.
  • Legado-2: É a versão do Conflyto. Ataca o gene X e causa degeneração celular gradual e lenta, até a perda completa do controle das habilidades mutantes.
  • Legado-3: Uma versão criada por uma mutante chamada Moléstia. Seu poder mutante alterou a composição genética do vírus, permitindo que ele afetasse seres humanos também.

O momento “H” em que o vírus foi solto!

No total, durante os anos dessas histórias, o vírus pairou como uma sombra nas costas dos X-men, mas o número total de vítimas não chegou a trinta mutantes. A maioria eram vilões esquecidos, personagens de segunda linha, mas ainda assim, garantiram que alguns do primeiro escalão fossem infectados, como Illyana Rasputin, Moira MacTaggert e o Sr. Sinistro. Até onde eu sei, as duas primeiras foram vítimas fatais da doença, mas hoje em dia já passam bem. Sabe como é, né? Morte nos quadrinhos não dura muito.

Greg Capullo já mandava bem DEMAIS, gente. Oi?

Legado e Alegorias

Como eu disse antes, as histórias dos X-men estão sempre fazendo alegorias com questões de minorias ao longo dos anos. O lance é que, enquanto algumas coisas são bem feitas, outras nem tanto. E o vírus Legado é uma dessas coisas que fica bem no meio do caminho.

Primeiro, porque X-men é um gibi. Então o trabalho de um gibi, a princípio, é entretenimento. Então mesmo que ele trabalhe questões da vida real através de metáforas e alegorias, o foco nunca é “educar” propriamente falando. Claro, que através de nossas vivências, sempre somos capazes de ler algo que seja importante para a nossa vida, ou nosso momento de vida, e aplicar isso na prática. Então um trabalho bacana dos quadrinhos, nesse aspecto é fazer você desenvolver empatia com algum grupo marginalizado. Ou pelo menos deveria fazer

Os boatos sobre a (segunda) morte de Illyana foram extremamente exagerados.

Então X-men funciona bem desta maneira, em relação ao vírus Legado. No fim dos anos 80, início dos 90, a AIDS ainda era uma doença muito estigmatizada. Em parte por causa das políticas de governo dos EUA na época, que tratava a doença como uma “punição divina” contra os homossexuais. Para um bom entendedor, ler X-men durante esse período era uma pequena lição de empatia mensal para com pessoas marginalizadas, infectadas por um mal que não era culpa delas. 

Porém, lendo alguns artigos para escrever essa coluna, pude notar que nem todo mundo curtiu muito o modo como a Marvel lidou com este tema. E aí vem a segunda parte dessa história. Muita gente acha que os gibis mutantes acabaram por reforçar um aspecto maligno da AIDS na vida real que era o fato da doença ser típica de um “grupo de risco” em específico, em especial pessoas homossexuais. Chamavam de “a doença dos gays” na época. Isso tudo porque, de acordo com o histórico do vírus nas HQs, ele foi criado por mutantes e liberado na humanidade por mutantes. Ok, eram “mutantes extremistas”, “mutantes do mal”, que lutavam contra os “mutantes do bem”, mas era algo especificamente de uma minoria. E em retrospecto, isso pega super mal. 

Jason Wyngarde, o Mestre Mental, quase levou os X-men juntos quando morreu.

Para ser sincero, na época em que esta storyline chegou aqui no Brasil, eu não fiz a ligação direta com o mundo real. Era 1996 e nesse ponto, a AIDS já estava começando a ficar mais controlada, e o pânico geral com relação à ela já não era gigante como em 92-93. E tanto Marvel, DC e Image já tinham tentado colocar heróis soropositivos em suas páginas com maior ou menor grau de sucesso. De cabeça eu me lembro de um sidekick do Hulk, uma sidekick do Arqueiro Verde e o Shadowhawk e o Capela, da Image. 

Com a virada do século, a doença foi perdendo o alarmismo nos telejornais e novos tratamentos foram sendo descobertos, o que acabou levando os gibis mutantes a deixarem de lado esse plot device. Mais do que prontamente uma cura foi desenvolvida, à custa da vida de Moira MacTaggert e do favorito de todos, Colossus. Moira descobriu o caminho da cura após ter contato com a terceira versão do Legado, mas antes de morrer, o Prof. Xavier conseguiu pegar a informação que era essencial para que o Fera desenvolvesse a cura. O único porém é que, como inicialmente a doença só se tornou transmissível após a morte do primeiro infectado (um assistente do Sr. Sinistro), a cura só funcionaria após a morte do primeiro “curado” (o que não faz o menor sentido, mas assim são os quadrinhos). Colossus, pensando em sua falecida irmã, faz o sacrifício de injetar a cura em si mesmo e ativá-la com o seu poder mutante.

E finalmente a humanidade e a raça mutante estavam salvas.

Moira se vai, mas não sem antes dar uma ajudinha!

Esse foi um dos períodos que eu mais li X-men e o vírus Legado era algo muito permanente nos gibis. Lembro de ler e sentir o peso da história na morte de mutantes como a Illyana e até mesmo do Pyro e Avalanche. Mas nada muito além disso, infelizmente. Era uma época de clones e muitas storylines meia-boca então pode ser que eu não esteja lembrando de tudo muito bem.

Mas e você? Lembra de alguma outra doença dos quadrinhos? Alguma outra alegoria a uma doença séria do mundo real? Conta aí nos comentários!

A Saga do Vírus Legado vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-03-17T00:26:46+00:00 16 de março de 2020|0 Comentários