Rebobinando #116 | Akira

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Eu não acho que preciso fazer muitas apresentações sobre a coluna de hoje além de TETSUOOOOOOOOO!!!!!!!1!1!!!!1!! KANEDAAAAAAAAA!!!1!1!!!!!!1! Pois bem, vamos rebobinar Akira!

Olha a bomba, olha a bomba! BUM! BUM!

Akira foi um marco da animação japonesa tanto no Japão quanto no mundo inteiro. Não que outras produções não tivessem deixado seu impacto anteriormente, claro. Mas nos anos 80, naquela época em que o mundo ainda temia uma guerra nuclear entre os EUA e a Rússia, surgiu um punhado de obras cínicas sobre o futuro após um potencial fim do mundo num apocalipse atômico. Na Inglaterra tínhamos Alan Moore e seu V de Vingança. Nos EUA, Frank Miller e seu Cavaleiro das Trevas. Na literatura, William Gibson e seu Neuromancer. E no Japão tínhamos Katsushiro Otomo e Akira. Todas essas obras tratam de um futuro sujo, sombrio, triste, vivendo um pós-guerra. Mas só Akira e Neuromancer acabam caindo em um novo gênero típico da época chamado cyberpunk.

O cyberpunk é um subgênero da ficção científica situado num futuro distópico que tem como enfoque o conceito de “alta tecnologia e baixa qualidade de vida”. Geralmente ele trabalha a existência de grandes avanços científicos e tecnológicos (como inteligência artificial, cibernética, ou redes de informação) ao mesmo tempo em que apresenta uma quebra radical do status quo da sociedade. Akira é bem a prova disso, pois se passa em Neo-Tóquio, uma cidade reconstruída a partir dos escombros da antiga Tóquio, destruída 30 anos antes em um colapso desconhecido. O clima político do país e da cidade está pegando fogo e, ao mesmo tempo em que vemos motos maneiras e uma alta tecnologia sendo empregada por cientistas, policiais e militares, vemos também muitas revoltas, ataques terroristas e pessoas vivendo em meio ao lixo e violência.

PLÊI!

O cinismo e pessimismo com relação ao futuro típico dos anos 80 encontra eco muito forte no filme, que foi lançado em 1988 junto de outras obras marcantes como Blade Runner (1982), RoboCop (1987), O Sobrevivente (1987). Baseado em um mangá do próprio Katsushiro Otomo criado em 1982, a saga de mais de duas mil páginas inclusive só acabou em 1990, dois anos depois do lançamento do filme. Quem leu o mangá completo (infelizmente eu ainda não tive essa oportunidade) diz que há grandes diferenças entre os dois, e que o filme só cobre metade da história. Então, se você, assim como eu, ainda não leu o mangá inteiro, fica a dica. 

Aqui no Brasil Akira só chegou em 1991. Como eu tinha 9 anos na época, nem sonhava em assistir. Só fui ver lá pelos meus 11-12 anos (talvez 13? Não lembro), quando a boca pequena na escola já tinha espalhado a história de um desenho animado hiper-violento, com tiros, sangue e tripas voando. Acho que nesse meio tempo, em que a pré-adolescência veio batendo forte junto com a vontade de afirmação enquanto “garoto adolescente cheio de hormônios”, eu devo ter visto o filme umas duas vezes. A primeira, escondido dos meus pais, alugando o VHS na locadora perto de casa, e a segunda na Bandeirantes, numa sexta ou sábado à noite (também escondido dos meus pais). Acredito que este tenha sido o modus operandi da maioria das pessoas da minha idade que assistiram a este filme na época.

Brincando de Laser Tag!

TETSUOOOO!

A produção de Akira foi uma coisa mucho loca. A princípio, Katsushiro Otomo não estava muito interessado em adaptar sua obra para um anime de longa metragem. Mas uma oferta foi feita, e bom, óbvio, ele acabou mudando de opinião. Como a obra era muito megalomaníaca, ele só aceitou de fato depois de concordarem que ele ficaria com o controle criativo da obra, o que é sempre uma boa coisa, claro. O orçamento, no fim das contas, foi o maior da época para um filme em longa metragem deste tipo: 1 bilhão de ienes! Isso daria uns 20 milhões de dólares hoje em dia. Não parece lá muita coisa para os padrões de orçamento de filmes a que estamos acostumados atualmente, mas era uma boa grana.

O filme acabou sendo feito por um conglomerado de estúdios que tomaram para si a imensa responsabilidade de trazer à vida essa história, o chamado Akira Committee. Entre esses estúdios estão a Kodansha, Bandai, e a TMS (Tokyo Movie Shinsha), grandes responsáveis por diversos sucessos no mundo inteiro. A dedicação e o trabalho são aparentes! No fim, o filme foi composto de cerca de 172.000 frames, mas esses frames às vezes foram animados em várias camadas diferentes para dar uma sensação de dinamismo e velocidade que nenhuma animação tinha visto até então.

Taaaaake oooon meeee! Kaaaaneeeedaaaaa!

O resultado final é explosivo, quase que literalmente, e tomou o mundo inteiro de assombro. Sem Akira não teríamos outras grandes obras da nossa geração. Influências que determinaram os rumos da cultura pop nesses 31 anos desde o seu lançamento (OI, TÔ OLHANDO PARA VOCÊ MATRIX).

Cada camada desta célula de animação foi animada separadamente. Primeiro, o fundo. Depois a pista. Depois o Kaneda. E por último o outro motoqueiro.

KANEDAAAA!

Além do trabalho de animação incrível, o plot de Akira é típico desta época. Em 2019, trinta e um anos após o fim da terceira guerra mundial e um desastre que obliterou a antiga Tóquio, acompanhamos um grupo de motoqueiros delinquentes que vivem na cidade reconstruída, Neo-Tóquio. Em meio à guerra de gangues, vemos a turma de Kaneda e Tetsuo (os dois protagonistas) em uma disputa contra uma gangue rival, a dos Palhaços (assim nasce o coronga). Em meio às porradas e as corridas de moto, Tetsuo sofre um acidente envolvendo um Ésper. Os éspers são umas crianças que foram usadas em experimentos de laboratório pelo governo para desenvolverem poderes psíquicos.

O ésper do acidente estava fugindo de um hospital militar com a ajuda de um espião que trabalha para um grupo revolucionário anti-governo. A turma de Kaneda acaba se metendo em confusão com os militares, que levam o ésper fugitivo e um Tetsuo desacordado para continuar com seus experimentos. O coronel Shikishima lidera o experimento porque ele era um dos sobreviventes do desastre de 1988, envolvendo um desses éspers originais, o pequeno Akira. A trama no total envolve muita conspiração, discussão política, golpe de estado e violência policial. Com pouco mais de duas horas de duração, imagino que se o filme corresse um pouco mais com as tramas paralelas, ele poderia ter quase meia hora a menos. 

Tetsuo se dá alta. E o hospital vai cobrar a conta.

Em determinado momento, Tetsuo acorda para os seus poderes e resolve ir atrás de Akira, para testar quem é o mais forte. Com uma típica narrativa japonesa, nós vamos até o âmago do personagem para entender que ele sempre se sentiu deixado para trás por amigos e pelo melhor amigo, Kaneda. Durante a última meia hora de filme, acompanhamos Kaneda tentando derrubar o amigo que enlouqueceu com o poder enquanto ele explode e implode em uma massa nojenta de músculos, tripa e fluidos, além da compreensão humana. Quase uma figura lovecraftiana de terror absoluto.

Blergh. Lava essa mão, Tetsuo, tá cheia de germes.

No fim, Akira e Tetsuo alcançam um novo plano de existência com a maior pinta de Kubrick e 2001. Com Neo-Tóquio novamente em ruínas, Kaneda e seus amigos iniciam uma nova vida.

Tô LendoPontos Fortes
  • Animação. Bicho. A animação é DUC@R@LHO. E ainda se sustenta! É impressionante o nível de detalhamento desse troço! 
  • Música. Tensa. Incômoda. Mas extremamente pertinente ao filme. Tem umas coisas que tocam como se fossem sussurros guturais junto com um som de sintetizador dos anos 80. Bem legal.
  • Personagens. O tipo de histórias do público japonês é bem diferente do americano ao que a maioria de nós estamos acostumados, então as motivações dos personagens são diferentes. E também o jeito como eles são apresentados, o lado psicológico de cada um.
  • Violência. O filme é brutal. Em alguns momentos parece que eles tentam excluir um pouco da violência para “não exagerar”, mas em outros ele tem um peso tão real que incomoda até hoje. Junto de uma animação tão primorosa, em determinados momentos parece que estamos vendo um filme, e isso é bem bacana também.
Tô LendoPontos Meh
  • Duração. Acho duas horas um pouco pesado para este filme. Ele tem um bocado de tramas paralelas que talvez no mangá sejam essenciais para um melhor entendimento da história inteira. Mas aqui parece só um peso a ser carregado e uma encheção de linguiça até a próxima cena de ação maneira. ACONTECE MUITA COISA NESSE FILME.
  • Diferenças. Li pouquíssima coisa do mangá na época em que saiu no Brasil pela Editora Globo. Não consegui acompanhar porque não tinha lá muito o hábito de ler mangá e, bom, quando ele foi lançado da primeira vez eu tinha acabado de largar a turma da mônica pelo Homem-Aranha. Sei que a Globo passou anos sem publicar o final da saga, e que depois disso o mangá foi republicado outras inúmeras vezes por outras editoras. Quem sabe agora eu crio vergonha na cara e comparo as diferenças entre mangá e anime?

Dá pra ouvir o som da borracha queimando no asfalto!

Em suma, Akira é uma puta obra de reconhecimento mundial. Katsushiro Otomo é um mangaká humilde que nunca esperou muito, nem do seu mangá, nem do seu filme, mas ele tem uma dedicação incrível a este projeto. É interessante notar as temáticas de Neo-Tóquio e o próprio Japão do pós-guerra, dizimado por duas bombas atômicas e com a economia e política em frangalhos. Não é a toa que este é o período mais marcante para o público japonês e que direcionou muito de sua cultura popular de animes, mangás e tokusatsus nos anos seguintes. Akira segue essa linha do “medo atômico”, do pavor do pós-guerra e do quanto o futuro pode ser tenebroso. Mas ao mesmo tempo, tem uma mensagem bonita no final de esperança e transcendência. Otomo revelou que muitas de suas influências saíram também do universo cyberpunk do início dos anos 80, como as cidades opressoras de Blade Runner para refletir Neo-Tóquio. Ou até mesmo com as lightcycles de TRON, servindo de inspiração direta para a moto de Kaneda. Isso sem falar em Moebius que já é uma referência para muita gente nos quadrinhos, como inspiração para a ambientação de Akira.

A inigualável.

Claro que, como uma obra super-referenciada, não podemos deixar de mencionar como o próprio anime influenciou outras obras nos anos seguintes. Uma das mais óbvias, é claro, é a trilogia Matrix. Revendo o filme neste final de semana, relembrei mais um bocado de coisa e achei incrível como cenas simples como o Tetsuo fugindo do hospital serviram de referência direta para outros animes como Elfen Lied e até mesmo o filme fajuto do Quarteto Fant4stico (aquele tosco com péssimos reviews). Mas eu não posso deixar de falar mesmo é da “escorregada à la Akira”, que virou uma piada visual em muitos desenhos e é utilizada até hoje.

E olha que ainda tem muitos mais de onde esses vieram!

E você? Quando você viu Akira? Viu escondido dos seus pais? Qual foi o seu contato com animação japonesa ultra-violenta? Conta aí nos comentários!

Akira vale com certeza muitos KANEDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAs e TETSUOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOs. 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-03-02T02:14:25+00:00 2 de março de 2020|0 Comentários