Rebobinando #114 | Aves de Rapina

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Lindas, fortes e empoderadas! Muito antes da cena de girl power em Vingadores Ultimato, mas não tão antes assim dos seriados com mulheres porradeiras dos anos 90, a DC Comics já tinha sua super equipe de super-heroínas baixando o sarrafo em bandidão metido a macho! Vem comigo rebobinar Aves de Rapina!

A primeira aventura das Aves de Rapina é bem anos 90.

Para ser honesto, eu nem tenho tantas memórias assim das Aves de Rapina na minha adolescência. Quando mencionam a equipe, eu fico sempre com a sensação de que ela meio que surgiu “ontem”, sabe? Só que em minhas pesquisas para escrever a coluna de hoje eu finalmente entendi o motivo. Pouquíssima coisa do gibi original saiu aqui no Brasil na época em que começou a sair nos EUA! Vamos lá, lembram que por volta dos anos 90, enquanto a Editora Abril era a maior responsável pelos gibis de heróis nas bancas brasileiras? Em geral a diferença entre as publicações americanas e tupiniquins era de mais ou menos uns quatro anos! Isso mesmo, QUATRO ANOS! Então coisas que a gente lia aqui em 1992, era de 1988. Coisas lançadas em 1996, só saíriam por aqui em 2000, etc.

E foi mais ou menos isso o que aconteceu. A primeira história de Birds of Prey que saiu por aqui em fevereiro de 2000, foi a da edição #8, publicada no gibi Batman: Vigilantes de Gotham #40, da Abril. Justiça seja feita, essa história (que é sobre um encontro entre Bárbara Gordon e Dick Grayson) saiu lá em 1999, então pelo menos a diferença foi curta. Depois disso, passamos mais uns quatro anos sem praticamente qualquer menção da equipe até a chegada da revista Os Novos Titãs #2, da editora Panini. Depois disso, as histórias da equipe passariam pelos mixes das revistas Universo DC, Esquadrão Suicida e Arqueiro Verde, até sua publicação mais recente em Batgirl & Aves de Rapina. Graças à Panini, pudemos acompanhar uma das melhores fases da equipe, comandada por Gail Simone e Ed Benes e que se provou como um marco na história das personagens sendo inclusive a fase mais comentada e lembrada pelos fãs.

A primeira aparição da equipe não dá quase nenhum contexto pro leitor do porquê a Canário e a Oráculo trabalham juntas.

Ave, Dixon

Lançado em 1996 o one-shot Black Canary/Oracle: Birds of Prey é o ínicio definitivo desta parceria entre as duas personagens. Escrito por Chuck Dixon e desenhado por Gary Frank a história é quase sobre a Canário Negro inteira. Oráculo surge com uma “proposta de trabalho” irrecusável e as duas atuam em conjunto para desvendar uma série de ataques a complexos industriais em áreas pobres da África.

Chuck Dixon já era conhecido de muitos a esta altura, tendo trabalhdo com o Justiceiro na Marvel e com o Robin (Tim Drake) na DC. Além disso, ele era um dos principais roteiristas por trás dos grandes eventos do Batman nos anos 90, como A Queda do Morcego, Contágio e Terra-de-Ninguém. Gary Frank, no entanto, era praticamente um novato na época, já que ele só havia entrado na indústria em 1991. Porém, se você for olhar o traço dele nessa one-shot não é de se espantar que ele tenha virado o grande artista que virou. Já tinha um estilo próprio, ainda que amarrado ao que se esperava de um artista de gibi na época. 

QUEBRANDO CORAÇÕES E FUÇAS MENSALMENTE! – Melhor anúncio!

Depois do razoável sucesso desta história, o caminho natural era lançar um gibi mensal com as aventuras de Canário e Oráculo. Eventualmente, em 1999 o gibi sairia pelas mãos do próprio Dixon e com Greg Land nos desenhos. Um Greg Land novinho aliás, antes de começar a trabalhar com as “referências fotográficas” de pornô, e com um desenho bem melhor, eu acho. Isso seguiria por mais ou menos umas 50 edições, com outros desenhistas como Rick Leonardi e Butch Guice trabalhando, até a chegada da nova equipe criativa em Birds of Prey #56, em 2003. Mas me assusta que um gibi desses, com uma galera tão alto nível trabalhando em conjunto não tenha acendido N E N H U M A luz na cabeça dos editores daqui para publicar essas histórias!

Ave, Simone

Posi bem. Chegamos à fase mais marcante da equipe. Gail Simone chegou bagunçando o coreto das histórias que se concentravam basicamente na Canário Negro com a Oráculo como suporte técnico. Com a nova equipe criativa o time aumentaria de tamanho com uma outra presença permanente no elenco principal, a da Caçadora. Outros personagens viriam a fazer parte do time em edições posteriores, mas quase todos acabam entrando de uma maneira mais… honorária, digamos assim. Entre elas temos a Batgirl IV (Cassandra Cain), Mulher-Gato, Hera Venenosa, Lady Falcão, Grande Barda, Columba e Rapina (um dos poucos homens a entrar no grupo), Katana, e mais recentemente até a Arlequina, claro!

Difícil escolher quem entra pro time. Ainda bem que não precisa ser só “heróis com temática de pássaro”.

O bom da época da Simone nos roteiros é que é sempre lembrada como uma época onde as personagens desenvolveram um relacionamento de amizade mais profundo do que na época do Chuck Dixon. Em especial, muitas meninas lembram com carinho das histórias dessa época por conta dos diálogos que pareciam mais “verdadeiros” entre as personagens, o que só nos faz pensar que essa coisa de representatividade tem sim seu fundo de verdade, né? O único porém é a escolha do artista Ed Benes para desenhar um gibi “empoderado” desses. 

Veja bem, não que ele seja um desenhista ruim. Eu particularmente adoro a fase dele em Homem-Aranha, no finalzinho dos anos 90, pegando aquele final horroroso da saga do clone e um pouco depois. Saído da mesma “escola de estilo” do Roger Cruz, ele sabe desenhar uma ação bem maneira, é bem dinâmico e todas as mulheres dele são super bonitas e modeletes com um corpão. O lance é que em Aves de Rapina, isso acaba ficando muito… er… chamativo porque ele parecia fazer uma ginástica enorme para sempre dar aquela enquadrada na bunda das personagens. E umas poses super sexy quando não tem lá muito motivo, né? Sempre que eu leio algum gibi dessa época me vem à mente a Iniciativa Hawkeye que colocava o arqueiro roxo da Marvel nas mesmas posições esdrúxulas de “peito-e-bunda” durante as lutas.

É muito popô!

Não ajudava o fato da Oráculo ser uma cadeirante, porque era ainda mais uma desculpa pra enquadrar uma bunda da Canário Negro em primeiro plano, quando ela conversava com a Bárbara. Mas isso era uma coisa que não me incomodava muito na época, vou ser honesto, mas era bem notável. Depois que a gente descobre e aprende um pouco mais sobre a relação das fãs de quadrinhos com os mesmo quadrinhos que nós gostamos de ler, fica difícil desver.

A Arlequina

Aproveitando a onda do filme, a DC Comics lançou em janeiro de 2020 uma edição gigante de Birds of Prey estrelando a queridinha da atualidade, a Arlequina, na capa. Não que isso tenha gerado uma comoção tão grande entre os fãs como o filme, mas pelo menos é uma justificativa da presença da personagem na equipe. 

A Arlequina surgiu pela primeira vez no desenho animado do Batman dos anos 90. Como os vilões de desenho animado precisam de capangas para “ouvir” os seus planos (enquanto na verdade, o vilão conta o plano em voz alta para “nós”, o público ouvirmos), os produtores do desenho acharam uma boa dar uma capanga fixa para o Coringa e assim termos um elemento surpresa nessa dinâmica entre o Homem-Morcego e o Príncipe Palhaço do Crime. Na verdade, a ideia original da personagem veio de uma novela americana chamada Days of Our Lives. Na cena, a personagem interpretada pela atriz Arleen Sorkin aparece vestida como uma boba-da-corte em um sonho. 

Paul Dini, o criador da personagem, era amigo de Arleen Sorkin desde a faculdade. Como trabalhava como escritor em várias séries e no projeto da série animada do morcego, ela acabou lhe passando uma fita em VHS com várias aparições dela na novela, inclusive a parte em que estava vestida como uma palhaça. Dini comentou em uma entrevista que ele já estava há um tempo tentando criar uma personagem que serviria para aparecer só uma vez em um dos episódios do desenho animado: 

“Eu pensei que seria uma boa ter uma garota na história. Mas estava na dúvida se ela seria uma capanga durona, criada na rua? Ou só uma comparsa e coisa e tal? Aí a ideia de ter alguém engraçado meio que bateu! Quando vi a Arleen com maquiagem de palhaço naquela roupa, tudo fez sentido e decidi que seria uma ajudante meio boba-alegre. Dei a ela o nome de Arlequina, rabisquei um esquete do visual e levei para o Bruce Timm”.

Bruce Timm achou o desenho meio tosco e rabiscou o uniforme que todos conhecemos. E para a sorte de todos os envolvidos, Arleen Sorkin, a atriz e amiga de Paul Dini, que deu origem à personagem, ainda conseguiu o trabalho de dublagem e é conhecida por todos até hoje como a “voz definitiva” da Arlequina, junto de Kevin Conroy e Mark Hamill como Batman e Coringa. E o resto é história.

Assim nasce uma Coronga!

Tô LendoPontos Fortes
  • Roteiros. Em sua maioria divertidos, o run da Gail Simone é de fato mais memorável (e o único publicado no Brasil). 
  • Desenhos. Apesar das minhas questões com o Ed Benes, ele foi bem marcante no dinamismo da revista durante esta fase. E posteriormente foi substituído por outros artistas tão bons quanto (em sua maioria brasileiros, ao que parece, o que também é bem legal).
  • Online. Fácil de achar. Pelo menos online.
Tô LendoPontos Meh
  • Sem publicação. É uma pena que boa parte das histórias não saíram no Brasil. Tanto a primeira quanto a segunda da equipe têm uma vibe de espionagem muito legal.
  • Disponibilidade. Apesar de ser fácil de achar online, até mesmo as edições das revistas que tinham BoP no mix, não existe nenhuma republicação das histórias da equipe. A fase dos anos 90 e 2000 simplesmente não existem no Brasil, e a Sra. Panini bem que podia dar uma olhada nisso, hein?

Mesmo depois do ataque do Coringa, Bárbara deu a volta por cima como uma grande personagem!

No fim, Aves de Rapina era um gibi muito divertido. Infelizmente, eu acabei não dando mais atenção à quase nada das histórias mais novas, então fico meio perdido no que fizeram com as personagens pós-Novos 52 e pós-Rebirth. Sei que a Bárbara voltou a ser a Batgirl, voltou a andar (e perdeu um pouco essa coisa da Oráculo que eu achava bem bacana). Sei da Canário Negro que passou a fazer parceria com o Arqueiro Verde de novo e meio que só. 

Estou um pouco empolgado com a ideia do filme, em especial por conta da presença da Margot Robbie que foi uma das poucas coisas boas daquele filme péssimo do Esquadrão Suicida. Pelos trailers ela parece soar mais como a atriz original do desenho e isso é bacana. E o roster do filme não parece muito distante do que vemos nos gibis: A Caçadora, interpretada por uma das minhas paixões cinematográficas, a Mary-Elizabeth Winstead (a Ramona Flowers de Scott Pilgrim), parece bem fodona! E claro, não podiam deixar de lado pelo menos uma das participantes da equipe original, a Canário Negro (interpretada por Jurnee Smollett-Bell, que foi uma das atrizes-mirins saídas da sitcom Três É Demais). E ainda com a Reneé Montoya e a Cassandra Cain (cujas atrizes eu não conheço). Sabendo que depois a Montoya vira a nova Questão, eu acho que é uma equipe que seria muito sinistra nos gibis. 

Timaço!

Fica aí a esperança de ser um filme bacana (eu acho que vai ser) e que fuja um pouco do clima sombrio do DC Cinematic Murderverse (que eu acho que já morreu, amém).

E você? Curte Aves de Rapina? Mas curte só pelas entrevistas? Tem alguma outra equipe de mulheres, ou alguma outra história onde as mulheres chutam bundas e baixam o cacete em geral? Diz aí nos comentários!

Aves de Rapina vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-02-03T22:18:42+00:00 3 de fevereiro de 2020|0 Comentários