Rebobinando 111 | Desvendando os Quadrinhos

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Era o final dos anos 90, e eu era um jovem leitor que adorava passar horas nas mega livrarias que eram tão populares na época. Entre um gibi e outro, trombei com um livro que me faria entender um pouco mais daquela universo. Era o meu primeiro contato com o quadrinista Scott McCloud e seu livro Desvendando os Quadrinhos! Bóra rebobinar!

“Você não é meio JOVEM pra este tipo de coisa?”

Naquela época, eu pouco entendia sobre quadrinhos. Estava pegado na Saga do Clone e achava que era algo revolucionário (mas eu cresci, e entendi, desculpa, gente, eu era moleque). Esbarrar com esse livro de repente me fez parecer que havia muito mais coisa do que só desenhar e rabiscar um texto qualquer para fazer quadrinhos, sabe? De repente, eu percebi que poderia haver algo mais na criação de uma história para se contar através de quadros e imagens.

O livro é de uma leitura tá fácil e fluida, que a primeira vez que eu o li, foi quase que inteiramente visitando a livraria todo final de semana e lendo uma parte de cada vez! Na época eu já era um jovem sem dinheiro, e o livro era um pouco aquém do que eu poderia pagar (não lembro o quanto, na verdade, mas talvez juntando algumas saídas de cinema na época, eu pudesse pagar). Então eu sempre aproveitava e dava uma lida quando podia. Depois disso, passei alguns anos sem vê-lo nas livrarias (certamente havia esgotado) e chegou ao ponto de eu não lembrar nem mais o nome na hora de procurá-lo! Por um instante, ficou parecendo que o livro era fruto da minha imaginação, sempre que eu o mencionava com algum amigo, quase um “efeito mandela”, porque pouquíssima gente havia ouvido falar de um “livro em quadrinhos que falava sobre quadrinhos”.

O que é quadrinhos? Quadros pequenos, oras!

Só lá pelo meu segundo período da faculdade, quando eu ainda estagiava com design gráfico em um departamento da própria faculdade, é que eu dei de cara com um exemplar em pdf em algum site escuso nos primórdios da internet! Sabe aquele lance de “quando eu cheguei aqui, tudo era mato”? Era bem nesse nível. Não é algo do que eu me orgulho exatamente, mas para quem queria ler muito esse livro de novo (e planejava fazer o projeto final de maneira parecida – spoiler: não deu certo), foi a única solução viável. Ainda mais levando em consideração que ele estava completamente esgotado e as poucas edições que existiam à venda na internet custavam os dois olhos da cara, um braço, uma perna e cinco rins. 

E como eu estava bem no ínicio da faculdade, ter que lidar com um livro teórico como este, em meio aos livros de teoria da comunicação foi bem interessante (mesmo que eu prestasse muito pouco atenção nas aulas). O final feliz se deu mais recentemente, enquanto eu trabalhava como professor de inglês em um curso grande aqui do RJ e ganhei um vale-presente no dia dos professores! Sem saber o que levar da livraria, trombei de novo com o livro na sessão de quadrinhos e com os olhinhos marejados, finalmente pude levar o meu exemplar, de maneira legal, para casa!

A capa da reedição brasileira, e das continuações.

Entendendo Scott McCloud

Scott McCloud foi colega de classe e criou quadrinhos junto com ninguém menos do que Kurt Busiek! Durante boa parte dos anos 80, inclusive, ele trabalhou como artista para a DC Comics e criou um gibi chamado Zot!, que era uma espécie de autoafirmação contra a onda deprê que inundou o mercado na mesma época, graças aos nossos queridos Alan Moore e Frank Miller, especialmente. Zot! era uma história de aventuras, bem leve e descontraída, que conta a história de um herói otimista que luta contra alienígenas malvados para salvar o dia! Ela acabou durando umas 36 edições e é talvez o terceiro trabalho mais reconhecido dele.

Nos anos 90, mais especificamente em 93, ele acabou lançando o seu livro-tratado teórico sobre os quadrinhos, Understanding Comics (Ed. Tundra, 1993) seguido dos livros Reinventing Comics (Paradox Press, 2000) e Making Comics (Harper Collins, 2006). Aqui no Brasil, a primeira edição de Desvendando… chegou em 1995 às livrarias, pela editora M. Books. Depois de esgotado, ele passou uns bons anos sumido das prateleiras até a edição de aniversário de 10 anos, lançada pela mesma editora em 2005! Hoje em dia não deve ser mais tão difícil de achar, tanto em livrarias físicas quanto online, mas em geral são edições solitárias, em alguma prateleira escondida. Então sugiro procurar bem.

Reconheceu a blusa do Scott McCloud?

Além disso, Scott McCloud também foi um dos idealizadores do 24-hour-comic. Um evento muito bacana criado em 2004, que consistia em juntar um punhado de criadores de quadrinhos para produzir uma página de uma história por hora, em um dia (24 horas), totalizando no final uma história de 24 páginas! De 2004 até meados dos anos 10 (mais ou menos), o evento foi um relativo sucesso, juntando gente do porte de Neil Gaiman, Kevin Eastman (Tartarugas Ninja), Dave Sim (Cerberus), entre outros, para a criação de HQs. Ele ocorre até hoje, por volta do início de outubro e até teve algumas edições no Brasil. Infelizmente, ele perdeu o gás e pouca gente lembra hoje em dia. 

E ninguém pensou em chamar o Jack Bauer…!

Entendendo os Comics

É difícil falar do livro sem dar uma teorizada louca sobre ele. Mas podemos destacar que ele trabalha com uma análise do que faz uma história em quadrinhos. Quais são as bases dela, partindo do princípio mais teórico, até o produto final. E ele ainda se propõe a observar as HQs não só como uma (nova?) forma de arte, mas também como um meio de comunicação. Não é à toa, aliás, que o nome original do livro, Understanding Comics, tem como inspiração o Understanding Media do teórico Marshall McLuhan

E o mais legal é ver como ele começa a trabalhar isso, e em como ele desconstrói uma história em quadrinhos só para analisarmos separadamente cada uma das coisas que a compõem. Desde o conceito de arte, o uso de imagens justapostas, iconografia, quadrinização, cores, até o texto final. É o tipo de leitura que a gente pode esmiuçar à vontade e vai encontrar sempre alguma novidade para explodir nossas cabeças. 

Quadrinho é coisa de nerd.

Você pode até estar pensando que, já que ele é um criador americano, um quadrinista dos EUA, ele está centrado unicamente nas formas e nos mercados ocidentais, mas não. O cara ainda utiliza exemplos e elementos dos quadrinhos japoneses e dos europeus nos seus estudos e compara em como o meio é diferente para cada um desses três grandes estilos! 

O livro em si é dividido em nove capítulos bem extensos sobre a nossa querida nona arte, com um texto de fácil compreensão, mesmo que em alguns momentos pire um pouco na teoria e nos deixe um pouco confusos. Mas nada que uma nova leitura não cure, afinal de contas, ele é uma delícia de ler. Scott McCloud se apresenta de uma forma bem amigável e você lê tudo o que o livro coloca como se estivesse conversando com um amigo de longa data. Cada capítulo se divide bem entre as partes de uma HQ guiando você desde a introdução (e desconstrução) até a reconstrução dos quadrinhos.

  • Capítulo 1. Colocando os pingos nos Is. Aqui ele abre o leque do que os quadrinhos podem ser. Primeiro ele parte de uma “definição de dicionário” para estabelecermos mesmo o que é a “arte sequencial”. Ele faz questão de separar “forma” e “conteúdo” e vai nos confins da história humana atrás de exemplos que “não eram exatamente quadrinhos”, mas que “podiam ser considerados os precursores dos quadrinhos”.
  • Capítulo 2. O vocabulário dos quadrinhos. Aqui mora a parte do trabalho de McCloud que é reverenciada por quase todos na indústria. Ele fala sobre o “ícone” e em como a base de uma história em quadrinhos é a identificação com o leitor, que pode ter uma abrangência quase universal através da iconografia de um desenho simples.
  • Capítulo 3. Usando a sarjeta. McCloud apresenta o conceito que “sarjeta” que é o nome dado ao espaço entre os quadros, e em como a presença de um leitor é necessária para o preenchimento de uma ideia que existe entre estes espaços e que conecta os quadros postos lado a lado. E em como isso está ligado ao conceito de tempo em si, dentro de uma HQ.
  • Capítulo 4. Molduras de tempo. Pode parecer um “erro de tradução”, ao interpretar “time frame” (“janela de tempo”) como uma “moldura de tempo”. Mas o trocadilho não sobrevive à tradução, infelizmente. O conceito de quanto tempo pode passar entre um quadro e outro é muito subjetivo, e aqui ele analisa as diferentes maneiras de fazer o tempo passar dentro de um gibi.
  • Capítulo 5. Linhas e traços. Como transmitir emoção com um traço? Não um desenho, não uma expressão, mas um traço. Neste capítulo, Scott McCloud investiga os diferentes tipos de traço e como eles podem dizer coisas diferentes nas mãos de diferentes artistas. 
  • Capítulo 6. Mostrar e dizer. Ele vai fundo aqui no que constitui uma HQ, que é basicamente a junção de palavras e imagens contando uma história. É bacana o ponto que ele levanta sobre como só a arte visual, ou só o texto da literatura são vistos como obras de arte individualmente, mas quando elas se juntam, como nos quadrinhos, elas são vistas como um “produto menor”. Esse é o capítulo pra estudar quando algum amigo esnobe aparecer reclamando que “você só lê gibi”.
  • Capítulo 7. Os seis passos. Aproveitando o ensejo do capítulo anterior, McCloud desenvolve mais ainda o seu conceito de arte e como os quadrinhos também são arte, e apresenta para os pretensos criadores de HQ do futuro uma série de passos (seis, óbvio) que podem ser seguidos na publicação de suas obras. Bem inspirador.
  • Capítulo 8. Uma palavrinha sobre cores. Em um livro inteiramente em preto-e-branco, este é um capítulo de destaque. É o único com cores, obviamente, e é um trabalho bacana sobre o uso das cores nos gibis mais antigos, nas obras de arte e nas graphic novels mais novas. Tudo demonstrado com exemplos bem, er, coloridos!
  • Capítulo 9. Juntando tudo. A chamada conclusão, né? Ele faz um apanhado geral do livro e escreve quase uma ode, uma carta de amor, à infinidade de coisas que os quadrinhos podem ser. Desde a obra de arte até o meio de comunicação.

Cores ou Dorgas?

Tô LendoPontos Fortes
  • Uma aula. Pra quem ainda está na faculdade e gostaria de trabalhar com quadrinhos é indispensável. Para artistas visuais em geral, desenhistas, pintores, etc. De maneira geral, até hoje os quadrinhos são meio mal-vistos no meio acadêmico, em especial pelo apelo popular e de comercialização deles. Este livro é uma ótima oportunidade de enxergá-los sob um outro ponto de vista.
  • Disponível. Diferente de quando eu o li pela primeira vez, você pode encontrá-lo com certa facilidade em livrarias online.
Tô LendoPontos Meh
  • Teórico. Em certos pontos ele pode parecer teórico demais. Eu não acho isso particularmente ruim, mas se você não estiver preparado para ler com a cabeça um pouco mais aberta às teorias da arte e da comunicação, pode ficar difícil de ler.

Olha A OUSADIA do Scott McCloud em meter um ROB LIEFELD no livro dele!

Este é um livro que deveria estar na estante de qualquer pessoa que gosta de fazer quadrinhos. Não é o único, aliás. Como mencionei antes, vale a pena também ler as sequências de Desvendando: Reinventando os Quadrinhos e Desenhando Quadrinhos. São leituras bacanas sobre como os quadrinhos poderiam se adaptar ao novo século, com novas tecnologias. Em alguns pontos ele pode até parecer datado porque o Scott McCloud parecia muito deslumbrado com o potencial da internet. Infelizmente ele não estava preparado para a vibe “Admirável Mundo Novo + 1984” que a internet viraria hoje em dia… E quem esperaria, né? Além desses livros, há também dois do mestre Will Eisner que servem de complemento a um entendimento maior sobre a nona arte: Quadrinhos e a Arte Sequencial, e Narrativas Gráficas. Pode ir atrás que vale bem a pena!

E você? Já leu Desvendando os Quadrinhos? Curte Scott McCloud? Tem alguma outra sugestão de livro sobre quadrinhos? Conta aí nos comentários!

Desvendando os Quadrinhos vale cinco rebobinandos! Fácil, fácil! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-01-14T13:04:04+00:00 13 de janeiro de 2020|0 Comentários