CRISE NA DC! Calma, gente. Não é nada sério, é só mais um reboot. “Só mais um reboot?” você diz? Mentira, é o primeiro reboot da DC Comics! Vamos rebobinar Crise nas Infinitas Terras!

As capas brasileiras da mini em 3 edições.

Crise nas Infinitas Terras, é um daqueles eventos de crossover ao qual já estamos mais do que acostumados hoje em dia. Lançada em 1985 nos EUA, a minissérie foi publicada ao longo de 12 edições mensais que revolucionaram por completo o universo DC dos quadrinhos. Aqui no Brasil, do alto dos meu cinco anos de idade, essa mini passou batida da primeira vez que saiu aqui, em 1987! Publicada de forma espalhada pela Abril Jovem nas revistas Os Novos Titãs, Superamigos, Super-Homem e Super Powers, a saga parece ter saído sem a devida importância que merecia. Logo depois, em 1989, ela foi publicada na forma de minissérie mensal, em 3 edições, que eu também não dei muita atenção.

Muitos destes eventos marcantes para mim, nos quadrinhos, surgiram poucos anos antes de eu me interessar por eles de verdade. Então a única forma de saber do que se tratava, em geral, era esperar que a editora responsável se dignasse a publicar alguma reedição da história, ou ir em sebos e catar coisas aleatoriamente (coisa que eu fiz muito, aliás). Vocês jovens não sabem como a vida de vocês é fácil com a internet hoje em dia #cofcofcof #souvelho! Só em 1996 é que eu fui finalmente entender do que se tratava quando ouvia uns caras mais velhos conversar sobre “o Superman pré-crise, ou pós-crise” nos parcos eventos de quadrinhos que existiam, ou na leitura da sessão de cartas dos gibis. A saga teve um novo relançamento neste ano como uma forma de “preparação” para o eventual novo reboot da editora, a famigerada Zero Hora.

A escalação não está completa, Galvão, o time está cheio de reservas, mas vem pro jogo!

É a Crise!

Mas que levou uma editora tão grande no mercado de quadrinhos dos EUA como a DC Comics a dar um reset em suas histórias e querer começar com as coisas praticamente do zero de novo? Ora, o que mais senão sua concorrência, a Marvel Comics? #MarvelTemClássicosSIM 

Era o início dos anos 80 e a Marvel dava uma surra de vendas nas outras editoras. Seus medalhões vendiam como água e até mesmo alguns gibis que antigamente não rendiam muito sucesso estavam se encaminhando para se tornarem powerhouses da Casa das Idéias (oi, X-men). A DC enfrentava uma queda nos seus títulos e um dos poucos que ainda conseguia se segurar bem eram os Novos Titãs, que contavam com uma baita equipe criativa composta por Marv Wolfman nos roteiros e George Pérez nos desenhos. Para muitos funcionários da editora, Wolfman em especial, o problema consistia em ter um multiverso tão amplo. Muitos autores tinham problemas em lembrar o que havia acontecido em edições anteriores a eles, ou mesmo em outras revistas. E muitos dos erros de continuidade eram desconsiderados pelas equipes editoriais como “isso não aconteceu na Terra-Um”. Claro, alguns leitores de longa data conseguiam acompanhar bem essas diferenças, mas os mais novos achavam um saco. Bem, isso segundo o próprio Marv Wolfman e Dick Giordano (o editor-chefe da DC durante parte dos anos 80). 

Queria saber se esse Gary Thompson sabe a importância que ele teve pro mundo dos quadrinhos com essa cata-piolhice toda!

Reza a lenda que uma carta em específico, enviada para a editoria da revista do Lanterna Verde em 1981 (mais especificamente, Green Lantern #143) foi o gatilho necessário para Wolfman (que era o editor da revista na época) desse início aos seus planos de unificar o universo DC. Ainda segundo ele, muitos leitores preferiam a Marvel porque ela aparentava ser bem mais coesa e unificada do que a DC e seus diversos “elseworlds” e histórias paralelas. Em parte da resposta à pergunta cata-piolho do leitor, Wolfman disse:

“(…) No futuro nós provavelmente vamos arrumar tudo o que estiver dentro e fora do universo DC, e deixar de lado tudo que não tenha uma referência direta com a Terra-Um.”

Foi aí, meu amigo, que o piãozinho de Inception girou!

BRAAAAAM!

Só que, lembre-se, isso foi em 1981. Logo depois, Marv Wolfman apresentou sua ideia aos cabeças da editora e todo mundo adorou. Obviamente, era uma história sem paralelos e grandiosa, porém todos estavam dispostos a correr esse risco, porque todo mundo concordava que a DC precisava sair do buraco em que estava e pôr ordem na casa! No ano seguinte, contrataram um pesquisador que teve que ler todo o acervo de quase 50 anos de gibi e fazer anotações sobre quem estava o que e aonde o que tal coisa tinha acontecido com quem (que trabalho triste, hein?). Foram dois anos de pesquisa intensa para que todos os editores montassem uma estratégia com seus personagens e o argumento geral fosse estabelecido. Nesse meio tempo, pistas foram sendo plantadas em diversas revistas, como a primeira aparição do Monitor, nas sombras, em The New Teen Titans #21.

Tudo foi planejado para coincidir com o aniversário de 50 anos da DC em 1985 e revolucionar por completo tudo o que os leitores conheciam. O estilo de contar histórias de antigamente estava sendo abandonado para enveredar pelo tom mais novelesco e, porque não, moderno de Marv Wolfman, no mesmo molde do que Chris Claremont estava fazendo em X-men. E novas equipes criativas seriam formadas para revitalizar os campeões da editora, como o Homem-de-Aço, que estava indo para as mãos de John Byrne, e a Mulher-Maravilha que foi completamente repaginada pelas mãos do próprio George Pérez. O Batman, no entanto, passou quase incólume pelo reboot (como sempre), mas ganhou uma repaginada em sua origem graças a Frank Miller e seu Ano Um.

No fim de tudo, o multiverso foi reintegrado, todas as inconsistências foram apagadas e tudo permaneceu estável desde então. Hahaha. Mentira. Quinze anos depois eles iriam arrumar tudo de novo e mais dez anos depois iriam arrumar tudo de novo, e aí seis anos depois de novo, e aí cinco anos depois de novo… e agora só o Geoff Johns sabe quando vão arrumar mais uma vez!

Se fosse no Brasil, a gente tirava essa crise de letra!

As Infinitas Terras

A história é relativamente fácil de se entender e ser resumida. Contanto que não se entre nos pormenores porque são diversos personagens de muitas Terras paralelas e para quem não é “iniciado”, pode acabar ficando confuso. 

O lance é que existe um multiverso. Como estipulado há muito tempo atrás na editora, em Flash #123 (The Flash of Two Worlds, 1961), estas Terras vibram em frequências diferentes e portanto podem existir no mesmo espaço-tempo. Cada um tem uma diferença entre si, que podem ser grandes, ou mínimas. Além disso, em uma edição de Justice League of America #21 (Crisis on Earh One, 1963) mostrou que os heróis de diferentes Terras poderiam agir em conjunto e pôs em contato, pela primeira vez, os heróis da Liga da Justiça e da Sociedade da Justiça juntos. Além de providenciar um nome legal para a saga.

O nascimento do multiverso DC segundo a própria editora se deu aí.

Com essa premissa, a minissérie se inicia com um universo morrendo, sendo consumido por uma onda de antimatéria. Conhecemos alguns personagens importantes como o Monitor (que não era de LCD), a Precursora e o Pária. Todos eles capazes de ver e se movimentar de um universo a outro para testemunhar o fim e, quem sabe, reunir heróis que sejam capazes de impedir esta crise. Mais para a frente, a gente descobre que o responsável pela onde de antimatéria é um cara chamado o Anti-Monitor, que é uma espécie de “versão bizarra” do Monitor, vindo do universo de antimatéria. Seu objetivo é bem claro, destruir tudo e virar dono do nada. Simples. Direto. Só acho engraçado o nome dele porque se monitor é um cara que “observa, monitora”, um anti-monitor não deveria fazer nada, né? Só ficar ali, sendo observado pelos outros… Mas não vamos entrar nesse mérito.

Para defender toda a existência, alguns (muitos) heróis são reunidos depois que todas as Terras paralelas foram quase apagadas. Das cinco restantes, heróis e vilões traçam um plano final para pôr um fim aos desejos niilistas do Anti-Monitor! Em meio a muitas batalhas, diversos sacrifícios são feitos, dentre os quais os mais memoráveis são o da Supergirl original e o de Barry Allen, o Flash da Era de Prata. Com a derrota final do vilão, as cinco Terras que sobraram mergem-se em uma só e um novo universo surge, completamente unificado. Desta forma, todo o histórico dos personagens ficam entrelaçados e a história segue seu curso normalmente.

Para mais detalhes, leiam a minissérie porque vale bem a pena.

As muitas mortes do Flash durante a saga!

Tô LendoPontos Fortes
  • Mega Saga. Esta foi a primeira! A grande mega saga de todas! Depois do sucesso dela, todo mundo tentou copiar, até mesmo a Marvel (que foi a razão inicial da Crise).
  • Desenhos. George Pérez faz painéis incríveis e splash pages enooormes, riquíssimas em detalhes. Ele diz que foi uma diversão imensa desenhar esta história, e se ele se divertiu tanto, imagina a gente!
  • Roteiro. Não é à toa que comparam tanto os Novos Titãs de Wolfman e os X-men de Claremont. O estilo de escrita dos dois é bem parecido e, apesar de ter alguns textos enormes, a HQ é até tranquila de ser lida. Bastante envolvente e um clássico a ser sempre revisitado.
  • Legado. Uma coisa bacana estabelecida foi o lance dos heróis “passarem o bastão” para as gerações mais novas. Funcionou especificamente para o Flash, na minha opinião, que passou a ser Wally West. Estabeleceu também que os heróis da Era de Ouro também fazem parte do mesmo universo e que antes dos heróis atuais, haviam outros, e que potencialmente no futuro, novos heróis surgiriam.
Tô LendoPontos Meh
  • Muitos Personagens. Parece loucura criticar isso, mas é uma quantidade tão absurda de personagens envolvidos que às vezes é difícil saber quem é quem, ainda mais quando se tem versões da mesma pessoa envolvida na história. Detalhes obscuros, personagens que ninguém lembrava e coisas do tipo aparecem aos borbotões.
  • Continuações. Como evento único, a Crise funcionou muito bem. Foi um marco nas histórias em quadrinhos e até hoje, na hora de comparar personagens, sempre tem aquele chato que manda “MAS É PRÉ-CRISE, OU PÓS-CRISE?”. As continuações, no entanto, são no mínimo frustrantes. Há quem goste, mas para mim, até hoje fica um gosto ruim na boca quando eu lembro de que o vilão passou a ser o Superboy-Prime, e que o motivo é que ele ficou indignado com o que aconteceu aos heróis durante os anos 90! Sem contar o lance todo de “socos na parede da realidade”.
  • Muitos finais. Acho que ela se extende um pouco além do necessário com o Anti-Monitor morrendo e voltando algumas vezes até darem cabo dele, mas enfim, aind curto apesar disso.

A Crise nas Infinitas Terras foi um evento muito bem planejado, programado e com o objetivo principal de pôr ordem na casa! Talvez por isso ela tenha funcionado tão bem, mesmo com tanta gente envolvida. Ao contrário de muitas continuações, e outras sagas, que buscam sacudir o status quo a troco de nada, Crise teve um aspecto permanente nas histórias da DC por muito tempo e de fato redefiniu muitos personagens por anos a fio.

Claro que naquela época eles estavam lidando com “apenas” 50 anos de cronologia e, conforme os anos passam, novas cronologias vão de acumulando e o que era meio século de gibi, hoje já são mais de 80 anos! Claro que a solução para se manter relevante é se modernizar sempre, mas fica a questão de como essa modernização é pensada, ou mesmo apresentada a novos leitores.

Recentemente, o universo televisivo da DC Comics, conhecido como Arrowverse, está brincando com as infinitas possibilidades de uma crise e parece que está tudo muito divertido! Gosto bastante de alguns dos personagens e ver suas várias versões na telinha tem me deixado bastante empolgado. Resta saber se a Crise na tv vai ser tão boa quanto a Crise nos quadrinhos.

E você? Curte a Crise? Leu a HQ? Odeia reboots? Me conta aí nos comentários.

Crise nas Infinitas Terras vale, obviamente, Infinitas Terras! 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 🌏 (…)

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.