Rebobinando #107 | Superman vs A Elite

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O Super-homem ainda é relevante? Será que aquele que é considerado o “primeiro” super-herói das HQs, que inspirou diversos universos com pessoas extraordinárias e seus superpoderes, ainda ressoa com o público atual. Será que ainda há espaço para a verdade, justiça e, err, o “modo de vida americano”? Vamos rebobinar então Superman vs A Elite.

A Elite: Zoológia, o Chapéu, Manchester Black e Fusão.

Recentemente, a revista Variety publicou um artigo comentando os planos da Warner Bros para o futuro do universo cinematográfico da DC Comics. Nestes planos há espaço para a Tropa dos Lanternas Verdes, Aquaman e Mulher-maravilha… porém, infelizmente, parece que a empresa não tem muita ideia do que fazer com o escoteiro azulão. Em seguida um artigo da Forbes, intitulado “DC Films Still Doesn’t Know What To Do With Superman” (ou “os filmes da DC não sabem o que fazer com o Superman”, em português), analisou o que foi dito e tratou de averiguar o que é que  exatamente não faz do Super-Homem um personagem “relevante” para hoje em dia.

O lugar-comum dessas críticas é sempre o mesmo. O mundo de hoje está mais cínico, mais “malvado”, e os anti-heróis ganham cada vez mais espaço desde o início do século (muitos dizem ser culpa de Matrix e seu couro preto), e um herói “certinho” que segue as regras, não tem reflexo na sociedade. Outros pontos de vista argumentam que o Super-Homem é “poderoso demais” e que é muito difícil escrevê-lo de uma forma que ressoe com o público. Quer dizer, é fácil fazer o Capitão América parecer “um de nós”, ou mesmo o Homem-Aranha… Mas um cara como o Super? Tem gente que até hoje usa o discurso de Kill Bill para justificar porque ele é um personagem difícil.

Mas tudo isso é a mais pura balela! Porque o que mais tem por aí são escritores competentes que conseguem escrever histórias bacanas com este personagem! E uma delas é esta.

Super vs Clone? Não. Apenas Clark Kent e Jack Ryder discutindo os aspectos morais do modus operandi da Elite.

Verdade e Justiça e o American Way

Publicada em Action Comics #775, em 2001, “What’s so funny about truth, justice and the American way?” (ou “qual é a graça da verdade, justiça e do modo de vida americano?” em português) saiu aqui no Brasil dois anos depois, em 2003, em Superman #8. O gibi já fazia parte das novas revistas da Panini Comics, depois que a Abril Jovem parou de publicar as histórias de heróis. O nome, no entanto, ficou como “Olho por olho”, que é um nome meio qualquer coisa, né?

Pelo ano de publicação, podemos notar como a história nasceu. Ela foi basicamente uma resposta do roteirista Joe Kelly (Deadpool, Uncanny X-men, JLA) às críticas da época ao Super-Homem por conta dos novos anti-heróis que faziam um grande sucesso no início do século XXI. Em especial ao supergrupo chamado The Authority, criado por Warren Ellis e Bryan Hitch. O Authority surgiu como um refresco no mundo dos quadrinhos, com seus plots mais sérios e repletos de violência e superpoderes inovadores, mas como quase tudo no meio, foram aos poucos sendo levados à exaustão depois que passaram pelas mãos de outros roteiristas. Ainda assim, tinha lá o seu lugar e o seu mérito (eu, particularmente, gosto muito do primeiro e do segundo arco de histórias, e acho Jenny Sparks uma baita personagem!

O povo pede! O cidadão de bem exige! Morte aos assassinos!

A partir daqui, temos spoilers sobre a história (caso você ainda não tenha lido)

Na continuidade da DC, no entanto, o grupo da Wildstorm foi adaptado para The Elite. Jenny Sparks virou Manchester Black, um britânico com poderes psiônicos e telecinéticos, além de um vocabulário digno de fazer um marinheiro corar. Os outros membros da equipe foram transformados em Fusão, Zoológica, e Chapéu (Coldcast, Menagerie e The Hat, no original em inglês). Viajando através das realidades em uma nave viva, eles frustraram diversas ações do homem-de-aço, impedindo-o de resolver problemas através do globo da maneira que ele sabe fazer melhor: SEM CAUSAR DANOS COLATERAIS E PRESERVANDO AS VIDAS DE TODOS OS ENVOLVIDOS (viu, Zack Snyder?).

Ao longo da história, tudo o que faz do Super-Homem o maior dos heróis do mundo é colocado à prova. O público começa a se voltar contra ele e o que ele representa, achando que os métodos do novo supergrupo são mais efetivos, já que os vilões não “voltam mais” para atrapalhar tudo. A cada novo problema, o grupo chega na frente e o Super vai ficando cada vez mais indignado com a mais absoluta falta de respeito pela vida humana! No fim, a briga entre as duas partes é inevitável e eles se enfrentam em uma disputa final onde, por incrível que pareça, o Homem-de-aço se solta como nunca antes e derrota A Elite com requintes de crueldade.

É MUITA METALINGUAGEM!

OU SERÁ QUE NÃO?

Tô LendoPontos Fortes
  • Roteiro. A história fechadinha. E muito boa, aliás. Não foi considerada a melhor história de 2001 pela Wizard Magazine à toa! Está na posição #21 das 100 Maiores Histórias do Super-Homem. Além de ser um embate metalinguístico bacana, claro.
  • Escoteiro Azulão. Na minha opinião, é uma das grandes histórias que mostram que não só dá para escrever algo bom com o Super, como também não é preciso mudar a essência do personagem para fazê-lo funcionar.
  • Adaptação. Rolou uma adaptação para um filme em animação desta história em 2012, chamado Superman vs The Elite. E foi uma adaptação bem fiel.
Tô LendoPontos Meh
  • Desenhos. Não sou muito fã da arte do Doug Manhke. Bom, pelo menos não aqui. Curto ele em O Máskara, mas a arte aqui ficou meio esquisita. Tem lá seus bons momentos, apesar de tudo, e ele ainda conta com uma forcinha do Lee Bermejo, que é um baita desenhista. Mas de novo, achei o resultado final meio esquisito, infelizmente.
  • Disponibilidade. Achei meio difícil de encontrar a história sozinha, mas ela foi reeditada em algumas coletâneas do Super-Homem como Justice League Elite Volume 1 e Superman: The Greatest Stories Ever Told, Volume 1.

Papai Kent entende, mas não justifica! Ok, boomer.

Realmente, o Super-Homem é um personagem um tanto… antiquado. Suas origens estão lá nos anos 40, uma época um tanto complicada para a humanidade. De certa forma, ele surgiu como uma figura de esperança e escapismo para as crianças da época e cresceu muito mais do que qualquer um esperava na cultura pop moderna, sendo facilmente uma das figuras mais reconhecidas do mundo. Muito além do “modo de vida americano”, o Homem-de-aço é um herói globalizado, que deveria refletir o melhor nas pessoas.

Na contramão do que pensa Quentin Tarantino, Clark Kent não é uma máscara. Ele é o verdadeiro homem do duo super-herói/identidade secreta. O Super-Homem pode ser o símbolo da esperança, da persistência, mas antes de tudo ele é Clark, filho de Jonathan e Martha Kent, dois fazendeiros humildes do interior dos EUA. Ele cresceu pelo exemplo, e como herói, ele lidera pelo exemplo. É o que os primeiros filmes do Richard Donner conseguem captar com a interpretação de Christopher Reeve. É até mesmo o que o recente seriado da Supergirl consegue captar com a interpretação do Tyler Hoechlin

Você não ia gostar de ver o Super nervoso…!

Quer deixar o Homem do Amanhã relevante para o público atual? Confronte ele com o que o público atual espera de um super-herói! Poxa, se o MCU conseguiu fazer um personagem como o Capitão América ser “gostável”, como é que não conseguem fazer com o Super-Homem?! Num mundo onde os novos mitos, os anti-heróis, matam, destroem, e se vangloriam de usar tortura e violência para acabar com os bandidos, só o universo pode nos dizer o quanto precisamos de um exemplo como o bom e velho Super-Homem!

E você? Já leu esta história? O que você acha? Tem alguma história do Super que você acha que seria perfeita para adaptar para os dias de hoje e reapresentar o personagem como ele é nos quadrinhos? Conta aí para mim!

“Superman: What’s so funny about truth, justice and the american way?” vale fácil quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-12-02T23:16:57+00:00 2 de dezembro de 2019|0 Comentários