Rebobinando #106 | Sem Poderes

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Se grandes poderes trazem grandes responsabilidades, qual seria o tamanho de uma responsabilidade se você não tivesse poder nenhum? Bom, de acordo com essa história do Aranha, ela seria BEM MAIOR! Vamos rebobinar Homem-Aranha Anual #4: Sem Poderes!

As capas do arco de histórias original de The Amazing Spider-Man #340-343

As revistas anuais publicadas pela Editora Abril nos anos 90 tem um histórico, no mínimo engraçado. A princípio, a edição #1, com a história do rapto de Mary Jane (queu já comentei aqui), foi publicada em maio de 1992. Até aí tudo bem. A editora já contava com duas revistas mensais do herói e estava se aventurando por um novo mercado, onde poderia juntar arcos de histórias inteiros em uma edição só e publicar tudo de uma vez, a distância de até quatro anos entre as publicações americanas e brasileiras ajudava muito na hora de fazer este tipo de coisa. Só que a edição #2 da anual deveria ter sido lançada em, ah, sei lá? Maio de 1993, não é? Pois saiu em dezembro de 1992! Apenas sete meses depois. A edição #3, no entanto saiu em dezembro de 1993 e na época eu achei até bacana ter um “encadernadinho” extra com o meu herói favorito para ler nas férias… Mas imagina a minha surpresa ao finalmente pegar a anual #4 menos de seis meses depois? Em maio de 1994?

Quer dizer? Em menos de dois anos a Editora Abril conseguiu publicar QUATRO EDIÇÕES DE UMA REVISTA ANUAL! 

Eu diria que é uma manipulação temporal digna de Doctor Who, ou Marty McFly acontecendo aí… mas ok. Quem vai reclamar quando tem mais revistas do herói que você mais gosta chegando às bancas? (provavelmente o meu pai, porque o dinheiro era dele, mas enfim…). 

Porque eu vou na casa dela-ai-ai / Arrebentando a janela-ai-ai

Os autores

Portanto, o ano era 1994 e eu já era um ávido leitor de Homem-Aranha. Estava começando a sentir saudades do Todd McFarlane com seus desenhos ficando cada vez mais escassos nas revistas, mas também já estava começando a notar a presença de outros desenhistas que me chamavam a atenção. Em especial um com um estilo completamente diferente, mas um tanto familiar de traço: Erik Larsen

Vou dizer que a princípio o traço dele não me agradou muito, porque eu achava “menos detalhista” que o McFarlane (o que era pura besteira, porque o Larsen adora detalhes), e porque, francamente, não era o tio Todd. Eu sempre tive muitos problemas quando uma equipe criativa mudava nos quadrinhos e ficava um tanto decepcionado com os desenhos se não fossem essencialmente os mesmo do desenhista anterior. Por mim, naquela época, o Todd estaria desenhando o Aranha até hoje, coitado. Mas no fim, o traço do Erik Larsen foi ganhando um certo espaço no meu coração, aprendi a gostar mais e a sempre procurar o careca de bigode e óculos que ele sempre desenha em algum canto de toda revista em que ele trabalha.

Inclusive, o nome dele é Jon Day, ele é um amigo de longa data do Erik Larsen e virou uma espécie de easter egg nos gibis dele e tem até uma página na wiki do Savage Dragon.

Mas o gibi de nada seria sem a outra metade igualmente importante à arte! Os roteiros de David Michelinie! Acho que eu não seria capaz de aprender a gostar da arte do Larsen se não fosse pela familiaridade que o roteiro de Michelinie traz para o Homem-Aranha. Para mim, esse início dos anos 90, pré-saga do clone, é um dos melhores períodos das histórias do Aranha. As invencionices não haviam chegado ao ponto do absurdo e a relação entre a Marvel e os fãs não era “tóxica/abusiva”, sabe? Será que algum dia foi? Hum. Enfim. Provavelmente eu tenho essa sensação porque foi justamente o período em que eu comecei a ler gibis de heróis, e tenho uma certa saudade dessa época.

Uma saudade saudável, devo dizer. Até mesmo com as muitas elucubrações que criaram plots no mínimo esquisitos nos anos seguintes, eu posso afirmar me diverti bastante lendo algumas coisas mais recentes como Spider-Island, Superior Spider-Man e Spider-verse. Ou seja, nem tudo é ruim. Mas esta fase anos 80-90? Ah, esta fase é imbatível!

O Larsen desenhava umas poses muito mais iradas que o McFarlane, desculpaê!

Michelinie passou muitos anos na Marvel e escreveu bastante coisa para o Homem-de-Ferro e os Vingadores. Ele trabalhou durante a fase do “demônio na garrafa” e lançou a Guerra das Armaduras. Também foi o responsável pela criação de personagens como James Rhodes, Justin Hammer e o Fantasma (vilão que serviu de inspiração para a vilã de Homem-Formiga & Vespa), além de também ser o criador do Scott Lang e do Treinador, na HQ dos Vingadores. Em Amazing Spider-man (e suas outras muitas revistas relacionadas), Michelinie foi de 1987 a 1994, sendo o responsável por diversas histórias marcantes e trabalhando com alguns dos maiores artistas do Aranha em muitos anos, o próprio Erik Larsen, claro, além de Todd McFarlane e Mark Bagley. Adiciona aí no currículo dele a criação do Venom, do Carnificina, e de muitos outros “aracno-vilões”. 

“Los Aracnideos” parece um bom nome de banda de rock mexicano!

A história

Publicada em apenas uma edição de 100 páginas aqui no Brasil, o arco de história Powerless (“Sem Poderes”, no Brasil) saiu em quatro edições, da #340-343, de The Amazing Spider-man. A vida de Peter Parker, como sempre, estava uma bagunça e ele passava por alguns problemas em seu casamento com a MJ. Felicia Hardy, a Gata Negra, tinha acabado de voltar e estava namorando o melhor amigo de Peter, Flash Thompson, só para criar problemas. Thompson, obviamente não sabia que ela ou o Peter eram super-heróis, o que só deixava tudo mais difícil. Nesse ponto, o Sexteto Sinistro já havia retornado e ido embora e a Tia May tinha acabado de perder o seu namoradinho Nathan Lubensky, um velhinho cadeirante muito mal-humorado. Com a perda de mais uma pessoa no seu convívio, Peter começa a se perguntar DE NOVO se vale a pena continuar sendo o Homem-Aranha.

Num desses encontros que só um roteirista consegue criar, Peter conhece um cientista chamado Dr. Turner (que, em inglês, já é um BAITA DUM FORESHADOWING) que criou uma máquina para analisar os poderes do nosso querido cabeça-de-teia. Só que, por acidente, a máquina não só analisa, como reprime os poderes de aranha, fazendo com que Peter vire uma pessoa comum. Depois de muito considerar, ele decide voltar ao laboratório do tal doutor e ficar por quanto tempo fosse possível sob o efeito da máquina, para finalmente deixar de ser o amigão da vizinhança.

Now tell me what you want / What you really really want

O dr. Turner, no fim das contas mostra a que veio e, secretamente, contrata vários mercenários para lutarem contra o Homem-Aranha e assim eliminá-lo de vez! Entre os bandidões estão as “spice girls do mal”, as Fêmeas Fatais, o herói/criminoso latino-americano Tarântula, e o clássico dos clássicos Escorpião. A cada luta Peter tem uma sorte dos infernos e muita ajuda dos amigos, em especial da Gata Negra para derrotar os vilões, mesmo que temporariamente. Num movimento típico de supervilão, o cientista junta todos os mercenários num lugar só para traçar um plano final para acabar com o Homem-Aranha de uma vez por todas! Com todos reunidos, o dr. Turner se transforma no…

Camaleão! (sacou?? Hein? Dr. “Turner”?? Porque ele “turn” into other people???)

Ah, sim. Alerta de Spoiler.

Se você prestar atenção MESMO na história, nem é um spoiler tão grande assim, vá?

Com o plano finalmente descoberto, Peter e Felicia seguem o sinal de um dos rastreadores-aranha que ele colocou no Escorpião anteriormente, e encontram a tal máquina que tirou seus poderes. Enquanto a Gata distrai os bandidos, ele consegue reverter o processo e volta com sangue nuzóio pra encher todo mundo de sopapo!

Ok, ok, a história em si não é das mais sensacionais, tanto que nem tem edição encadernada a venda, a não ser um omnibus enorme dessa fase do Larsen, custando o olho da cara e reunindo cerca de 40 edições!!! Mas como uma revista ANUAL, para mim, do alto dos meus doze anos, foi um BAITA evento!

💓💓💓💓💓

Tô LendoPontos Fortes
  • Roteiro. O argumento em si não é dos mais complicados. Mas o roteiro é bem bacana. Nesta fase, algumas das piadas do Aranha ainda eram localizadas para a nossa realidade, o que só o deixava mais engraçado. É o bom e velho Aranha, falando pelos cotovelos!
  • Desenhos. Ouso dizer que Erik Larsen é um gosto adquirido. Hoje eu amo o traço dele e acho o trabalho dele em Savage Dragon até hoje sensacional. Se duvida de mim, pode perguntar para o Caruso!
  • Disponibilidade. Não é particularmente difícil de encontrar, e para comprar na internet, pesquisando bem, você encontra com valores variados.
Tô LendoPontos Meh
  • Saudosismo. Vai te deixar com uma baita saudade desta época. Sem clones, sem divórcio, sem supervilão colocando chifre, sem pactos com o demo… só a boa e velha troca de sopapos com supervilões fantasiados.
  • Roteiro. É bom, mas é ruim, sabe? Como são histórias da linha mensal, tem vários plot points atirando para muitos lados com histórias que, honestamente, não irão para lugar nenhum e não importam mais. A Abril ainda deu aquela esquartejada de costume cortando algumas destas páginas na edição brasileira, mas se você for ler a americana, só fica esperto. Nada que comprometa, claro, mas é chatinho.

Descobri uma coisa bem bacana ao reler as histórias desta época. Acontece que o Retorno do Sexteto Sinistro foi o arco de histórias imediatamente antes de Sem Poderes. Tanto que no fim das contas, parecem ser uma história só. O que a gente não sabia é que ambas as histórias tem inspiração em The Amazing Spider-Man Annual #1 (1964)!!! Essa é a edição em que o Sexteto Sinistro se reúne pela primeira vez, ao mesmo tempo em que Peter Parker passa por uma perda temporária dos poderes!

O lance é que, enquanto na história de 1994 ele perde os poderes por conta de uma máquina e um vilão, na edição original de 1964 não há a menor explicação de porque isso acontece. Ele simplesmente está triste por não poder contar à tia May sobre sua vida dupla e PIMBA! Escorrega do alto de um edifício e quase morre, sem poderes. Claro que eles voltam sem explicação nenhuma também, quando ele mais precisa, então tudo dá certo no final.

Fico com a impressão de que a explicação possa seguir os moldes da perda de poderes que o herói sofre no filme Homem-Aranha 2, de 2004. Ou seja, estresse. Mas vá lá. Era o Stan Lee escrevendo, né? Nosso ator de pontas mais querido, que deus o tenha! 

Homem-Aranha Anual #4 vale tranquilíssimo cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-11-18T22:38:29+00:00 18 de novembro de 2019|0 Comentários