Rebobinando #105: X-men – Deus ama, o Homem mata

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Os X-men sempre foram uma alegoria para minorias oprimidas. A longo dos seus quase 60 anos de publicação, eles representaram diversos grupos diferentes, mas sempre com uma mensagem básica: “Não seja racista!” Vem comigo rebobinar a graphic novel X-men: Deus ama, o Homem mata.

Coluna publicada originalmente em 11 de novembro de 2019.


O fundamentalismo religiosos sempre foi um avanço preocupante na sociedade. Em especial quando comandado por líderes religiosos intolerantes. O reverendo William Stryker fez da vida dos mutantes da Marvel um verdadeiro inferno em 1982! Vem comigo rebobinar a graphic novel X-men: Deus ama, o Homem mata.

Magneto Vovô velhinho > Magneto Velhinho Saradaço

Antes de mais nada, gostaria de comentar uma coisa aqui.

Quadrinhos são políticos. De uma maneira geral, toda arte é um ato político de alguma forma, e como quadrinhos são arte, logo são carregados de significado político. Ele podem variar de um lado a outro no espectro político graças a um determinado autor, ou uma determinada editora, mas ainda assim essas histórias colocam seus pontos de vista para serem analisados por um público. Até mesmo quando os quadrinhos têm como objetivo o puro entretenimento, eles carregam algum tipo de mensagem e isso porque não é só sobre o meio, mas porque é a natureza das histórias!

Histórias são o que nos ligam ao passado, ao presente e ao futuro. São o que nos fazem reavaliar pontos de vista, ou ilustrar exemplos que possam ser seguidos. Para mim, histórias são a base do que nos faz humanos, porque através delas vivenciamos outras experiências, nos colocamos no lugar dos outros, nos divertimos, sentimos, experimentamos. Através de histórias, podemos ser mais humanos. Podemos existir. E, bom, existir por si só já é um ato político também, em especial quando nos referimos às minorias. Não existe arte sem política, então por conseguinte, não existe quadrinhos sem política. 

Ainda mais se considerarmos os X-men.

Xavier não foge de debates!

“I Have a dream (…) That all men are created equal!”

Os X-men nasceram em uma época em que os EUA borbulhavam com movimentos sociais! Após terem criado heróis como os Vingadores, Quarteto Fantástico e o Homem-Aranha, Stan Lee e Jack Kirby queriam aumentar ainda mais o elenco da editora com novos heróis. Era uma época onde tudo valia na criação de personagens e Lee já estava um pouco cansado de usar a mesma ideia de acidentes radioativos ou cósmicos e pensou que sua mais nova equipe poderia ter poderes “porque sim”! Determinando que os novos personagens seriam mutantes, ou seja, nasceriam com seus poderes, ele já pulou uma etapa na hora de bolar uma origem, heh.

Porém, o que seria só mais um gibi de super-heróis acabou tomando outro caminho graças a época em que foi concebido. Os X-men acabaram aos poucos se tornando um reflexo do movimento negro dos anos 60, com comparações entre seus principais personagens Magneto e Professor Xavier às lideranças da época, a saber, Malcom X e Martin Luther King. Segundo Stan Lee, “o objetivo principal era mostrar que a intolerância era algo ruim, se é que que fosse preciso um motivo para escrever gibis de super-heróis”. Mas entre o ano de lançamento, 1962, e 1970 o título não vendeu muito, e acabou sendo paralisado por um tempo. Só em 1975, com Giant-Sized X-men #1 que contava com uma nova equipe criativa formada por Len Wein (roteiro) e Dave Cockrum (desenhos), é que os mutantes começaram o seu caminho para deixar de ser uma equipe B de heróis para a potência multibilionária que são hoje.

“Com que roupa eu vou…?”

De lá para cá eles passaram pelas mãos de inúmeros outros roteiristas e artistas, e a cada época enfrentavam um novo tipo de intolerância, sempre sendo amparados pelo casos de intolerância do mundo real. Genosha e seu Programa de Extermínio, por exemplo, guardam semelhanças assustadoras com o Apartheid na África do Sul e o Holocausto. O Vírus Legado que tanto atormentou a raça mutante nos anos 90 era uma alegoria ao vírus da AIDS e todo o estigma que ele carregava na época. E até mesmo a mudança da sede da escola Xavier de Nova York para San Francisco refletia a característica da política de tolerância da segunda cidade com o movimento LGBTQ+. O ponto é que, com o passar dos anos eles foram sempre adaptando o tipo de luta social que o “movimento mutante” precisaria enfrentar além dos perigos habituais de vilões com planos de dominação mundial e tals.

Wolverine e Magneto: Bad cop and EVEN WORSE COP!

“A man who stands for nothing will fall for anything.”

A história foi lançada em 1982 em Marvel Graphic Novel #5, o selo de edições de luxo da Casa das Ideias. Aqui no Brasil, ela foi lançada em 1988 como a primeira edição do mesmo selo Graphic Novel, mas com o nome de “O Conflito de uma Raça”. Como de hábito, não cheguei a ler a revista na época em que ela saiu, mas só muitos anos depois, após o lançamento de X-Men 2 nos cinemas. 

O ano era 2003 e eu já era fã dos mutantes desde o desenho animado que passava na Globo. Já tinha delirado com o primeiro filme em 2001, e com Homem-Aranha em 2002. Em 2003, no entanto, o mundo nerd fervilhava por causa de duas continuações de dois clássicos da virada do século: o próprio X-Men, claro, é Matrix! Todos aguardavam ansiosamente pelos filmes e mal sabíamos nós o que nos esperava na década seguinte. X-Men 2 é, para mim, um dos melhores filmes da franquia dos mutantes da Fox de todos os tempos (tudo bem que a concorrência não é lá das grandes). 

Xavier é a pior arma contra os mutantes.

Mas porque eu falo do filme de 2003 aqui? Bom, é que o enredo dele é livremente inspirado nesta graphic novel. Digo “livremente”, mas talvez eu deva dizer “altamente” inspirado. Isso porque diferentemente da maioria das adaptações cinematográficas, que em geral só pegam o mesmo nome e mudam completamente a história (ESTOU OLHANDO PARÁ VOCÊ GUERRA CIVIL!), este não foi o caso aqui. X-men 2 tem todos os plot points de Deus Ama, o Homem Mata, com pouquíssimas alterações. 

A história ainda é sobre a cruzada de um homem com um viés ideológico exclusivo, que busca eliminar toda a raça Mutante. Ele captura o Professor X e utiliza uma máquina que amplia os seus poderes para causar um aneurisma cerebral na cabeça de todos os mutantes do mundo. Para salvar o seu mentor, os X-men precisam se aliar ao seu pior inimigo, Magneto, e travar uma batalha não apenas pelas suas vidas, mas pelo direito de existirem como uma raça. 

Debates! Mais Debates! EITA CLAREMONT!

“Hate cannot drive out hate; only love can do that.”

A história, escrita pelo próprio Chris Claremont, a princípio não tinha expectativas de fazer parte da cronologia oficial da editora. Jim Shooter havia procurado o desenhista Neal Adams com essa proposta, de fazer apenas uma história só, mas o projeto acabou não andando muito para frente, o que fez com que oferecesse o trabalho ao artista Brent Anderson. A arte é bem diferente do habitual que os fãs estavam acostumados nas revistas mensais e funciona bem para uma história com um teor um pouco mais sério e denso. E é uma diferença que já dá pra sentir logo de cara, já que a revista abre com a perseguição e o assassinato de duas crianças mutantes e negras que depois são penduradas em um balanço de parquinho “como exemplo para as outras crianças”.

O tom não cai muito no decorrer da graphic novel, no entanto, e até o estilo verborrágico do Claremont parece até um pouco contido em certas partes. Ele aproveita para deixar o dedo correr nas falas bíblicas do vilão, o reverendo William Stryker, sempre que ele tenta usar uma passagem do livro para justificar seus atos mais hediondos. Talvez por isso ela seja tão boa e talvez por isso ela não seja apenas uma one-shot dissociada da cronologia da Marvel. Havia planos de matar o Magneto no início da história, fazendo com que os X-men passassem a investigar a fundação Stryker, porém, como esse plano não vingou, Claremont aproveitou e deu lá o seu jeito de encaixar os acontecimentos dentro do que ele já escrevia mensalmente. A Saga da Fênix Negra já havia acontecido, Ciclope sairia da equipe logo em seguida, Illyana ainda estava adolescente e na Mansão X, essas coisas…

Vamos destruir esse reverendo, COM ARGUMENTOS!

Na re-edição da graphic novel, no entanto, tem um prefácio muito interessante do próprio autor, contando sobre como a ideia para a história surgiu:

“Então aqui estávamos nós em 1980. Ronald Reagan é presidente e uma onda de conservadorismo está varrendo a nação, se apresentando como uma resposta da mãe-pátria às atitudes hedonísticas e pouco patriotas dos anos 60 e 70. De acordo com eles, o país estava voltando às crenças e valores tradicionais mais básicos, tanto politicamente quanto moralmente. Liderando o ataque (e, por extensão, sofrendo uma avalanche de críticas dos “esquerdistas” de NY e LA) estavam o grupo de Tele-Evangelistas, anunciando sua renascida visão fundamentalista da Bíblia pelas redes de TV. (…) A Bíblia era a fonte de todo conhecimento, (…) e sua crença era apresentada como a mais vital, a mais viável e a mais relevante alternativa às denominações tradicionais. Infelizmente para mim, uma pessoa de fora, isso também soava como altamente excludente. (…) E apesar de alguns reverendos reconhecerem que era preciso de mais tolerância e que a América era uma sociedade plural, o sentimento geral era (aos meus ouvidos, pelo menos) de “ou é do meu jeito, ou cai fora”. 

Era nessa sensação de domínio desses caras que Claremont começou a moldar seu William Stryker. Um cara que se colocava acima do bem de do mal e que acreditava carregar uma missão divina para exterminar toda a raça mutante do planeta, considerando-os como uma obra do diabo. Para Claremont (e para qualquer outra pessoa com pelo menos dois neurônios), os mutantes do universo Marvel sempre foram uma metáfora para as classes menos representadas. Uma espécie de “minoria suprema” da editora. Foi a partir daí que ele resolveu brincar com os conceitos de religiões e aplicar este embate de crenças, usando ainda como exemplos a relação super-amigável entre Noturno e Kitty Pryde. Ele um católico fervoroso e ela, judia. Ambos mutantes. Ele ainda aponta que, como os EUA na época (e porque não, o Brasil de hoje), os X-men eram um grupo muito diversificado, com pessoas de origens diferentes e portanto, crenças diferentes, culturas diferentes, etc. etc. Se eles poderiam deixar essas diferenças de lado e conviver pacificamente em prol de um bem maior, porque não o resto da raça humana?

Vai, tio! Atira mesmo na guria que ATRAVESSA PAREDES ou no MALUCO BLINDADO!

Essa é uma pergunta que, infelizmente, nos vemos obrigados a fazer até hoje.

Tô LendoPontos Fortes
  • História. Forte e direta. Com início, meio e fim bem marcados, mas que deixa um gostinho de “preciso pensar mais sobre isso ao final”.
  • Arte. Fiquei chocado ao saber quem ele era porque não liguei o nome a pessoa. Ele trabalhou muito na Marvel nos anos 80, por mais tempo no gibi do Power Pack. MAs ele também é o artista de Astro City, de Kurt Busiek.
  • Disponibilidade. Além da edição original de 1988 a graphic novel foi relançada várias vezes desde 2003 pela Panini. Com uma edição de 2014, também da Panini, e uma de 2015 da Salvat.
Tô LendoPontos Meh
  • Agressiva. Na boa? Eu tô procurando coisas para criticar, então lá vai. Pode ter gente que ache a trama mais “preocupante” que o normal. Afinal ela começa com a morte de duas crianças bem no estilo dos linchamentos da KKK no passado. E algumas das discussões sobre religião entre os próprios personagens, além do uso de passagens da Bíblia para justificar certos atos abomináveis pode soar meio incômodo para algumas pessoas. Além, claro, de uma tortura bem “1984” (o livro) aplicada ao Professor Xavier. Digamos que é uma graphic novel cheia de trigger warnings.

Xavier e Magneto: juntos novamente?

X-men sempre foi um gibi “atual”. Mesmo quando você pega uma edição antiga, é incrível como alguns dos temas soa sempre atual. Quer dizer, “incrível”, né? Eu deveria dizer “preocupante”. E, embora nós estejamos acostumados às aventuras deles envolvendo viagens no tempo, viagens ao espaço, alienígenas e forças cósmicas, a base deles ainda é a luta contra o preconceito. A luta por aceitação. Em edições recentes, já os vi lutarem contra um vírus sentinela propagador de fake news (ou algo do tipo), sem contar com sua mais nova reorganização nas minisséries Powers of X e House of X (recomendo a leitura, são bem boas).

E lembre-se: seja do Superman ao Doutrinador, de Watchmen a WildC.A.T.s todo quadrinho tem uma história para contar. Até mesmo um lado para tomar. Todo quadrinho vai ter uma posição política, seja ele pura arte ou entretenimento. A gente pode até ler para fugir um pouco da realidade, mas não faz bem se isolar da realidade na hora de ler alguma coisa.

X-Men: Deus ama, o Homem mata vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-06-01T17:14:57+00:00 1 de junho de 2020|0 Comentários