Rebobinando #104 | O Iluminado

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Em 1980 um clássico do horror chegava às telas dos cinemas dirigido pelo mestre do cinema paradão, Stanley Kubrick. Nos anos seguintes ele foi de flop a cult, de incompreendido a clássico, de “chato paradão” a “é terror psicológico, cara”. Pega o machado, chama o Johnny e vem rebobinar O Iluminado!

CHEGUEI! CHEGUEI CHEGANDO ARREBENTANDO AS PORTA TODA! – Ludmilla Torrance.

Stanley Kubrick é um desses diretores estilo “ame-o, ou deixe-o”. Quem curte o cara não para de elogiar sua filmografia e o seu talento na direção de obras-primas do cinema que promovem uma profunda análise da psiquê humana. E quem não o curte geralmente só o acha chato mesmo. Em geral eu tenho a tendência a concordar com os dois lados: adoro, mas tenho plena consciência do quanto ele é meio chato mesmo. Em especial para o nosso paladar atual de filmes, onde eles podem até estar cada vez mais longos, mas raramente aproveitam seus momentos de silêncio, ou reflexão, a não ser que seja para explodir um prédio nas nossas cabeças no momento seguinte.

Kubrick é literalmente um cara de outra época e, se cinema for o seu negócio na vida, invariavelmente você vai ter que ver ALGUM filme dele. De todos, confesso que sou bem lugar comum na escolha do que assistir e posso até recomendar alguns (Laranja Mecânica, 2001: Uma Odisséia no Espaço, e Nascido Para Matar são os que eu vi e acho bons). Ainda assim é difícil dizer que você gosta do cara e comentar sobre os seus filmes sem parecer um completo esnobe… Mas essa é a sina do crítico de cinema (ou só da pessoa que curtia uma interpretaçãozinha de texto na escola).

O banho de sangue é um crítica à guerra do vietnã que culminou na chegada do homem a lua, que foi gravado pelo próprio Kubrick, mas na locação original porque ele era super perfeccionista e…

O Iluminado é sem sombra de dúvida um dos filmes mais pops do cara hoje em dia, por diversos motivos. Considerado uma obra-prima e um clássico do horror, o filme influenciou gerações com o seu tipo de horror psicológico, menos baseado no gore e nos sustões e mais na tensão criada pelo estilo, er, “paciente” de filmar cenas longas. Além, claro, de algumas imagens perturbadoras, muitas vezes fora do sentido do momento, mas que ainda assim deixam um ar de “que merda foi essa que eu acabei de ver?”. Para mim, é um dos filmes que mais me assustou em toda a minha vida! E olha que eu nem sou de assistir muito filme de terror, como eu havia falado antes aqui.

O filme é de 1980 e foi lançado em maio nos EUA, mas aqui no Brasil só chegou no fim do ano, em 25 de dezembro. Película perfeita para o natal, não é? Mas eu como só iria nascer um ano depois, obviamente perdi a exibição. Acabei vendo o filme pela primeira vez lá pelos meus 16 (ou 17 anos) na casa de amigos, à noite. Fui voto vencido (porque morro de medo) e tive que aturar os mais tenso 144 minutos da minha vida! O pior mesmo foi ter que voltar para casa depois, pegando ônibus em rua deserta, quase de madrugada, com medo de um ladrão e da velha pelada e perebenta me atacarem no meio da rua. Jurei para mim mesmo que eu nunca mais veria este filme de novo!

Mas claro que eu quebrei a promessa.

Outras três vezes. Afe.

Que merda é essa que eu acabei de ver?

Here’s Johnny!

Reza a lenda que Kubrick sempre teve vontade de dirigir um filme de terror. Após o seu maior fracasso Barry Lyndon (1975), ele resolveu colocar essa vontade para jogo e foi atrás de uma boa história para contar. De acordo com a biografia do diretor de 1997, ele pediu à sua equipe que arranjassem pilhas de livros de terror para que ele pudesse ler. Sua secretária ouvia constantemente os baques que os livros faziam na parede ao serem arremessados sem dó por Kubrick, após ler algumas páginas e se desinteressar. Um dia, ela estranhou não ter ouvido nenhum baque na parede e entrou na sala para ver o que tinha acontecido e percebeu que o diretor estava super interessado em O Iluminado (1977), de Stephen King!

King ainda chegou a escrever um rascunho do roteiro e enviou para Kubrick, que ignorou solenemente. Para ele, a escrita de King era “fraca” e então acabou convidando a escritora Diane Johnson para co-escrever o roteiro com ele, já que era fã de um dos livros dela. No fim, talvez nem a própria equipe saiba o quanto deste roteiro foi aproveitado, já que é notória a quantidade de problemas pelo qual a produção passou na época, muita coisa devida ao perfeccionismo quase obsceno de Stanley Kubrick. O roteiro era re-escrito quase que diariamente, algo que deixava os atores muito irritados. Além disso, várias cenas foram cortadas, o que mudava significativamente alguns dos principais plot points do filme, deixando a co-roteirista e o próprio criador do livro também muito irritados.

12 horas de choro, 7 dias por semana, 4 semanas por mês, por 9 meses. O rio de sangue provavelmente foi enchido com as lágrimas dela.

Mas nada se compara ao tratamento do diretor à Shelley Duvall. Aparentemente para deixar o isolamento “mais real”, Kubrick intencionalmente solicitou à produção que deixassem a atriz completamente isolada, por vezes ignorando-a. As brigas entre os dois eram constantes sobre marcações e deixas perdidas que enlouqueceriam qualquer um. Kubrick exigia tanto dos atores (e mais dela em geral, já que ele colaborava e conversava constantemente com Nicholson sobre o seu personagem), que a cena em que a atriz dá na cabeça de Jack com um bastão de baseball teve 127 tomadas diferentes! Entrou até para o livro dos recordes. Ao final de tanto gaslighting com a atriz, ela estava tão acabada de chorar e exausta, que foi mostrar às pessoas que o seu cabelo estava caindo de tanto estresse!

Em uma entrevista com o crítico de cinema Roger Ebert, Shelley Duvall disse:

“O personagem de Jack Nicholson tinha que estar louco de bravo o tempo inteiro. E quando eu estava no meu personagem, eu tinha que chorar 12 horas por dia, o dia todo, por nove meses direto, uns cinco ou seis dias por semana. Fiquei lá por 13 meses e deve valer de algo para terapia primal (obs. uma forma de psicoterapia que argumenta que a neurose é causada pela dor reprimida de traumas na infância), porque no fim do dia, depois que eu chorei por 12 horas (…) Depois de todo esse trabalho, quase ninguém criticou a minha performance no filme, e parece que nem sequer mencionaram. As resenhas eram todas sobre o Kubrick, como se eu nem estivesse lá”.

O tratamento à atriz e à sua personagem também é um dos pontos que faz Stephen King desgostar do filme. Segundo ele, em uma entrevista para a Rolling Stone, “(o filme) é muito misógino! Digo, Wendy Torrance é colocada apenas como uma boneca de pano estridente”. Pelo que me consta, no livro a personagem é muito mais forte.

Já reparou que este é o mesmo tapete da casa do Syd, em “Toy Story 1”?

REDЯUM

Confesso que saber deste caso, me tirou o gosto do filme, no fim das contas. É meio escroto a gente admirar a genialidade de um artista só para descobrir anos depois que ele era de fato muito mais babaca do que aparentava. Mas enfim. Nem por isso o filme fica menos pior, acredito. Mas entendo quem não pretende mais vê-lo como uma forma de protesto.

O fato é que Kubrick era incrivelmente metódico. Coisa que TOC, praticamente. E seus filmes são sempre muito bem pensados até os últimos detalhes, seja na composição de cenas, na escolha de trilha sonora, no simbolismo de uma cor, de uma roupa, de um objeto, ou mesmo de um número. E como O Iluminado é basicamente sobre a decadência de um homem para a loucura (seja por aspectos naturais, ou sobrenaturais, como o filme sugere), ele é repleto de simbolismos que muitas pessoas interpretam como querem, na verdade.

Um labirinto de referências.

Por isso desenvolveu-se uma série de teorias conspiratórias que pretendem explicar o filme sob uma ótica específica. Uma delas diz que o filme é sobre o lançamento da Apollo 11 e o fato de que Kubrick filmou a descida à lua para a NASA. Ou ainda que é sobre a relação entre os EUA e os povos nativo-americanos, já que o Hotel Overlook foi construído em cima de um cemitério indígena. Ou que é sobre o Holocausto, ou então que o hotel é o inferno (e Jack é o demo), ou que é sobre os Illuminati, enfim… escolha qual você preferir. Tem até um documentário sobre estas diversas teorias, chamado Quarto 237, vale a pena assistir!

A minha teoria preferida eu vi no twitter recentemente e diz que O Iluminado é sobre Mídia & Televisão. Achei bem curioso, hehe.

Fora isso, tem outros zilhões de coisas que podemos elaborar sobre o filme e em como ele é construído para nos enervar e aumentar a tensão. Desde a música até o próprio mapa do hotel, que é criado para parecer um labirinto e desorientar o público. Somando isso ao uso da então recente tecnologia do steadicam, ele conseguiu fazer todo mundo ficar em pânico só de olhar um gurizinho pedalando o seu velotrol pelos corredores de um hotel. 

E não vamos esquecer da velha perebenta.

Morro de medo dela até hoje!

Tô LendoPontos Fortes
  • Icônico. Cenas memoráveis, bem construídas. Não à toa que é super parodiado até hoje. 
  • Pavoroso. Um tipo de terror que fugia do lugar-comum dos filmes do mesmo tipo na época. Inspirou toda uma geração de cineastas que experimentariam com o gênero anos depois, graças a ele.
  • Jack Nicholson. Fazer o quê? O cara é bom! Pena que o Stephen King não ache que ele tenha sido uma boa escolha, porque a história do personagem é um homem comum que fica louco aos poucos e o Jack Nicholson já parecia (parece?) maluco logo de cara!
Tô LendoPontos Meh
  • Lento. O filme aproveita bem suas duas horas e quarenta de duração, mas aproveita bem mesmo! E para o público de hoje pode parecer meio entediante. Só assista se estiver muito no pique e com tempo de sobra! A “geração netflix” precisa aprender a ter foco, viu?
  • Fidelidade. Não li o livro, mas a grande reclamação de amigos que leram é de que o filme não tem absolutamente nada a ver com ele. Que o filme é mais sobre o Danny e sua ligação com o sobrenatural e como o Hotel é praticamente uma criatura viva graças aos eventos que ocorreram e as energias maléficas que ali residem (alguém lembra de The Grudge, O Grito? É quase isso).
  • Final. Comentam comigo que o Stephen King não sabe escrever finais. Mas até aí, o Kubrick também não. Ambos aparentemente tem finais meio frustrantes que explicam pouca coisa e deixam muito a desejar.

Let it go.

Sobre os finais. Uma amiga minha teorizou há muito tempo que os filmes do Kubrick tem “finais quicantes” e eu achei uma analogia muito boa. É como se você pegasse uma bola e a jogasse com força no chão. Ela iria quicar e subir alto. Quicaria de novo e subiria de novo, mas menos alto. Quicaria mais uma vez e subiria menos alto, e assim sucessivamente, até parar de quicar e rolar. Alguns filmes do Kubrick parecem seguir a mesma linha e quando você acha que está acabando, o final quica e você acompanha mais um acontecimento… aí você acha que está acabando de novo, o final quica mais uma vez e você assiste mais um pouquinho, etc. etc. Alguns filmes sofrem muito desse mal, outros menos, mas Iluminado com certeza tem umas três chances de final de filme que se estendem até o final real mesmo.

Só curiosidade jogada fora. 

E você? Ama Kubrick? Odeia Kubrick? Diz Kubrick te amo demais? Me conta aí nos comentários!

O Iluminado (1980) vale quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-11-05T00:20:21+00:00 4 de novembro de 2019|0 Comentários