Rebobinando #103 | O Exterminador do Futuro 2

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Em quatro de agosto de 1997 o mundo iria acabar. Uma rede de computadores com inteligência artificial iria acordar e perceber que a humanidade não é mais necessária, lançando assim um ataque às grandes nações do mundo. Como estamos aqui, então? Vamos rebobinar O Exterminador do Futuro 2 e descobrir!

Bang Bang! My hasta la vista baby shot me down!

Como prometido, ele estava de volta. O ano era 1991 e o mês era agosto (no Brasil, porque nos EUA, o filme estreou um mês antes) e os cinemas estavam em polvorosa com a estreia de O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (argh, quem deu esse nome? Por que não “o juízo final”?). A sequência de O Exterminador do Futuro (1984) finalmente chegava às salas de cinema e arrebentou com a bilheteria no mundo todo. Eu, claramente, não tinha idade ainda para ver o filme e nem tinha visto o primeiro ainda, aos nove anos eu só ia ao cinema com a minha mãe e dificilmente ela me levaria para ver um filme com censura 18 anos (ou 16, não lembro bem). 

Acabei tendo a chance de ver o filme alguns anos depois, com a ajuda das extintas locadoras de vídeo (sdds) e obviamente fora de ordem, primeiro vi o 2 e depois o 1. Mas sinceramente? Graças ao talento do diretor e roteirista James Cameron, não fez muita diferença. Os dois filmes são bem amarrados independentemente um do outro, mesmo se você levar em consideração que um é uma sequência do outro. Hoje em dia, com o nosso maior nível de tolerância para a violência gráfica num filme, chega até a ser meio risível que este filme tenha ganhado uma censura tão alta. Eu mesmo acabei vendo por volta dos 12 ou 13 anos junto com meus amigos do colégio e, cara, não tinha coisa mais legal na época do que ver todas as cenas de ação dele ao som de Guns’n’Roses!

I’ll be back!

Sem sacanagem, eu considero T2 um dos (quiçá “O”) maiores filmes de ação de Hollywood. Ele sobrevive fácil ao teste do tempo, coisa que talvez o primeiro não o faça, mas puramente em questão de efeitos. A sequência foi inovadora não só em termos de roteiro, como também em como estruturar uma continuação que utilize os mesmo elementos, mas de uma maneira completamente diferente. Além disso,claro, temos todo o avanço tecnológico usado para a criação de um dos vilões mais implacáveis e incansáveis da história do cinema, o T-1000, interpretado por Robert Patrick. Não à toa o filme ganhou quatro oscars, todos eles por efeitos técnicos, entre eles melhor maquiagem, melhor som e melhores efeitos visuais, em parte por conta da equipe de efeitos e maquiagem de Stan Winston (os mesmos que revolucionariam o cinema novamente três anos depois com os dinossauros de Jurassic Park). O curioso é que de todo o tempo de filme, se juntarmos os efeitos digitais do T-1000, eles não dão nem cinco minutos direito.

James Cameron era um cineasta relativamente novo e é quase impossível de acreditar que ele foi um cara que aprendeu tudo sobre cinema de maneira autodidata, indo em bibliotecas e fazendo experimentos com amigos para a produção de filmes. Na época ele contava apenas com quatro filmes no currículo: Piranha II: Assassinas Voadoras (1982), O Exterminador do Futuro (1984), Aliens, o Resgate (1986), e O Segredo do Abismo (1989). Com exceção do primeiro filme, todos os outros foram sucesso de crítica e público. Em geral, o diretor se refere a T1 como o seu primeiro filme, obviamente, mas a gente não liga, todo mundo faz alguma coisa tosca em início de carreira mesmo e dificilmente um filme sobre “piranhas voadoras” vai ser algo bom no currículo de qualquer um! 

Nananinanão.

O lance é que Cameron é um cara que curte botar a mão na massa e, mesmo se desconsiderarmos o filme das piranhas, ele ainda conseguiu emplacar um filme autoral de ficção científica como sua primeira grande estreia no dificílimo mercado de Hollywood. Depois disso emplacou uma sequência que redefiniu o gênero de um filme cult de muito sucesso dirigido por ninguém menos do Ridley Scott! E ainda criou uma nova câmera para filmar em profundidade e ajudou a avançar os efeitos digitais no cinema com seus seres feitos de água em O Segredo do Abismo. Quer dizer, já dá para sentir que ele não veio nesse mundo à toa, né? Diga o que quiser de Avatar, ou mesmo Titanic, esse cara sabe como levar muita gente ao cinema!

Separados no nascimento.

Hasta La Vista, Baby!

Em T2 não foi muito diferente. Se repararmos, tanto o primeiro quanto o segundo filmes tem seus paralelos com os dois primeiros filmes dos alienígenas xenomorfos. Tipo, o #1 é um filme de horror, basicamente; e o #2 é um filme de ação. Ainda assim, as similaridades param por aí. Muita gente adora comparar Ripley e Sarah Connor dizendo que são basicamente as mesmas personagens, mas mesmo que tenham sido escritas e dirigidas pelo mesmo cara, há diferenças fundamentais entre as duas. Onde a primeira assume uma posição de liderança que lhe parece natural, por exemplo, a segunda carrega consigo um peso do destino do mundo nas costas que ela simplesmente nunca quis. Enquanto Ripley tem um lado materno que aflora e a carrega durante o segundo filme da série Alien, Sarah buscou tanto preparar seu filho John para o futuro que “esqueceu” como ser uma mãe. Enfim. Dá para perder horas nisso.

Lembro que recentemente houve uma singela discussão entre os amigos do Caruso por aqui, sobre quem é o verdadeiro protagonista de T2: a Sarah, o John, ou o T-800? E segundo o próprio James Cameron em entrevista para o pai do roteiro cinematográfico Syd Field, são ambos a mãe e o ciborgue do futuro:

“(…) Nós não sabíamos o que fazer com o Exterminador. Por um tempo pensamos em usar dois Exterminadores, tipo, dois Arnolds, mas pareceu ser muito complicado, então deixamos para lá. Então tivemos uma ideia “do nada” um dia; porque não usar o Exterminador reprogramado para ser um bom Exterminador? Dava para brincar bastante com essa ideia. Queríamos que ele mudasse, e queríamos que a Sarah mudasse também; Ela começa o filme de um jeito, fica assim por um tempo, e meio que se torna mais máquina do que ele. Queríamos que os dois mudassem de personagem conforme o filme avançasse: ela se torna a Exterminadora e ele se torna um ser humano. E é durante essa transformação do Exterminador que ela entende o que é de ser um humano de verdade.”

Meio humano. Meio máquina. Sem cebola. E uma coca 2L por favor.

E do ponto de vista de roteiro, este filme também é consideravelmente inovador! Não só ele brinca com os mesmo elementos do filme anterior, mas transforma o gênero de uma maneira que não só parece continuar a história, mas ser inédito ao mesmo tempo. Diferente de outras continuações da época, ou mesmo as cópias safadas de Duro de Matar, O Exterminador do Futuro 2 avança a história para um outro nível e surpreende todo mundo! 

Como visto acima, a ideia de usar o Exterminador como uma força do bem desta vez veio quase no susto. Conhecíamos o ciborgue apenas como uma máquina de matar perfeita, sem remorso, sem sentimentos, e irrefreável. Ao fim do primeiro filme ela é destruída e a Skynet, de alguma forma, descobre que seu plano de alterar o passado não deu certo. Ela envia então novamente um novo Exterminador, desta vez um modelo mais mortífero, experimental: O T-1000. Só que agora o alvo é o próprio John Connor, mas ainda criança. Assim sendo, o próprio John consegue enviar ao passado um modelo reprogramado do Exterminador original, para protegê-lo. Com todas as peças no tabuleiro, o filme começa e isso em pouquíssimos minutos de tela. Tudo para arrancar o fôlego do público com as perseguições e efeitos visuais.

Linda Hamilton foi a Bela no seriado policial “A Bela e a Fera”. Em T2 ela foi a fera!

No fim, T2 acaba sendo sobre como encontrar sua própria humanidade e não matar ninguém, por incrível que pareça. Ambos os personagens principais da história, Sarah e o T-800, mudam através de suas interações com o pequeno John Connor. E o mais incrível é que nenhuma cena é desperdiçada, todas elas servem para avançar o plot do filme de uma maneira ou de outra e, de acordo com o próprio James Cameron de novo: 

“Então eu comecei a me perguntar ‘o que é que nos faz humanos?’ E parte do que nos torna humanos é o nosso código moral. (…) John Connor sabe o que é certo de forma quase intuitiva, mas não sabe se articular bem. John diz, ‘Você não pode sair por aí matando gente’, e o Exterminador responde ‘Por que não?’. E o garoto não sabe responder à pergunta. Ele cai numa espécie de dúvida ética, filosófica, que pode se estender para sempre. Mas tudo o que ele consegue dizer é ‘Não pode e pronto’!

Pensei então que a melhor maneira de lidar com isso era não fugir do assunto e ficar esperando que ninguém perceba o problema. Caí de cabeça e resolvi escrever uma história sobre como não dá pra sair por aí matando gente! No fundo, você tem um personagem que é a mais perfeita máquina de matar; este é o propósito da vida dele. Sem emoção, sem remorso, sem nenhum tipo de código social, e que de repente se vê diante do dilema mais surreal da sua carreira. Ele não pode mais matar ninguém, e não sabe o porquê. E ele tem que descobrir. Ele precisa, porque ele é parte humano. E no fim do filme, ele descobre. O ‘Homem-de-Lata’ achou o seu coração.

Assim que eu entendi isso, eu entendi sobre o que seria o filme.”

Eu gostaria de colocar toda a entrevista do Syd Field com o James Cameron aqui, mas infelizmente não dá. Você pode ir aqui no link (só em inglês, sorry) e dar uma lida lá, e depois reassistir o filme com outros olhos. Vai ser bem bacana.

O robô com fogo nuzóio!

Tô LendoPontos Fortes
  • Roteiro. Aulinha de roteiro básica. Tipo Procurando Nemo. Se você curte escrever e ler sobre personagens, estruturas, etc. Vale bem a pena ler sobre o assunto e rever o filme.
  • Personagens. Personagens carismáticos a dar com o pau! Sarah Connor, T-800, o jovem John Connor, o T-1000… enfim, não à toa o filme foi referenciado à exaustão, de tão memorável que é.
  • Ação. Algumas das melhores cenas de ação do cinema, de uma época onde a maioria dela era feita com efeitos práticos e não digitais. ELES USAM E DERRUBAM UM HELICÓPTERO DE VERDADE EM UMA RODODVIA! JOGAM UM CAMINHÃO NO MEIO DE UM CANAL! É mucho loco pensar que a maioria dessas cenas seriam todas feitas com um computador hoje em dia.
Tô LendoPontos Meh
  • Continuações. Eu costumo dizer que a franquia do Exterminador do Futuro só tem um filme realmente muito bom, que é este. Acho o primeiro ok, mas como eu assisti “retroativamente” quando era garoto, ele ficou parecendo muito mais “paradão” e meio chato. Nunca revi, para ser sincero, mas vi algumas das continuações e… err… bom… não é à toa também que o novo T6 resolveu ignorar solenemente todos esses filmes depois de T2 e considerá-los uma linha do tempo alternativa.

Edward Furlong é a prova de que toda criança bonita vira um adulto esquisito.

O Exterminador do Futuro 2 é um filmão que eu amo de paixão e tem um bocado de cenas memoráveis que fazem dele o material certo para ser referenciado eternamente em outros filmes. Desde o “I’ll be back” até o “Hasta la vista, baby”, ele certamente marcou muito adolescente e pré-adolescente nos anos 90! Não só pela moda, o visual de motoqueiro e a jaqueta do Arnold, como também pela música, como vimos no início da coluna! Tomara que pelo menos o filme mais recente, O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio, resgate um pouco dessa memória nostálgica que a gente guarda. Pelo menos o Cameron tá de volta (mas só como produtor), então pode ser que seja um avanço.

Mãe do ano, 1991.

E você? Também curte T2? Tem alguma cena que você nunca mais esqueceu? Acha T1 um filme melhor? Quer me bater? Entra aí nos comentários para a gente bater um papo bacana! Não esqueça que na semana que vem….

eu voltarei!

(argh, desculpa, não resisti)

O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-10-28T21:19:19+00:00 28 de outubro de 2019|0 Comentários