Rebobinando #102 | Watchmen

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“Quis custodiet ipsos custodes?” Ou em português claro, “quem vigia os vigilantes?”. Sim, sem mais delongas, a rebobinando de hoje tarda, mas não falha. Vamos falar do maior clássico das histórias em quadrinhos (fight me!): Watchmen!

Espelhamentos e simbolismos. A primeira e a última páginas da primeira edição têm os mesmos planos.

Como começar a falar sobre Watchmen? O que dizer? O que não dizer? Tarefa difícil, mas vamos lá. Começando pelo óbvio, a série foi lançada em 12 edições pela DC Comics lá em 1986, originalmente nos EUA. Aqui no Brasil, ela chegou dois anos depois, no finzinho de 1988, e sendo publicada em seis edições pela Editora Abril Jovem. A aclamada minissérie foi escrita pelo mago e maluco de plantão Alan Moore e desenhada pelo habilidoso Dave Gibbons. Já foi lançada e relançada várias vezes desde então, em coletâneas, encadernados e é, talvez, um dos gibis mais vendidos no mundo. Ganhou inúmeros prêmios, adaptações para o cinema, para a televisão, e serve de influência até hoje para qualquer artista que atue no meio de quadrinhos de super-herói. A mini conta a história de um grupo de super-heróis em um mundo estranhamente familiar ao nosso, praticamente “real”, que se juntam para desvendar um crime: o assassinato misterioso de um de seus ex-companheiros.

Parece simples. Mas é muito mais do que isso!

A capa de cada edição é um portal que abre direto para o primeiro quadro da história…

Coloca um SMILEY no seu rosto 😊

Em 1983, a DC Comics comprou um grupo de personagens da Charlton Comics. A Charlton era uma editora menor que também publicava histórias de super-heróis na mesma época dos grandes sucessos da Marvel e da DC. Quem fazia parte do segmento de super-heróis da editora eram figuras como Dick Giordano, que trabalhou como editor-chefe e ninguém menos do que o pai do Homem-Aranha, Steve Ditko. Das mãos de Ditko saíram alguns dos personagens que serviriam de inspiração para os personagens de Watchmen como o Questão, o novo Besouro Azul e o próprio Capitão Átomo. Foi o próprio Giordano, inclusive, que organizou a compra destes personagens em 1983 quando era o editor-chefe da DC.

Foi nesse período mais ou menos que Moore chegou na DC. Há pouco ele havia combinado de terminar outra de suas obras, V de Vingança, mas já contava com o seu crédito de reformulação do Miracleman para emendar em outros trabalhos com a editora. Foi assim que ele propôs uma história chamada “Quem matou o Pacificador?” (“Who Killed the Peacemaker?”) para o editor Dick Giordano. Seu plano inicial era utilizar os personagens recém adquiridos da Charlton Comics numa trama que envolvia um assassinato misterioso que “chocaria e surpreenderia os leitores quando eles descobrissem a realidade por trás destes personagens” (sempre que eu leio uma citação do Moore eu PRECISO fazer aquela voz cavernosa que ele tem, porque soa tudo muito mais sinistro e bacana, experimenta).

Num ambiente “real” essa reunião não parece menos ridícula do que a reunião de cosplayers…

Giordano, claro, não curtiu muito a ideia de usar personagens que lhe eram tão caros e uma trama tão chocante. A DC não queria que os heróis recém-adquiridos terminassem uma história estando completamente disfuncionais ou mortos. O “ok” para a produção da minissérie, no entanto, foi dado a Moore com a condição de que ele criasse novos personagens para usar na trama. Inicialmente a ideia não agradou o escritor porque ele sentia que personagens novos talvez não tivessem o mesmo peso para a história que ele queria contar, mas aos poucos foi mudando de ideia, quando percebeu que se escrevesse estes novos heróis de uma maneira que soasse familiar aos leitores, utilizando conceitos genéricos que trouxessem uma certa carga de nostalgia, talvez a ideia funcionasse. E quem foi providencial na ajuda para a criação destes “vigilantes substitutos” foi o desenhista Dave Gibbons.

Gibbons havia acabado de trabalhar com Moore em uma história do Super-Homem, em Superman Annual #11. A históira? “Para o Homem que tem Tudo” (“For the Man Who Has Everything”, 1985), outro clássico. Enfim, Gibbons estava seco para trabalhar com Moore de novo e, quando ficou sabendo do novo projeto, deu um jeito de falar com os editores responsáveis, Dick Giordano e Len Wein, e conseguiu! Com os dois juntos no projeto,foi questão de tempo para que Watchmen começasse a tomar forma.

Os dois se encontraram pessoalmente e começaram a trocar figurinhas sobre como tudo seria planejado e tiveram como influência, por incrível que pareça, uma paródia da Revista Mad para o Super-Homem. O plano de Moore era fazer o mesmo que a paródia, brincar com os conceitos dos super-heróis, mas de uma forma mais densa, mais dramática, sem comédia. Moore queria que a minissérie tivesse o mesmo peso que Moby Dick. Eles discutiram o aspecto geral dos novos personagens, mas o visual final ficou completamente a cargo de Gibbons. E assim Watchmen começou a ganhar corpo.

A paródia da MAD e a desconstrução bem-humorada vs a desconstrução deprê do Moore.

O Teste do Borrão de Tinta

Alan Moore é conhecido por desprezar toda e qualquer adaptação de suas obras. Ainda mais se considerarmos que ele pretendia explorar com Watchmen áreas em que os quadrinhos são melhores do que os outros meios de comunicação, em particular o cinema. Há toda uma forma de se criar, de se montar, de se enquadrar uma página de quadrinhos que, convenhamos ajudam a contar uma história de forma que ninguém mais pode. Se ficar complicado de entender, podemos inclusive ir atrás da obra de um dos maiores desafetos de Moore, Grant Morrison e sua edição de Multiversity: Pax Americana (2014). Nela, o Capitão Átomo tem uma atitude muito parecida ao Doutor Manhattan e explica que consegue ver o tempo assim como nós podemos ver uma história em quadrinhos. Nós podemos ir para frente, ou para trás, ver o que acontece simultaneamente com os personagens em uma página, mas incapazes de mudar o que acontece com eles. 

Moore é um perfeccionista de marca maior e, se virmos como ele entregava o roteiro/argumento da história para Gibbons desenhar, podemos perceber como grande parte do trabalho de como contar essa história é só dele. Sem claro, desmerecer a parte do trabalho do desenhista. Mas foi um trabalho tão árduo e tão metódico, que Dave Gibbons comentou que ele chegou a receber 100 páginas de roteiro só para uma das edições. E eram 100 páginas inteiras, com espaçamento simples, sem parágrafo, sem indicação de mudança de página. Só descrições completas, quadro a quadro. Imagina o pesadelo? Gibbons precisava numerar todas as páginas assim que as recebia só para não se perder, e ainda usava iluminadores para destacar as partes mais importantes dos detalhes que precisava adicionar (eu disse que não queria desmerecer o trabalho dele).

Essa página do script é a descrição DO PRIMEIRO QUADRO DA HQ.

Além disso, Watchmen não poderia se parecer com qualquer gibi que estivesse saindo na época. A própria proposta da minissérie era um “novo olhar” sobre este universo. Então Gibbons escolheu trabalhar de uma forma muito mais “contida”, sem a fluidez quase obrigatória para um gibi de super-herói. Ele montou páginas em geral com nove quadros, e adaptou o seu estilo para um desenho mais “duro”, mais próximo do mundo real. Em conjunto com as cores de John Higgins o trabalho ganhou todo um novo aspecto mais sombrio, já que o colorista escolheu usar uma paleta de cores mais próxima dos quadrinhos europeus, com cores mais “apagadas”, prestando bastante atenção às mudanças sutis da história.

Segundo Moore, Watchmen é uma história para ser lida quatro ou cinco vezes. Não é um gibi simples o qual você compra e entende tudo em vinte minutos de leitura. É uma obra para ser revisitada várias vezes e, a cada vez, notando algo diferente. Gibbons disse em entrevista uma vez que 

“Conforme fomos progredindo, Watchmen passou a ser mais sobre como contar a história do que sobre a história em si. O fio principal do enredo se baseia num McGuffin, num artifício… então a história não tem lá grandes consequências… de verdade, não é a coisa mais interessante em Watchmen. Mas o jeito que demos de contar a história? É aí que está toda a nossa criatividade.” 

A terrível simetria da edição #5. Veidt esconde a capsula de veneno no primeiro quadro da página da esquerda, e descobre a capsula no segundo da página seguinte. E assim por diante…

E de fato, a criatividade que os dois colocam nas páginas da minissérie é uma obra de arte à parte. Eu, particularmente, nunca tive a oportunidade de ler a história na época. E convenhamos, em 1988, aos seis anos de idade, eu nem teria a capacidade de compreender o que eu tinha em mãos. Só fui ler quando comprei um encadernado pouco tempo antes da estreia do filme do Zack Snyder em 2008. Mas admito que fiquei completamente embasbacado com o nível de detalhamento da obra. Vou deixar aqui só um exemplo que explodiu minha cabeça quando notei lá pela terceira lida: A edição #5, “Terrível Simetria” é completamente simétrica! Quadro a quadro, pela edição inteira, ela é completamente espelhada, não só visualmente, como tematicamente também. E quando você chega ao meio da edição, onde estariam os grampos da revista, ela tem um desenho muito fora do comum para a revista, com uma cena de ação de Ozymandias, igual a uma cena habitual de ação, com os personagens fazendo um “X” no meio da página.

É lindo de chorar. Chuif.

Eu amo essa edição #5.

Eu não sou um vilão de gibi

Em relação aos temas a HQ também não fica atrás na quantidade de trabalhos e interpretação. Como eu disse antes, os autores tiveram a ideia de desconstruir os heróis a partir de uma paródia da revista MAD, tudo isso entremeado com um enredo razoavelmente simples que envolvia um assassinato misterioso e uma trama conspiratória que tinha suas raízes em um episódio do seriado americano The Outer Limits. O seriado era uma espécie de Além da Imaginação (The Twilight Zone), mas com um foco maior nas histórias de ficção científica. 

O episódio em questão era um chamado “Arquitetos do Medo” (“Architects of Fear”) onde um grupo de cientistas planejam acabar com a guerra fria forjando uma invasão alienígena, e transformando um deles em um “alienígena” para descer na ONU proclamando planos de invasão. O final é bem diferente do final da HQ, e Moore disse que ficou surpreso ao saber que o episódio do seriado era tão parecido com o que ele havia planejado. Len Wein acabou saindo do projeto depois que o autor teimou em não mudar o final da história.

Te lembra uma certa LULA GIGANTE?

E, se pararmos para pensar, é meio impossível mudar o final mesmo. Não o fato da lula alienígena gigante explodir em NY (convenhamos, Snyder mudou esta parte da história e foi até um avanço pro plot colocar a culpa no Dr. Manhattan), mas o fato de “criar um inimigo em comum que una países adversários” é um ponto central da trama. Além da desconstrução dos heróis, o fundo político é bem evidente.

Moore já havia trabalhado anos antes com a ideia de um país autoritário em V de Vingança, e aqui ele muda o foco um pouco, mas continua criticando as figuras de poder. Em especial a política do antigo presidente americano Ronald Reagan e da ex-primeira-ministra britânica Margaret Tatcher. No mundo alternativo de Watchmen, no entanto, estas figuras de poder supremo são os heróis e a sua presença no mundo alterou tanto o status quo que surgiram algumas diferenças significativas para o nosso mundo. Em Watchmen, Nixon ainda é presidente. Os carros são elétricos. Os gibis não são mais de super-heróis, trazendo a tona novos gêneros, como os gibis de piratas. 

“Os Contos da Fragata Negra”, a história dentro da história, encontra paralelos com as jornadas de Adrian Veidt e do Rorshach.

Um dos pontos altos, no entanto, é a dita desconstrução do gênero. Moore adora experimentar e para ele não há lugar melhor para experimentação do que os quadrinhos. Nos anos 80, os gibis de super-heróis já estavam aí havia uns 30-e-muitos anos (talvez quarenta, se considerarmos os mais antigões), mas a indústria como conhecemos e os personagens da Marvel e da DC já existiam há uns bons 20 anos no mínimos. E como o gênero é fantasioso por si só (afinal de contas, eles foram criados para entreter crianças), o mais revolucionário que você poderia ser com eles na época é trazê-los para o “mundo real”. Despir por completo a fantasia que os cerca e vê-los como o que talvez seriam se existissem de verdade: pessoas com sérios problemas comportamentais.

Rorschach e o Comediante são o exemplo mais óbvio para exemplificar como uma vida de violência e combate ao crime traz consequências praticamente irreversíveis para uma pessoa. Ambos demonstram a mais pura falta de consideração pela vida humana e carregam consigo um código moral completamente deturpado. O Coruja e a Espectral ambos vivendo na sombra de heróis que vieram antes deles, reprimidos, deixados de lado pela vida, só encontrando o conforto diante da adrenalina que seus alter-egos proporcionam. E o Dr. Manhattan e Ozymandias, dois caras completamente distanciados da humanidade, pelo poder que possuem. Um pelo dinheiro e o outro pelos, bom, superpoderes inexplicáveis. Ozymandias, guiado pelo seu complexo de messias, causa um dos maiores genocídios do mundo em nome de um ideal de paz, e o Dr. Manhattan, agora um deus, abandona a humanidade para criar vida em outro lugar.

Você olha para dentro do abismo, e o abismo olha para dentro de você…

O poder absoluto corrompe absolutamente

A crítica de Watchmen parece cada vez mais relevante, ainda mais hoje em dia. Há um estudo que diz que o smiley (uma carinha sorrindo com dois pontos e um traço) é o design mais simples no mundo que consegue arrancar uma resposta de um bebê. Isso diz muita coisa sobre nós mesmos como seres humanos e seres capazes de interpretar sinais. Moore e Gibbons usam a alegoria do smiley por toda a HQ, em especial o botton do Comediante sujo de sangue, simbolizando toda a inocência dos nossos quadrinhos de super-heróis manchados pelo sangue da realidade que ele traz na história.

Watchmen é, por conceito, aberto a muitas interpretações. No entanto, recentemente, ao escrever sobre a Piada Mortal, eu descobri que, ó, Alan Moore não parece muito feliz com o que resultou de sua obra-prima. Segundo ele:

“Foi decepcionante para mim como Watchmen foi absorvido pela cultura geral. Originalmente, eu quis que ela fosse uma sugestão do que as pessoas poderiam fazer de novo. No início eu pensei que com trabalhos como Watchmen e Marvelman, eu poderia dizer pros outros ‘olha, dá pra fazer isso aqui com estes conceitos velhos e ultrapassados. Você pode virá-los de ponta-cabeça. Você pode acordá-los de verdade. Não limite suas ideias. Use a imaginação’. E, inocentemente, eu pensei que haveria um surto de trabalhos novos e originais, de artistas criando suas próprias obras. Ao invés disso, tudo virou esta pedra enorme no meio do caminho dos quadrinhos e ninguém consegue mais passar dela até hoje. Eles perderam sua inocência original, e não dá mais recuperar. E parece que os quadrinhos ficaram presos nesse gueto de escuridão e psicose. Não tenho muito orgulho de ser o autor desta moda lamentável.”

Ora, mas vejam, só. Alan Moore se arrepende de algo que fez nos quadrinhos… que novidade.

Sorria! Alan Moore literalmente destruiu sua infância e foi lindo!

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Dave Gibbons é sensacional. E mesmo com os roteiros super detalhados do Moore, você ainda consegue encontrar curiosidades e segredos que ele pôs por conta própria. Cada leitura, uma descoberta.
  • Roteiro. Trama simples, é verdade. Mas a minissérie é tão rica em detalhes que você se perde lendo, e relendo, e relendo. Vale a pena ter em casa e guardar para sempre. 
  • Aula. A HQ é uma aula de histórias em Quadrinhos. Aula em geopolítica. Aula de interpretação de texto. Pode procurar por qualquer review na Internet e te garanto que os bons tem, no mínimo, o dobro da minha humilde resenha aqui.
Tô LendoPontos Meh
  • Texto. Alguns pontos do texto tem tanto subtexto que pode ser difícil de ler? Sim, mas vale o esforço. 
  • Preço. Não catei muito, mas as edições definitivas repletas de entrevistas e comentários, etc. Valem muito a pena, mas custam um rim. Mas dá pra achar versões mais em conta. 
  • Continuações. Acho desnecessárias. Para mim a obra é completa em si mesma, sem necessidade de nenhum follow-up. Mas dizem por aí que “Doomsday Clock” é maneiro, e que o seriado novo promete… Mas não posso opinar.

Pois bem. Arrisco dizer que isso ainda não é tudo que eu posso falar e que podemos discutir sobre Watchmen. Talvez eu até faça uma Rebobinando Parte 2 sobre a minissérie no futuro. Ou se você quiser podemos marcar um bar e discutir como os pontos de vista do Rorschach são perigosamente de extrema direita, ou ainda que o distanciamento do Dr. Manhattan é completamente justificado tendo em vista o nosso distanciamento com os personagens de gibi. Ou ainda como Os Incríveis é uma versão kid-friendly da trama de fundo da HQ, com super-heróis banidos e os acidentes com capas. 

Se você chegou até aqui, imagino que curta a obra, então vou perguntar: o que só você viu em Watchmen? Está ansioso pela série da HBO? Alan Moore é um gênio, ou só um mendigo bêbado que deu certo nos quadrinhos por acidente? Eu estou preso com vocês, OU SÃO VOCÊS QUE ESTÃO PRESOS AQUI COMIGO? 

Watchmen vale certamente cinco smileyzinhos! 🙂🙂🙂🙂🙂

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-10-22T00:00:57+00:00 22 de outubro de 2019|0 Comentários