Rebobinando #101 | Creepshow 2

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Existia um filão no Brasil no fim dos anos 80, início dos 90, onde toda sexta-feira passavam-se filmes de terror em algum lugar. Da Bandeirantes ao SBT as opções eram muitas e nós, crianças impressionáveis que éramos, ficávamos acordados até altas horas esperando para morrer de medo e não dormir mais por uma semana. Foi nessa onda que eu, do alto dos meus 10 anos (ou algo próximo disso), seja lá porque motivo, acabei assistindo com os meus pais um filme que me atormentou por noites a fio! Vamos rebobinar Creepshow 2: Show de Horrores!

RÁ! GLU-GLU! PEGADINHA DO CREEPER!

Já vou deixar bem claro aqui que eu não suporto filme de terror. Detesto mesmo, morro de medo, isso com certeza é mais da área do Daniel Gárgula aqui na Caverna, mas ainda assim não quer dizer que eu não me arrisque de vez em quando no gênero (para me arrepender solenemente depois). Foi desse jeito eu que acabei assistindo Ringu (a versão original japonesa de O Chamado) e fiquei sem coragem de olhar para os chuviscos de uma tv por semanas. Foi assim também que eu acabei assistindo O Iluminado do Kubrick e, na boa, ainda não me recuperei. Depois de velho assisti a maioria dos filmes de terror de assassino, como Hora do Pesadelo, Jason, Pânico e, bom, acabei achando a maioria engraçado. Mas poucas coisas me atormentaram tanto quanto este Creepshow 2 e, claro, o Michael Jackson virando lobisomem na estréia de Thriller no Fantástico.

Olhando em retrospecto, não entendo como os meus pais assistiram este tipo de filme comigo em casa, mas lembro claramente de ver com a família toda deitada na cama de casal deles e, enquanto eles riam da maioria das coisas e contestavam a inteligência de certos personagens, eu estava completamente aterrorizado com algumas das histórias. Esta coluna, no fim das contas, foi uma espécie de terapia hoje porque eu fui assistir alguns pedaços do filme no youtube e descobri que, bom, ele era bem fraquinho.

HORROR PULP

Creepshow 2 é uma sequência, obviamente, de Creepshow (1982), dãh. Não posso falar do segundo antes, sem pelo menos mencionar o primeiro, mesmo que eu não tenha visto. Os dois filmes funcionam como um “antologia de contos de horror” e não tem uma história única. Na verdade, a ideia nasceu dos quadrinhos antigos de horror e ficção pulps, como Tales from the Crypt e The Vault of Horror, entre outros. Isso é bem notório nos dois filmes, aliás, já que passamos de conto em conto com uma pequena introdução em animação tradicional, como se estivéssemos lendo uma história em quadrinhos de verdade.

O primeiro filme é composto de cinco contos, dois dos quais foram adaptados de contos do próprio mestre do terror, Stephen King. King foi também responsável pelo roteiro fazendo com que o filme ganhasse uma certa aclamação mais pelas suas referências e o esmero e o humor com que o diretor, o outro mestre do terror, George Romero teve durante sua produção. Apesar de alguns dos contos não serem muito bons, aparentemente, tudo é feito com tanta paixão que é impossível não gostar (segundo dizem, porque como eu disse, eu não vi, minha mulher não viu, nem meu filho ha-hae). Além disso, este filme original contava com um elenco de peso como Leslie Nielsen, Ed Harris e Ted Danson. Isso torna Creepshow 2 um tanto, er, frustrante no fim das contas. Porque com mãos como as de King no roteiro, e as de Romero na direção do primeiro, as expectativas para o segundo ficaram meio altas. 

“Olá, eu sou o Billy. Pareço fofinho, mas até o fim do filme eu mato quatro garotos com plantas carnívoras! Eu preciso de terapia!”

O SHOW DE HORRORES

Em comparação ao original, Creepshow 2 (1987), é bem mais fraco. Claro que aos 10 anos (mais ou menos) eu não sabia de nada disso e fiquei  COMPLETAMENTE APAVORADO. Enfim, o diretor não era mais o George Romero, que passou o bastão para o seu diretor de fotografia, Michael Gornik. Romero foi assinar o roteiro junto de King novamente e de Lucille Fletcher. Os contos foram reduzidos de cinco para três, o que deixou algumas histórias com um pouco mais de barriga, mesmo a película tendo 92 minutos no total. As histórias têm como pano de fundo um garoto fã de revistas de terror indo comprar uma edição de Creepshow direto na banca de jornal. Ele encontra o entregador de revistas chamado The Creeper que lhe dá um dos exemplares da revista. A partir daí tudo fica em desenho animado e somos apresentados à primeira história, virando filme novamente:

ALERTA DE SPOILERS

(para quem ainda não viu o filme)!

“Índio quer apito, escalpos e muito sangue! Hau!”

Old Chief Wood’nhead (O Velho Chefe Cabeça-de-Madeira)

Um casal de idosos trabalham em uma velha “general store” no meio de uma cidadezinha no interior dos EUA. É tipo um daqueles armazéns que têm de tudo, sabe? Na frente da loja existe um índio de madeira, algo tão habitual naquela época. O senhorzinho que vive e trabalha no armazém pinta o velho índio todos os dias e eles vivem uma vida pacata. Um chefe indígena que vive nas redondezas chega ao armazém e diz ao velho que não tem como pagar a conta em dinheiro e entrega em suas mãos algumas velhas jóias da tribo. Após muita relutância, o dono da loja aceita e todos seguem seu caminho.

Acontece que logo depois a loja é assaltada por três rapazes que acabam matando o casal de idosos e fugindo com as jóias. O que se segue depois é bem óbvio. O índio de madeira ganha vida e vai em busca de vingança… e de escalpos!

Antes do próximo conto nós vemos o mesmo menino do início indo até o correio para buscar um pacote. Ao ser perguntado pelo velho carteiro sobre o conteúdo de sua encomenda, o menino diz com uma certa empolgação sinistra que se trata de sementes de uma planta carnívora! O Creeper reaparece e apresenta o próximo conto do filme:

Nunca uma história tão boba me desgraçou tanto a cabeça.

The Raft (A Balsa)

Essa segunda história foi a que mais me desgraçou a cabeça na época, porque é de longe a mais tensa das três e, arrisco dizer, a melhor do filme inteiro. Conta história de quatro amigos, os típicos adolescentes arquétipos dos filmes de terror. A santinha, a desvairada, o grandalhão e o mocinho. O conto brinca um pouco com a ordem das mortes e tem um final um tanto irônico que é bem bacana também. Os quatro jovens vão para um lago em um local isolado começam a curtir, fumando, bebendo, dançando e se pegando. Ao começarem a nadar, um deles nota uma espécie de uma mancha de óleo meio distante e um pato se debatendo para sair, sem sucesso. O pato desaparece sob a água e o mocinho fica meio preocupado, pois a mancha parece se movimentar em sua direção. 

No meio do lago há uma balsa de madeira ancorada, onde os jovens buscam abrigo, mas um a um eles começam a ser devorados pela mancha de óleo, cada um de um jeito mais grotesco que o outro. Enquanto o último dos seus amigos é devorado pelo bicho, o mocinho dá um jeito de sair nadando e chega em terra firme gritando “eu te venci!” para a mancha, que não deixa barato. O fim irônico fica por conta de uma placa que diz “proibido nadar”, escondida entre a vegetação alta.

AH, SIM! Porque ia AJUDAR MUITO ter lido isso antes de nadar! Não era melhor botar “CUIDADO LODO ASSASSINO NO LAGO”?

Voltamos ao menino em desenho animado, Billy, que volta para casa quando encontra os valentões da sua rua. Eles destroem o pacote que ele havia recolhido no correio e ele revida a grosseria e foge, sendo perseguido pelos outros logo em seguida. O Creeper reaparece e apresenta a última história:

Tem pelo menos uns dois episódios de Doctor Who que eu acho que copiaram a premissa desta história!

The Hitchhiker (O Carona)

Uma mulher muito rica e bem sucedida acorda na cama com um garotão. Ela reclama de acordar atrasada e aí descobrimos que ela é casada, mas se encontra com o garotão regularmente, traindo seu marido. Em geral ela passa algumas horas com ele e sempre chega em casa antes do marido. Com pressa, ela começa a acelerar o carro, pensando em desculpas para dar, caso o chegue em casa depois do marido. Em sua distração ela acaba atropelando um homem que pedia carona na beira da estrada. Pensando que ninguém a havia visto, ela acelera e deixa para trás o corpo do homem desconhecido.

Como nenhuma morte em filme de terror passa incólume, seja acidental ou não, a mulher passa a ser assombrada pelo Carona, que reaparece dizendo “obrigado pela carona, dona!” Claro que eu não achava isso na época, mas revendo o filme hoje eu gargalhei a cada vez que o homem reaparecia dizendo sempre “obrigado pela carona” e a mulher inventando novas maneiras de atropelar a assombração/zumbi para se livrar dele. Ela atropela de novo, joga ele no meio das árvores, arremessa o corpo dele pra cima, dá cavalo-de-pau e o que mais seja necessário para fazê-lo desaparecer. No fim, pasmem! Ela chega em casa antes do marido e sã e salva! OU SERÁ QUE NÃO?

Sério, AONDE que ele achou as sementes pra essa coisa?!

O epílogo da história fica por conta do Creeper e do pequeno Billy que leva os valentões que o perseguem para um terreno baldio, onde eles o cercam para cobrí-lo de porrada. Mas o menino não parece ter medo, já que suas plantas carnívoras gigantes aparecem para salvá-lo, devorando cada um dos valentões! O Creeper reaparece perto do terreno baldio e se despede do público jogando os gibis de Creepshow para o alto!

Tô LendoPontos Fortes
  • Divertido. O filme é bem curto e divertido, no fim das contas. O fato de serem três histórias faz com que algumas se estiquem um pouco mais que o necessário para ocupar espaço, criando um pouco de barriga.
  • Fácil de achar. Tem DVD de balde por aí, já que o filme é quase um clássico cult. Para facilitar mais ainda, tem ele completinho no youtube, legendado apenas, mas é aquele negócio. Cavalo dado, não se olha os dentes, né?
Tô LendoPontos Meh
  • Atuações. Nossa, por onde eu começo? O filme tem uma penca de atuações sofríveis. Não que isso seja um demérito, ainda mais em um filme deste tipo, onde já esperamos este tipo de coisa, mas meojesuis! As atuações ruins aqui estão num outro nível!
  • Poucas histórias. O filme teria cinco contos, como o primeiro Creepshow, mas por causa do orçamento ele acabou ficando com apenas três.

Durma com uma cena dessas na cabeça ao dez anos, vai!

No fim, o filme acaba sendo pelo menos divertido. Mesmo que ele não tenha o mesmo impacto, ou a mesma paixão que o filme original, ele ainda deixou uma geração de crianças perturbadas, como podemos conferir aqui nos comentários do segmento The Raft disponível no youtube. Além disso, ele ainda conta com uma participação do próprio Stephen King, como o motorista de um caminhão na última história, The Hitchhiker.

Pelo menos eu não me traumatizei sozinho.

Como disse antes, o filme teria cinco contos que foram abandonados por questões de orçamento. Um deles era Cat from Hell (Gato do Inferno) que contava a história de um cara rico que contratava um assassino profissional por 100 mil dólares para matar um gato preto. O ricaço jurava que o gato havia matado outras três pessoas na sua casa e temia ser o próximo. O gato, no entanto, acaba se vingando dos dois, hehe. O conto acabou sendo utilizado em Contos da Escuridão (Tales from the Darkside: The Movie, 1990). O conto seguinte, Pinfall (Queda dos Pinos, em tradução livre) contava a história de dois times de boliche disputando um prêmio de 5 milhões de dólares. Quando um dos times de boliche é assassinado em um acidente de carro, eles voltam para executar sua vingança! Infelizmente, essa história não teve o mesmo fim que Cat from Hell, e foi ignorada pela história do cinema de horror.

E você? Também é uma pessoa super impressionável com filmes de terror? Ama? Odeia? Qual o filme de terror que mais te assustou na vida?! Conta aí nos comentários.

Creepshow 2: Show de Horrores vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-10-14T22:00:48+00:00 14 de outubro de 2019|0 Comentários