CDC #40 – IZOMBIE

IZombie Panini

Normalmente quando eu compro alguma coisa ela vai pra pilha de leitura e aguarda o seu momento de ser lido, respeitando educadamente quem chegou primeiro. Porém, num dia de filmagem em que eu esqueci a mochila em casa (minha mochila sempre carrega uma revista em quadrinho, um livro e uma Mundo Super-Heróis), fui tomado pelo desespero e, com o figurino do meu personagem mesmo, corri até a banca mais próxima e comprei o encadernado da Panini IZombie e uma revista do Recruta Zero (que estava ótima, por sinal, obrigado).

A primeira coisa que me chamou atenção foi a arte, que é de ninguém menos que Mike Allred, um dos meus desenhistas favoritos (falei dele aqui na Caverna sobre o Red Rocket 7). Em Izombie ele não só faz as capas e a concepção dos personagens, como ele desenha todo o interior da revista (o que não acontece por exemplo em Batman 66, que me decepcionou bastante). Acho bom avisar isso, porque a revista na banca estava lacrada (prática abominável para os folheadores compulsivos, como eu), então só pude descobrir sobre seu conteúdo ao comprá-la. Confesso que sou suspeito para opinar, mas achei a arte do Mike Allred ainda mais sofisticada, cada quadrinho digno de um quadro de Lichenstein e, mesmo com seu ar Pop Art, uma excelente caracterização dos personagens e enorme variedade de expressões.

Mas espera! Eu acabei me adiantando (assim como eu fiz na banca de jornal) falando da arte! Melhor explicar do que se trata a revista.

O roteiro conta a história de Gwen, uma menina zumbi, amiga de uma fantasma da década de 60 e um lobisomem cuja a metade “lobo” é, na verdade, Terrier. Somado a isso nós temos um grupo de vampiras que ministram um campo de Paintball e uma dupla de agentes designada a caçar monstros para uma facção de origem milenar. Mas o que me surpreendeu na história mais do que esses elementos (que, soltos, talvez servissem mais para me afastar do que me atrair) foi a forma como o roteirista Chris Roberson amarrou tudo isso, em um ritmo bastante particular de storytelling. Nada tem aquele impacto forçado, que volta e meia aparece nos quadrinhos desesperados para emplacar um hit. A trama se desenvolve de uma maneira bastante natural e mundana, apesar da temática bastante absurda que ela aborda. Me fez lembrar aqueles títulos da Vertigo dos anos 80 e 90, como a mini série da Morte – O Alto Preço da Vida, onde os acontecimentos vão se sucedendo num ritmo próprio, sem que você necessariamente entenda o que está acontecendo no momento da leitura e sim a medida que você vai avançando. Gosto desse ritmo em particular porque – para mim – ele se assemelha mais à vida real do que à ficção. Nem sempre em nossas vidas sabemos com o que estamos lidando, o que aprendemos, que escolha fazer. Mas a vida segue mesmo assim. Essa familiaridade que a leitura causa, somada a um grupo de personagens completamente absurdo, causa uma mistura muito peculiar, que, na minha opinião, merece ser visitada.

IZombie Panini

Estou insistindo nessa tecla do “pra mim”, “na minha opinião”, etc., porque, apesar de eu ter gostado bastante da revista, não acho que seja a leitura mais incrível do mundo (acho até bom avisar isso ainda mais depois de usar a mini série da Morte como referência). Ela não tem nem de longe o impacto que as criações do Neil Gaiman tiveram na minha vida e, imagino, na de outros leitores aqui também. Mas, no meio de tanta porcaria saindo nas bancas todo mês, eu acho que izombie propicia um pequeno porto seguro, ainda que como forma de diversão leve e passageira. Não é o melhor gibi do mundo, mas é divertido. Hoje em dia eu acho que isso conta mais ponto do que antigamente.

Ele foi publicado em 2010 e licenciado para virar uma série. Eu nunca vi a série, mas acredito que deva ser muito ruim (sim, estou me baseando puramente no preconceito). Me parece, pelo que eu vi por aí, que só aproveitaram o nome da revista e a idéia da personagem principal. Na revista, o título “izombie”, que imediatamente remete a uma temática “teen”, de uma geração smartphone, pode ser bastante enganador, pois apesar da revista poder ser aproveitada por um público adolescente, ela não é nem de longe limitada a isso. Então, quem não gostou da série ou está cheio de preconceitos infundados (que coisa feia!) em relação a ela, eu digo que você pode arriscar ler a revista sem medo. Ela pode ser o oásis no deserto criativo que você vinha procurando. Só não espere muito.

Tô Lendovantagens
  • Saiu no Brasil, pela Panini
  • A arte do Mike Allred está particularmente sensacional
  • A edição encadernada conta com alguns extras mostrando o processo do desenhista para criar algumas capas e a concepção de alguns personagens
  • Essa pode ser uma revista interessante para compartilhar com a sua irmã mais nova que tem preconceito com seus quadrinhos mas ama séries de TV de gosto duvidoso
  • Ótimo trazer aquele povo do Crepúsculo pro nosso lado
  • Dinâmica de roteiro bastante particular
  • Leitura rápida e leve (apesar da degustação de cérebros)
  • A edição tem um ótimo acabamento, desde o interior, com um papel legal, até a capa cartonada com verniz fosco, que eu acho super classudo…
Tô Lendodesvantagens
  • A edição da Panini reúne as 5 primeiras revistas da edição americana. Ela termina sem encerrar o primeiro arco, apesar de dizer “FIM” no último quadrinho. Então se você é que nem eu, que gosta de ler tudo sem interrupções, é bom tratar de catar os outros volumes logo.
  • O traço do Mike Allred, apesar de eu achar a coisa mais linda que existe no mundo das artes mundias, costuma ser um divisor de águas, tem muita gente que não curte. É bom dar uma googlada pra ver se você é uma dessas pessoas antes de comprar a revista…
  • O final da série é bem apoteótico e bastante nada a ver. Mas não invalida a jornada.

É isso! Espero trocar opiniões com alguém que já tenha lido esse título! E a série? Alguém conhece? Tenho razão para os meus preconceitos ou me equivoquei completamente mais uma vez? CONVERSA COMIGO!!!!

De qualquer forma, espero que vocês curtam conhecer mais esse novo personagem!

Até a próxima quarta e boas leituras!

Tô LendoAlgumas imagens!
IZombie Panini
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2019-05-01T07:17:50+00:00 1 de maio de 2019|29 Comentários
  • Benício Ernesto

    Os desenhos do Allred são muito bons mesmo, gosto muito também, vou tentar ler até o final. Mas vim comentar sobre a série, que não é tão ruim assim, mas não é boa (rs). Vi as primeiras duas temporadas com minha esposa que adora a série. A zumbi, que esqueci o nome, fica comendo cérebros e solucionando crimes com os poderes de ver as memórias, junto com o parceiro detetive que não sabe que ela é zumbi porque ela fala que é psíquica. Vejam por sua conta e risco.

    • Hahahaah Realmente a melhor maneira de esconder que é zumbi é fingindo ser psíquica!
      Mas esse pode ser o teste ideal pra minha teoria… Será que a sua esposa ia gostar de ler a revista?? Eu acho que não, mas quem sabe não vale a tentativa? rs
      A revista realmente não tem absolutamente nada a ver com a premissa da série, pelo o que você está me falando!

      • Benício Ernesto

        Eu já li o começo de Izombie na época, pela biblioteca do Paulo Coelho. Nem tento indicar pra minha esposa porque ela não curte quadrinhos mesmo, já tentei.

        • Fé, Benício! Fé! Eu demorei 7 anos pra descobrir o gosto da minha esposa. É questão de achar o material certo! Minha mulher se amarra em grande parte da linha editorial da Nemo, por exemplo… Vale dar uma olhada!

    • Sabrina Roman

      “não é tão ruim assim, mas não é boa” é a descrição mais adequada pra série mesmo. Lembrava de ter assistido toda a primeira temporada, mas quem disse que eu conseguia lembrar alguma coisa da história? Foi só lendo seu comentário que fui lembrar alguns pontos da série, tipo toda a coisa de trabalhar no necrotério. Acho que pra quem gosta de séries detetivescas, tipo vilão da semana, pode até interessar. Mas mantenham em mente que é (ou pra mim foi) algo bem esquecível, só pra passar tempo mesmo…

      • Se até a protagonista esquece das coisas se não come um cérebro de vez em quando, por que a gente não pode esquecer também, não é verdade?

        • Sabrina Roman

          hehehe verdade mesmo

  • IDRIS ELBA RAMALHO

    Eu amo o Allred, ele é fantástico!
    Confesso que me surpreendi com a indicação, quando vi isso numa livraria a primeira coisa que veio na mente foi “Crepúsculo, só que zumbi” e passei longe. Mas pelo visto parece valer a pena dar uma chance.
    E putz, o Allred é demais, já leu o Surfista prateado dele? Cara, que sensacional!

    • Claaro!! O Surfista dele com o Dan Slott é uma mistura de universo Marvel com Guia do Mochileiro das Galáxias, sensacional! Se você é fã dele, TEM que ler iZombie, nem que seja só pelas figuras! Mesmo a história sendo apenas “honesta”.

    • Bruno Messias

      O Surfista saiu no Brasil só num compilado em capa mole, naquela saga “guerra alguma coisa”, né? Se for esse, eu li. Mas achei que merecia um tratamento melhor. Não capa dura, mas ao menos uma lombadinha quadrada… Não que a história seja algo demais, mas tudo que tem desenho do Allred parece especial, não é? E a narrativa tem uma sacada muito bacana, que não vou comentar pra não dar spoiler pra ninguém. Adoro esses lances que só são possíveis nos quadrinhos, e em mais nenhuma outra mídia.

      • IDRIS ELBA RAMALHO

        Não, não. Aquele “compilado” é só uma edição especial que faz parte da saga “Guerras Secretas”. Tipo, aquelas edições que a marvel obriga os escritores a fazer que seja vinculada a mega-saga da semana.
        O gibi do surfista tem 30 edições ao todo, e mais essa edição que você leu.
        O problema é que no Brasil ele saiu naquele mix bem merda Universo Marvel, junto com Thunderbolts, Hulk e um monte de leitura meia boca. Comecei a comprar só por causa do Surfista, mas a panini teve a brilhante ideia de fazer um tipo de rodízio. Por exemplo, tinha Surfista do Allred na edição 9, depois tinha outra na 13, depois na 16, aí então na 18… e por aí vai. Como se não bastasse essa porcaria vinha num plástico, e eu não tinha como saber se naquele mês ia ter Surfista Prateado na revista ou não, só comprando. Aí encheu o saco, sinceramente.
        Mas agora a panini tá relançando tudo capa-dura, que nem fez com o Gavião Arqueiro do Fraction e do Aja, vale a pena correr atrás.
        Eu pessoalmente não gosto de capa dura, um gibi independente desses devia ter saído que nem o Demolidor do Waid, naqueles encadernadinhos lombada quadrada que eu acho uma maravilha!

        • Cara, eu passei EXATAMENTE por isso que você falou com a Universo Marvel. Aí num desses “pontos de corte” de uma das edições que tinham o Surfista eu passei a comprar o encadernado americano que continuava exatamente do ponto que eu tinha parado e nunca mais comprei uma Universo Marvel na minha vida.

          • IDRIS ELBA RAMALHO

            Engraçado que na mesma época a panini começou a lançar os encadernados independentes do Demolidor e Cavaleiro da Lua. O gibi do Surfista se encaixaria perfeitamente nesse formato, já que não tinha ligação com mais nenhum título. Vai entender…

    • Alexandre Skywalker

      Migx estou lhe convidando participar do canal
      Seria um prazer se aceitasse, vc seria muito bem vindo , conheceria novas pessoas,
      Link do flood https://disqus.com/home/discussion/channel-nerdologista/papo_nerd_cinema_de_super_herois_em_2020/

  • Douglas

    Caruso! Tudo bem? Fiquei sabendo das suas nerdices aqui em Santos, naquele evento que você esteve no ano passado. Tô me interessando por quadrinhos agora e tô usando a Caverna do Caruso como referência. Mas eu tenho uma dúvida: o que você leva em conta pra dizer se uma determinada arte é boa ou ruim? Porque eu num tenho qualquer senso crítico nesse sentido. Pra mim, todas as artes são bonitas… ME AJUDE, CARUSO! Obrigado pelas suas postagens, Caruso!

  • Guilherme Pereira

    Fala Caruso, passando aqui apenas pra agradecer por toda simpatia que vc demonstrou comigo hoje lá na geektown, algumas vezes pequenos gestos podem mudar o dia de uma pessoa, você disse que foi um prazer me conhecer, me deixou nervoso e acabei não falando, mas o prazer foi totalmente meu, vou começar a aparecer mais aqui, qualquer momento to falando umas besteiras ai, mas relaxa que isso é normal kkkkkk, novamente, obrigado pelo carinho e que a força esteja com você.

    • AÊÊÊ! Que bom que você apareceu cara!!! Só de você dar um pinta aqui de tempos em tempos, dizendo que leu a coluna, eu já fico feliz! 🙂

  • Mr_MiracleMan_Jr

    Concordo discordando…hehe

    Gostei bastante do primeiro volume da série e comprei toda, mas achei que o ritmo complexo que foi se instalando ao longo das edições que culmina naquele final apoteótico que vc cita estragou um pouco o gibi. Preferia que tivesse mantido a pegada mais simples do início.

    Eu vi os primeiros episódios da série no Netflix e até que gostei (a atriz principal é a zumbi mais linda da cultura pop), tem uma pegada mais teen com pitadas de trama de detetive que diverte. Mas deixei para continuar num futuro qualquer e acabou que saiu do catálogo.

    • Ué! Mas eu coloquei esse final na coluna de desvantagens, onde foi que a gente discordou?

      • Mr_MiracleMan_Jr

        Eu acho que o gibi só vale a pena pelos primeiros números, depois fica chato. Eu recomendo só a leitura do volume 1 e que a pessoa ignore o resto.

        • Eu entendo, mas o volume 1 deixa muito gancho em aberto. Dá muito uma sensação de coito interrompido. Acho melhor ler tudo mesmo sabendo que o final é uma merda e depois comentar “nossa que final merda, né?”

  • Ricardo Varotto
    • NÃO É???

    • Bruno Messias

      Não lembro se notei isso quando li, mas… A Gwen tá de Shawn! Que excelente!

  • Bruno Messias

    Os desenhos do Allred estão mesmo espetaculares. Li só por causa da arte, já que o tema me afasta (sobrenatural: a kriptonita do nerd/crente).
    Bem disruptiva a mocinha fofa ser, além de zumbi, coveira.
    Tem muito cara de Scooby-Doo, não é?

    • Hahahahhahaah O lance nerd/crente SEMPRE me pega de surpresa! Mas sim, sem dúvida, tem uma scoobidoolização ali em algum momento sim!

  • Bruno Messias

    Cara, eu li uma vez um gibi do Recruta Zero que era espetacular. Sem exagero. Uma edição feita no Brasil, em que o desenhista do Zero é sequestrado, e precisam arrumar um substituto. Aí aparecem versões do Maurício de Souza, fazendo a “turminha do Zero”, e o “Frank Milho” fazendo o “Sargento das Trevas” e o “Zeronin”!
    Pena não ter guardado essa revista… Achei pra comprar no Mercado Livre, mas estava em péssimo estado.

    • Nossa!!! Nunca ouvi falar disso! Caraca, fiquei curiosíssimo, vou procurar!