CDC #38 – Em Busca do Pássaro do Tempo

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CDC #38 - Em Busca do Pássaro do Tempo

Muito bem, chega de pegar leve, hora de ligar o obscurômetro no máximo! Essa é uma das minhas séries Franco-Belgas preferidas e nunca, em toda minha vida, tive a oportunidade de conversar sobre ela com alguém, apesar dela ser bem conhecida na França e um pouco em Portugal (meu amigo nerd mais distante mora em BH, então…). Essa série é tão obscura que pra se ter uma ideia, quando eu fui pesquisar ela mais um pouco para escrever a coluna, ela não apareceu na Wikipédia Brasileira e nem na americana. NEM NA AMERICANA!!! Então sejam bem vindos a um dos recantos mais escuro da Caverna!

A primeira coisa que me atraiu na Em Busca do Pássaro do Tempo foi o traço do Loisel, que também desenhou Peter Pan, publicado aqui pela Editora Nemo. Um traço ao mesmo tempo dinâmico, ao mesmo tempo cheio de detalhe e movimento, criando desde curvas voluptuosas à criaturas bizarras e criativas, dignas de fazer George Lucas pensar “Uôôôu, que p*##@ é essa?!?”. Outra coisa interessante na sua arte é uma “textura” ou uma pegada estranhamente realista. O bichinho de estimação da mocinha, por exemplo, apesar de ser azul e igual nada que você já viu na vida, tem uma série de dobrinhas na pele que faz você “sentir” como seria tocá-lo (e também tenho quase certeza de que ele foi plagiado pelos estúdios Disney na criação do Stitch, mas não posso provar nada agora). Da mesma forma, a mocinha, apesar de ser extremamente sensual, tem um narizinho de batata e jeitão meio “atarracado” que fazem dela mais plausível.

Outra coisa que me atraiu foi o fato da série (na época) já ter sido publicada quase na íntegra (hoje já fechou há muito tempo). O que é uma extrema vantagem na leitura de Bandas Desenhadas, posto que é possível demorar até 5 anos pra lançar cada tomo (e você reclamando aí da sua série mensal…). Ou seja, tudo o que eu precisava fazer era comprar todos os volumes e ter uma leitura ininterrupta. Outra vantagem era ter sido publicada em Portugal pela infelizmente extinta Meribérica, que chegou a trazer algumas coisas aqui para o Brasil. Como o meu francês não é lá essas maravilhas, a passagem pelas mãos dos nossos ex-colonos abre verdadeiras portas quadrinhísticas pra quem procura leituras diferentes!

CDC #38 - Em Busca do Pássaro do Tempo

E bota diferente nisso! O mundo de “Akbar” criado por Serge Le Tendre e representado por Loisel é espetacular! A jornada é longa, no melhor estilo Senhor dos Anéis, porém muito gratificante, com bem menos caminhadas e bem mais aventura. Ao longo dela vamos conhecendo personagens muito diferentes, guiados por Roxanne, a filha da feiticeira Mara e um velho guerreiro “aposentado” e rabugento, que pode ser seu pai. Não me lembro muito da trama, para falar a verdade. Mas lembro de ser bem linear, sem subterfúgios forçados. Parecia uma clássica aventura de RPG, cuja a jornada em si é tão ou mais interessante quanto seu fim.

Apesar de ser impossível de achar em livrarias, ela às vezes marca bobeira nos sebos, juntos com os outros títulos perdidos da Meribérica (Ah, Meribérica, por que nos deixastes, POR QUÊ?!?!), então vale a pena o garimpo. Ou, se por um acaso, você for a Portugal, vale o pulo na FNAC deles e comprar os títulos novinhos em folha, com um lindo acabamento capa dura! Ah, e também achei a série na internet na íntegra, veja só! Logo eu que sou praticamente um analfabeto digital! Fui procurar mais sobre ela e lá estava… todos os capítulos, a um clique de distância. Os títulos do primeiro arco (o que eu li) são: 1) O Búzio de Ramor; 2) O Templo do Esquecimento; 3) O mestre; 4) O Ovo das Trevas; 5) Prelúdio, o Amigo Javin (embora eu ache esse último desnecessário, com um salto temporal grande depois do final da história e, se eu não me engano, preparando terreno para o próximo arco, que eu nunca li, pois só foi publicado em francês, então podemos assumir que é ruim, para a gente não ficar sofrendo à toa). Caso você queira levar essa empreitada à diante, eis algumas considerações:

Tô Lendovantagens
  • O quadrinho europeu amplia horizontes, e esse não é diferente! É um mergulho ideal pra quem acha que já conhece de tudo.
  • Conceitos muito diferentes que você só vai encontrar aqui
  • Personagens carismáticos e verdadeiros, que farão você sentir saudades, como se fossem seus amigos de aventuras passadas
  • Criaturinhas que você adoraria pegar no colo
  • Traço lindíssimo do Loisel, chutando bundas (não acredita, bota no Google! Vai lá, eu espero aqui) NÃO FALEI?
  • Humor! Faltou eu falar disso na coluna, esqueci… Mas tá aqui: a revista abre espaço para momentos engraçados, no melhor estilo “filme de amigos da sessão da tarde”
  • Quatro volumes (não estou contando o quinto) já publicados, o que, em termos de quadrinhos europeu, deve ser levado em consideração
  • Já foi publicado em Português!
  • O final é legal também, vale a pena ler até o último quadrinho da última página (sem contar o volume 5, que é chato. Eu considero o último volume o volume 4)
Tô Lendodesvantagens
  • O volume 5 é chato, já falei isso?
  • Acredito ser uma leitura para iniciados e não para marinheiros de 1ª viagem
  • O ritmo pode ser diferente do que você está acostumado (o quadrinho europeu tem dessas coisas). Não espere uma quebra de capítulo a cada 24 páginas. É uma jornadona, que você não deve tentar ler de uma vez só. Assim como os personagens, você deve parar para descansar de tempos e tempos, para deixar a sua leitura mais extensa e prazerosa
  • Num primeiro momento o excesso de detalhes dos desenhos pode parecer poluição visual, bem como os balões e as fontes de tamanhos diferentes. Demora um tempinho pra você se “ambientar”. Mas você rapidamente o faz e não quer mais sair. Faço esse aviso porque, numa primeira folheada, isso pode ser desmotivador. Mas esse preconceito precisa ser vencido, pois ele será recompensado!
  • Não sei aonde achar as edições. Pra você ter uma ideia, fui botar “Em Busca do Pássaro do Tempo” no site da Saraiva e o resultado que eles me deram foi “Pedal Guitarra Boss Loop Station – Vermelho”, juro por deus! E ainda custava 704 reais… então nem era jogo!

Eu sei que eu pego pesado na Caverna de vez em quando, mas pra mim, uma das graças de ler é sempre ler mais e ler coisas novas. Eu acho que vale muito a pena. Só estou indicando porque, apesar de ser obscuro, eu gostei bastante e adoraria compartilhar essa alegria com mais pessoas… Então, por favor, deixe seu comentário e me faça feliz!

Até a próxima e boas leituras!

Tô LendoAlgumas imagens!
CDC #38 - Em Busca do Pássaro do Tempo
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2019-04-03T09:58:15+00:00 3 de abril de 2019|10 Comentários
  • Ricardo Pires Ferreira

    Rapaz, essa dica foi obscura mesmo. Mas uma coisa você tá coberto de razão, o material franco-belga é muito bom. Impressiona como tem albuns sobre quase todo tipo de histórias, tem piratas, tem capa e espada, tem romance, tem histórias de relacionamentos, tem velho oeste, tem fantasia, tem ficção científica, tem mistério, tem gladiadores, tem mitologia, tem magia, tem erótico, tem infantil, espionagem, etc.. os caras são muito criativos. E provavelmente por não ter que lidar com prazos apertados, os desenhistas podem se dar ao luxo de caprichar mais um pouco na arte e na colorização.

    Uma pena que o licenciamento destes albuns europeus em série sejam caros, o que dificulta a vinda da maioria deles para o Brasil, porque é um tipo diferente de histórias, nada de super-heróis ou vilões, nada de franquias infinitas, a grande maioria tem início, meio e fim.

    O Sérgio Codespoti, do Universo HQ, estava comentando estes dias que só neste mês de abril estão para ser lançados quase 300 albuns de quadrinhos no mercado franco-belga. É muita coisa. Até para a gente saber o que vale a pena e o que não vale fica complicado diante deste volume de publicações.

    Grande abraço a todos!

  • IDRIS ELBA RAMALHO

    Caramba, nunca tinha ouvido falar dessa mesmo.
    Conheço muito pouco do quadrinho europeu, mas o pouco que li gostei bastante.
    É legal que eles “pensam o quadrinho” de forma diferente dos americanos. São álbuns de luxo, escritos e desenhados com um certo esmero, sempre mostrando uma visão bem autoral dos seus criadores.
    Curti a arte, guardada as devidas proporções, me lembrou um pouco o Paul Pope. Um desenho rabiscado e ao mesmo tempo detalhista.

    • Sem dúvida: quadrinho no velho continente é mais visto como “arte” do que como “indústria”, como nos EUA. E você pode notar essa diferença quando visita as lojas de quadrinhos de lá. O público é mais velho e não tem cara de “público fã de quadrinhos”. Não exibem camisetas de super heróis ou qualquer aspecto de comportamento de nicho. A maioria está lá como quem frequenta uma livraria ou uma loja da apple. É bem doido!
      Aproveito para indicar outro quadrinho Europeu obscuro preferido meu que eu resenhei aqui, o XIII. Só acessar a lista completa de resenhas e SE DIVERTIR A VALER!

  • Gabriel Vaz

    Que belo resgate do obscuro!
    Assim que eu vi as imagens, me lembrei que já vi uma história dessa, mas não lembro qual. Devo ter lido em algum sebo, ou na antiga loja da Devir, em sp….veio lá do fundo da mente essa lembrança!

    E realmente vale muito a pena as hqs franco-belgas, são obras muito diferentes do que temos por aqui.
    Abç

    • Yep! E às vezes a gente fica variando entre Marvel, DC, Dark Horse, Valiant e Image Comics, sem perceber que no fundo não estamos variando nada e estamos presos num mesmo formato. Essas leituras são ótimas para ampliar os horizontes!

  • Mr_MiracleMan_Jr

    Boa indicação.

    Os quadrinhos europeus são excelentes mesmo, ainda bem que as editoras brasileiras estão trazendo muita coisa para cá. Pena que alguns ficam incompletos (cadê o resto de Lanfeust de Troy???)

    E vai que a Nemo ou a Mythos publicam esse material no Brasil?

    • Isso ia ser bacana mesmo! Aliás, boa lembrança: Lanfeust de Troy era bem legal mesmo!
      Outra editora legal que trouxe um material europeu alto nível é a Sesi-SP, com Verões Felizes e Blacksad. Mas ouvi dizer que ela vai fechar as portas… 🙁

  • Ricardo Varotto

    Boa dica, Professor!

    P.S.: Esse comentário do pedal Boss foi demais… 😀

    • Juro que aconteceu!

      • Ricardo Varotto

        Ghost in the machine.