Há muito tempo eu tenho o sonho de ler Estranhos no Paraíso completo. Hoje, graças à editora Devir, esse sonho se realizou. Obrigado, Devir! S2

Veja bem: Estranhos no Paraíso foi publicado aqui no Brasil no final dos anos 90, bem no meio do boom dos heróis musculosos e capas cromadas. Era um sopro de originalidade numa época de repetições e clichês sanguinolentos. No entanto, a sua publicação por aqui foi errática pra dizer o mínimo. A primeira mini série foi publicada em três fascículos por uma editora que agora eu não lembro o nome (se você lembrar, por favor, a área de comentários tá aí embaixo pra isso), depois passou pra Via Lettera, que publicou alguns encadernados que pareciam se esconder da polícia nas estantes das livrarias. Alguns, inclusive, eu só descobri que foram lançados uns 15 anos depois.

Mas eis que chega a Devir, com uma promessa ousada: publicar toda a coleção no formato “absoluto”, em seis robustos encadernados, contando todas as publicações da saga, incluindo duas que o autor quis deixar de fora da coleção americana. E eles conseguiram. Estranhos no Paraíso está agora completo no Brasil! Fico até emocionado.

A trama é a seguinte: Katchoo é uma artista cabeça quente, secretamente (ou não tão secretamente assim) apaixonada pela sua colega de quarto, Francine, que tem uma personalidade diametralmente oposta a sua. E não é gay. No meio dessa confusão história o David, apaixonado por Katchoo, dando início a uma espécie de will they won´t they de trisal. Bem, isso é o basicão. Pra mim, aliás, já tava bem bom se fosse só isso aqui. MAAASSS logo descobrimos que (SPOILER:) Katchoo estava fugindo de uma máfia controladora que assasina senadores através de garotas de programa com treinamento militar estilo 007 e o David é um agente infiltrado irmão da dona dessa corporação mas que se apaixona pela Katchoo de verdade só que ela era namorada da irmã do David mas ela quer largar a corporação e quem tenta sair morre. Parece confuso, mas é porque é. É muito confuso mesmo. E isso é só o lado da Katchoo. O lado da Francine também envolve diversos vai-e-vens românticos, astros do Rock, será que eu sou gay, viagens para futuros alternativos (ou seriam reais?) só na sua cabeça. Enfim, é muita coisa. A impressão que dá é que o Terry Moore, criador da série, aproveitou o seu espaço para fazer tudo o que ele já teve vontade de fazer alguma vez na vida. Então a trama parece mudar de gênero de acordo com o desejo do autor, hora é romance água com açúcar, hora é romance policial, filme de ação, contos de suspense (algumas páginas são inclusive de texto corrido, com algumas ilustrações)… tem de um tudo. Mas o que importa é que tudo é bom.

Agora, se por um lado, o roteiro varia bastante, a arte não poderia ser mais consitente. Do início ao fim, tudo é desenhando (e acho que arte finalizado também, não tenho certeza) pelo próprio Terry Moore. E ele tem um traço delicioso! Os personagens todos parecem pessoas de verdade, seu trabalho com expressões faciais é um ponto fora da curva, ainda mais numa mídia dominada por “rostos carimbo”. Ele também aproveita as seqüências de sonho pra fazer um pouquinho de fantasia medieval, sacanear os gibis de super heróis musculosos que competiam ao seu lado nos estandes das lojas de quadrinho… ele parece gostar muito do que está fazendo e isso imprime em cada rabisco. Não à toa Katchoo e Francine volta e meia aparecem na sua conta no instagram, que eu sigo fielmente.

É claro que com tantos volumes e tantas páginas, Estranhos no Paraíso vai ter seu altos e baixos. Alguns aspectos vão agradar mais uns outros mais outros. Mas ainda assim, eu acho seguro dizer que a média é bem sólida e positiva! Vamos às vantagens e desvantagens.

Tô Lendovantagens
  • Nem acredito que eu vou dizer isso, mas SAIU NO BRASIL!!! COMPLETO!!!
  • A Devir entrega no Brasil todo
  • Um quadrinho que propõe discussões sobre sexualidade e comportamentos machistas muuito antes de isso ser uma pauta difundida na mídia
  • Personagens absurdamente cativantes.
  • Trama repleta de reviravoltas!
  • Muito bem desenhado
  • Diálogos orgânicos, bastante humanos
Tô Lendodesvantagens
  • O preço. Edição de luxo, é edição de luxo, né? Ainda mais pra completar seis volumes. Então não é o tipo de edição pra quem “quer conhecer”. Pra isso tem aquelas outras que eu falei no início da resenha, perdidas em algum sebo da vida.
  • Preto e branco. Nesse caso eu acho uma desvantagem mesmo. Muitos personagens são parecidos e as cores ajudariam bastante na identificação. Isso numa trama complicada como a de Estranhos no Paraíso pode exigir uma leitura mais atenta do leitor
  • Justamente por ter sido escrita muuuito antes de isso ser uma pauta difundida na mída, a maneira como algumas questões relacionadas à sexualidade e feminismo são abordadas na revista, podem soar meio defasadas no dia de hoje para um público mais engajado. Mas é importante dar esse desconto pelo pioneirsimo.
  • As reviravoltas das tramas são muitas. Então não é uma boa leitura interrompida. Se você ficar muito tempo sem ler, vai catar cavaco tentando lembrar o ponto que parou.
  • Tenho preguiça da parte mais “poética” do autor. Muita letra de música e palavras desconexas ao longo da revista. Me dá raivinha às vezes.

E aí? Já leu alguma coisa de Estranhos no Paraíso?

Tô LendoAlgumas imagens!