CdC #16 – Tom Strong

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CdC #16 - Tom Strong

Tom Strong costuma ser descrito como “o Super-Homem do Alan Moore”. Eu não concordo muito com essa afirmação. Supremo, esse sim, é o Super Homem do Alan Moore, quase que literalmente (mas isso é assunto para outra coluna). Tom Strong eu acho que é muito mais do que isso!

A origem do personagem faz uma referência aos Pulps americanos e mistura um pouco de Tarzan, um pouco de Robson Crusoé e talvez até um pouco de Fantasma. A história é a seguinte: lá pelos anos 1800 e blau, um cientista, acompanhado de sua mulher, resolve fazer uma expedição/experiência/alguma-merda numa ilha perdida do Caribe chamada Attabar Teru. Acontece um naufrágio, morre todo mundo e só os dois sobrevivem, tendo que criar o filho nessa ilha maluca. Mas mais maluca que a ilha é a cabeça do cientista/antropólogo/dodói do pai da criança, que resolve criá-lo numa câmara de alta densidade, para “fabricar” o ser-humano ideal, sob condições perfeitas. Quanto nosso pequeno ‘ser humano ideal sob condições perfeitas’ completa 8 anos, a ilha sofre um colapso e morre todo mundo, de novo. Ele agora passa a ser criado pelos nativos de Attabar Teru e um Robô pneumático, que é meio um cruzamento de Alfred do Batman com o autômato da Família Robinson em Perdidos no Espaço (Sabe? Aquele do  “Danger, Mr Robinson! Danger! Danger!”).

Muito bem, isso é o básico, é só a origem. O resto é Alan Moore.

Alan Moore é completamente insano e um poço inesgotável de teorias loucas e referências surreais. Ele é tipo uma Wikipédia de coisas que ninguém perguntou. Tudo isso aparece nas tramas mais variadas de Tom Strong.

A revista começa com uma pegada de one shot, com histórias fechadas, remetendo aos quadrinhos de antigamente, das décadas de 40/50/60 (não sei exatamente qual é a década, mas sei que quem sabe não usa computador e muito menos acessa a Caverna), isso deixa ele livre para abordar conceitos diferentes a cada história. E quando eu digo “diferente”, eu quero dizer diferente! Eles vão desde uma realidade alternativa onde os Maias não foram massacrados pelos espanhóis e agora prosperaram a ponto de colonizar universos paralelos saltando de realidade em realidade, a caubóis de três olhos que cavalgam formigas gigantes (essa história eu não entendi até hoje).

As histórias não são contadas muito cronologicamente, então hora estamos na década de 40 (ou 50 ou 60), mimetizando os quadrinhos mais “inocentes” daquela época, hora estamos no presente, onde nosso herói é casado e tem uma filha linda, que protagoniza suas próprias histórias. (E tem também um macaco falante de colete e gravata que ninguém sabe da onde surgiu. Sério. Ele tem sotaque britânico.)

A arte do Cris Sprouse é simplesmente espetacular, sendo simples e espetacular ao mesmo tempo. Ele dá ao personagem um ar tradicional, de quem está conosco há muito tempo, mas também está conectado aos tempos modernos. Sou fã desse cara. É um cara que passa um tanto despercebido pelos fãs de quadrinhos. Ele fez muitas coisas pra DC também.

CdC #16 - Tom Strong

A série vai até o número 25 se não me engano, depois passa para outros autores – e as tramas decaem um pouquinho. Os desenhistas também vão mudando ao longo da série.

Além dos conceitos loucos e muito interessantes em cada história, Alan Moore também apresenta uma miríade de personagens muito legais, compondo uma “família” muito curiosa, mantendo um ar clássico e uma cara de coisa que você nunca viu na vida. Quando li pela primeira vez, eu tinha 18 anos, confesso que achei meio “nhé… legalzinho”. Fui ler de novo do início depois dos trinta e minha mente explodiu! Fui atrás de todos os números para completar a minha coleção e fui muito feliz na empreitada.

Seguem alguns tópicos para você que está considerando fazer o mesmo:

Tô Lendovantagens
  •  As histórias são realmente bem inteligentes. Você pode sentir o seu QI aumentando a cada página.
  • Ao mesmo tempo que a revista tem uma pegada mais cerebral, ela também tem espaço para ação! E nisso a arte do Chris Sprouse é saborosíssima!
  • Conceitos únicos que podem permear suas próximas conversas nos próximos cinco jantares (isso, é claro, supondo que você tenha jantares com pessoas que embarquem em conversas elevadas que vão além do que está passando na TV)
  • Todas as edições foram publicadas em encadernados por uma editora grande America´s Best Comics, que era um braço da Image, se não me engano. Isso facilita muito encontrar todas elas.
  • Todos os volumes foram traduzidos e publicados aqui no Brasil pela Panini! Eu nem acredito!!! Eu penei pra achar cada uma delas em lojas de quadrinho pelo mundo afora e essa juventude tem tudo de mão beijada!
  • Ideal para quem quer dar uma variada da galera com cueca por cima da calça.
  • Ideal para leitores mais velhos, que pegam as referências da década de 40/50/60 (porém não exclusivo para eles).
  • Cheio de metalinguagem.
  • Se você gostou MUITO do personagem, ainda tem dois spin offs, “Tom Strong Terra Obscura” e “Tom Strong Terrific Tales”, que não são importantes na trama principal e podem ser lidos ou ignorados a gosto do freguês. A série Terra Obscura reaproveita vários personagens da década de 40 (sim, esses são da década de 40 mesmo, esses eu sei) que caíram em domínio público por conta da lei dos direitos autorais. É muito divertido depois entrar na internet e ver que esses heróis “existiram de verdade”. E também ver que qualquer personagem pode render uma boa história quando o escritor é bom e gosta dele.
Tô Lendodesvantagens
  • As histórias exigem um pouco do leitor. Não dá pra ler na cama que ela te apaga rapidinho.
  • Acho que a revista exige leitores mais maduros (não no sentido erótico, mas no sentido de que algum elementos mais “inocentes” normalmente emulam uma era das HQs que, quem não pegar, pode achar bobo e não entender o intuito do autor), ou seja, não é pra todo mundo e definitivamente não é pra galera hip-hop-beijinho-no-ombro-motherfucker-life-style
  • Não espere ação ininterrupta eletrizante, não é esse tipo de Gibi.
  • Alguns dos desenhistas convidados são bem horrorosos, meio Sal Buscema (desculpa aí, amantes de Sal Buscema). Mas é de propósito. É pra dar uma cara pra uma época ou um tipo de ilustração, sei lá. Tem que ter força de vontade…
  • As últimas histórias não foram escritas por ele, e é preciso ficar atento, pois a editora parece que quis esconder isso pra não prejudicar as vendas. Então, se você quer só Alan Moore, é bom prestar atenção.
  • Não sei se é uma leitura ideal para um marinheiro de primeira viagem. Mas posso estar errado.

Esse é um personagem que eu acho que todo fã de quadrinhos deveria conhecer, para saber como as histórias podem alcançar patamares diferentes, sem necessariamente precisar reformular o universo inteiro. Basta ter boas ideias! E o Alan Moore é cheio de boas ideias! (Espero ter dado uma pra você agora: leia Tom Strong!)

Para qualquer dúvida ou sugestão, estarei à disposição aqui embaixo, nos comentários! Vou adorar saber a sua opinião!

Boas leituras!

Tô LendoAlgumas imagens!
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2018-05-08T15:44:18+00:00 9 de maio de 2018|28 Comentários
  • Elvis Kleber

    Muito legal seu texto,não sabia que era desenhado pelo Chris Sprouse.
    Mas Alan Moore eu vou ler mais ou menos em ordem de lançamento,pra acompanhar o crescimento do autor.
    Comecei a ler Hq por volta de 2012,e já li Miracleman,Watchmen e Piada Mortal(nessa ordem).Até chegar nos gibi da Image e da ABC comics ainda falta ler Monstro do Pântano,V de Vingança, Do Inferno e Um pequeno assassinato.E como eu sei que esse maldito já não vai mais escrever gibi eu to sem pressa pra ler(pra não acabar rápido).
    MAS PODE DEIXAR QUE DAQUI UNS 5 ANOS EU LEIO ESSA SUA RECOMENDAÇÃO HEHE

    • Nos vemos novamente em 2023 então. Quero só ver! Mas ó: acho que tá faltando coisa nessa sua lista aí…

      • Elvis Kleber

        Eu dou uma olhada na bibliografia do Alan Moore na Wikipedia toda vez que termino um gibi dele,PODE DEIXAR QUE EU VOU NA ORDEM CERTINHO!!!!!(escrevi esses de cabeça)
        =======================

        No Podcast MDM de Guerra Infinita, passei mal quando vc falou que só da pra comparar com o filme do trem dos Lumière,é muita empolgação pra uma pessoa só!
        Ai eu te pergunto que gibi vc ficou numa empolgação tão grande que só dava pra comparar com The Yellow Kid sendo publicado a cores? Te falo o meu,o maravilhoso mangá Jojo’s Bizarre Adventure!!!!

        • Putz. Aí eu não sei… Difícil escolher um, é meio escolher filho. Acho que eu ficaria com Too Much Coffee Man; Unenmployed Man e Bone…
          E Powers também.
          E Invincible.
          E Savage Dragon, é claro…

  • Putz. Eu tenho umas duas edições quaisquer aqui de Tom Strong e eu gosto muito delas! Gosto muito dessa coisa de “herói explorador” com pitadas de ciência meio “anos 40” que é a vibe das histórias.

    • Pô, Kadu! Então você TEM que ler o resto!! (Isto é, assim que você terminar Mickey Detetive… cof, cof)

      • Hahahaha. Tô cuidando dele com carinho! Devolvo assim que houver uma nova jogatina.😉

  • E a Panini lançou esses encadernados todos aí.

    • Simmm!!! Por isso mesmo que eu falei exatamente isso no quinto tópico das vantagens

      • Desculpa chefe, pulei inconscientemente essa info!
        Mas bom sempre lembrar que a Panini lançou tudo aqui no Brasil!!

  • Erick Onari

    Fala Caruso! Sou fã do Tom Strong desde aquelas edições da Devir! Fiz até um boneco dele usando um Sr.Incrível de camelô. Para conferir, dá uma olhada no meu blog: http://onariblog.blogspot.com.br/2011/11/tom-strong-um-novo-boneco-customizado.html
    Grande abraço!

    • Caraaaaaaaca, achei MUITO maneiro, Erick!!! Pena que o sorrisinho bocó do Sr Incrível não sai da cara dele! Mas ficou igualzinho! Parabéns, bicho!

  • Dennis Almeida

    Comprei três encadernados até agora e nunca me arrependi. Concordo que o Strong não é o Superman do Moore, está mais para um Doc Savage. Realmente e uma leitura que exige mais do leitor, mas também oferece mais. Ótimos dialogos, reflexões além da manjada “moral da história” (vide a história do Homem-Modular).

    • ISSO! Doc Savage!!! ESSA era a referência que eu deveria ter usado, você tem toda razão! E é isso mesmo: exige mais, mas oferece mais! Tem conceitos que volta e meia fazem malabarismo até hoje na minha cabeça! Muito bem observado, Dennis!

      • Dennis Almeida

        Tom Strong me fez ver como o heroísmo não tem nada com derrotar o inimigo, mas sim achar a melhor solução para o bem comum, o que pode incluir o próprio vilão. Raro ler isto naquela época e ainda mais hoje em dia.

  • Bruno Messias

    A-ha! Esse eu li! Comecei com aquela edição da Devir, anos atrás, e emendei recentemente com as da Panini. Muito bom mesmo!
    Um detalhe que acho engraçado é que a filhinha gata do Tom Strong (meu corretor mudou pra “Stronda” aqui. Eu, hein!), a Tesla, já tem uns 70 anos! E o pai preocupado dela começar a namorar!

    Gosto tanto dos desenhos do Cris Sprouse que, quando muda, dou uma murchada.

    Ótima indicação!

    PS.: legal ter meu e-mail lido no Podcrastinadores! Minha mulher ficou toda orgulhosa!

    • Hahahahahaha Olha o seu corretor querendo dar um olé nas suas restrições, Bruno!!!
      Realmente, tinha esquecido esse detalhe importante da gatinha “strondosa” septagenária! Todo mundo é quase centenário na revista! E eu tô contigo: sai o Sprouse, eu leio até mais devagar.
      Fico feliz que vc tenha curtido a homenagem no podcast! Manda beijos pra esposa!

      • Bruno Messias

        Mando, sim, pode deixar! 🙂
        Essa coisa que você falou, de que a gente vai lendo e sentindo mais inteligente… não sei se é só comigo, mas o Grant Morrison me causa o efeito contrário. Quando leio Invisíveis, por exemplo, me sinto extremamente burro. É como se o Alan Moore dissesse “olha que legal essa coisa nova que eu vou te mostrar”, enquanto o Grant Morrison é mais “curve-se perante minha sapiência!”. Tenho essa impressão.

        • Hum…. entendo bem o que você está dizendo! Tenho essa impressão com várias leituras, não só no Morrison!

  • Mestre Kame

    Encontrei hj nas prateleiras meio que sem querer Tom strong e o planeta do perigo, como vi que era o gibi da semana aqui na caverna resolvi dar uma chance, mesmo sabendo que nao se tratava das historias do moore. Agora é ler e se gostar correr desesperado pra achar o resto das historias do personagem, se nao gostar o jeito é seguir a filosofia do catena e ler as figuras que sao otimas.

    • Eita! Mas catou o único que eu não li ainda! Bacana mesmo era pegar o número um, cara! Mas você pelo visto é um homem da vida, um cidadão sem lei, uma criatura anárquica que responde somente aos seus próprios anseios…
      Torço para que tudo dê certo!!
      Abssss

  • Léquinho Maniezo

    Acabei de falar isso no “Nas Bancas” e vou falar aqui tmb: Vi umas edições de Tom Strong dando sopa nas bancas e não comprei por pura preguiça. Mas o Moore é foda memo, puta que pariu, não sei de onde tira tanta coisa esse homem. A ABC era uma parte da WildStorm, ai quando a DC comprou a WildStorm o Moore vazou.

    Porra, Chris Sprouse é sensacional, é perfeito pra desenhar essas histórias meio pulp, o traço dele é uma SACANAGEM. Ele desenhou uma edição de Multiversity que se passava em um universo meio pulp tmb e ficou excelente.

    Dica show, Caruso, SHOW! Um abraço.

    • Meu amor pelo Chris Sprouse começou na Liga da Justiça Internacional Quaterly, que era uma publicação mais grossinha que saía em outra periodicidade. A história nem era boa e eu tava achando ela boa, não sabia por que. No final eu me liguei: era o Chris Sprouse! S2

  • Carlos Tenorio

    Me interessei, deu uma procurada aqui no DF e não achei

    • Fala, Carlos! Já tentou a Kingdom Comics no CONIC?

      • Carlos Tenorio

        Bem lembrado, vou passar lá no sábado. Valeu

    • Capitão CoruJão

      Estante Virtual.

  • Renan Máximo

    Caruso! Você vai vir pro FIQ? Te desenhei no MdM e quero te dar um abraço e um autógrafo pessoalmente kkkkkkkk