Sou grande fã do Marcelo Quintanilha. Já devo ter lido 95% de suas obras e gostei de todas (talvez menos um pouquinho de Hinário Nacional, que eu não entendi nada, rs), por isso não é levianamente que eu afirmo que Luzes de Niterói é meu livro preferido dele até agora!

Pra quem não conhece o trabalho desse grande quadrinista, Quintanilha é famoso por representar a realidade como ninguém. Seu retrato do Brasil parece quase fotográfico, te colocando dentro da vida dos personagens abordados. E, o que é mais curioso, sem utilizar nenhuma técnica de fotografia no processo (quando você vê a arte dele parece quase impossível de acreditar nisso, mas eu perguntei pessoalmente isso pra ele e ele me garantiu de que era verdade!!). Então, basicamente, o que ele faz é recriar a realidade, dando a ela o lirismo intencionado para conduzir a trama. Às vezes esse equilíbrio delicado pode pender para um lado ou para o outro, deixando a história com um significado emocional difícil de ser alcançado pelos “menos sensíveis” ou então deixando a história com mais ação do que gostariam os “mais poetas”. Isso tudo é para dizer que, pra mim, Luzes de Niterói encontrou a medida certa.

Se passando na década de 50, o livro narra a história de dois amigos que decidem fazer uma “pescaria de oportunidade” que dá muito, muito errado. Cada decisão leva à uma situação mais complicada, chegando ao cúmulo de correrem perigo de vida e não saber se conseguirão chegar ao final da jornada. Nesse processo, somos expostos aos poucos ao passado (e presente) do protagonista e entendemos mais à fundo a relação dos dois, que é posta à prova. Como num típico Quintanilha, nem sempre as coisas tem apenas um único significado.

No caso de Luzes de Niterói, cada significado se sustenta sozinho: se você se guia somente pela história, ela tem viradas suficientes para te manter preso a cada quadrinho, virando as páginas freneticamente. Se você se guia pelo aspecto mais subjetivo das relações e suas camadas, ela é capaz de te acertar como uma adaga no coração. E pra completar a cereja do bolo da curiosidade, parece que os acontecimentos são baseados em fatos reais, todos eles ocorridos com o pai do autor!

Essa é uma daquelas leituras imprescindíveis pra qualquer amante dos bons quadrinhos e uma excelente maneira de trazer novos leitores para nona arte – Quintanilha tem sido muito reconhecido por esse feito. Então parabéns mais uma vez!

Tô Lendovantagens
  • Volume único
  •  Colorido! As cores estão belíssimas, meio chapadas, como os quadrinhos de antigamente, muito bacana
  •  Trama envolvente e realista
  •  Ambientação de época maravilhosa, é uma verdadeira viagem no tempo
  •  Edição caprichadíssima da Veneta, num formatinho livro super confortável de ler e com um papel de belíssima qualidade, que valoriza bem a arte
  •  Acho que esse é um Quintanilha perfeito para quem nunca leu Quintanilha
  •  Ótimo para dar de presente para pessoas que não leem quadrinhos. Acho que esse livro vai ter uma ressonância especial com a galera mais velha, pelo seu aspecto nostálgico
Tô Lendodesvantagens
  •  Minha mulher não gostou. Ela amou todos os Quintanilhas que leu, menos esse. Tô até agora sem entender o que aconteceu…
  •  O texto vem cheio de glossários, para explicar algumas expressões e gírias regionais e de época, que podem dar uma leve truncada na leitura. Dá uma sensação de que se trata de uma publicação para gringos, dado o nível dos detalhes das explicações nos rodapés das páginas.  Mas isso é bem fácil de ignorar (e muitas vezes chega ser engraçado também…).
  • É possível que a temática de futebol (eu esqueci de dizer que o protagonista é um jogador de futebol, foi mal) e anos 50 acabem afastando alguns leitores numa primeira folheada, não sei. Será que foi isso que fez com que a minha mulher não gostasse? Tô até agora sem entender…

Infelizmente, às vezes eu tenho a impressão de que o Marcelo Quintanilha é mais reconhecido e valorizado na Europa do que aqui. Mas pode ser que seja só uma impressão mesmo. De todo modo, eu acho que é um dever cívico de todo brasileiro tomar conhecimento e divulgar o trabalho desse monstro sagrado dos quadrinhos nacionais pelos quatro cantos do mundo, como a gente faz com o Pelé e o cara que canta “caneta azul”.

Tô LendoAlgumas imagens!