CDC #124 FRUTO ESTRANHO

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Ganhei esse encadernado de presente do meu grande amigo e parceiro de trabalho Jaiê Farias, nosso diretor na Caverna do Caruso e minha dupla no Estranha Mente, De Cara Limpa e tantos outros projetos.

Estudamos juntos na faculdade e tínhamos o mesmo gosto para os gibis de super heróis. Enquanto o do Jaiê amadureceu e foi pra leituras mais densas como ficções científicas ultra realistas de Warren Ellis e romances ocultistas de Alan Moore, o meu permaneceu basicamente o mesmo, atrás do entretenimento barato de superseres em colantes de cores primárias tentando salvar o universo cotidianamente. Por isso minha surpresa ao descobrir que um quadrinho que servia de interseção entre nossos gostos e ambos poderíamos apreciar simultaneamente.

Fruto Estranho, lançado aqui pela Mythos, mistura o universo fantástico do mundo dos super heróis com o realismo histórico das narrativas biográficas, conseguindo ao mesmo tempo dar um contexto altamente preciso e marcante de uma época sombria da segregação racial nos Estados Unidos e acrescentar um elemento fantástico super poderoso que não existiu na época. Quer dizer, não pode ter existido. Eu tenho quase certeza absoluta que não existiu. Por que se não, né?

Bem, estamos no Mississipi no ano de 1927, onde uma perigosa enchente ameaça desaparecer com uma pequena cidade do mapa. Todos são “convidados” a trabalhar nos diques nas margens do rio, mas por algum motivo (hum, por que será?) a grande maioria dos trabalhadores são negros. Alguns se revoltam com a situação e a tensão aumenta assim como a enchente iminente. No meio disso, um meteoro cai na terra trazendo uma espécie de super homem de uns dois metros de altura. Esse super homem não entende a língua das pessoas ao seu redor, seus costumes, ou tampouco porque algumas pessoas são tratadas diferentes das outras, mudando a então delicada balança de poder da tal cidadezinha. Tudo isso só serve para deixar as coisas ainda mais tensas, numa leitura que te faz ler sem parar.

Aliás, pra minha surpresa, o autor é ninguém menos que Mark Waid, responsável por fases ótimas no Flash, no Quarteto Fantástico e mais recentemente no Demolidor, sempre escrevendo histórias leves, ultra coloridas e supereroescas. Vê-lo num trabalho mais denso e realista trouxe outro olhar para carreira desse roteirista que eu já admirava muito. O retrato de época parece bastante fiel e os diálogos bem realistas, numa leitura bastante fluída, sem medo de abordar assuntos mais espinhosos.

Outra surpresa é o desenhista, que é ninguém menos que J. G. Jones, mais conhecido por suas capas maravilhosas (como as belíssimas capas de Procurado, do Mark Millar) do que por desenhar o interior das revistas. Ok, ele desenhou o interior de Procurado também (bem como de Marvel Boy e Hiketeia), mas aqui ele se aventurou a PINTAR cada quadrinho como as artes das capas de Procurado, no melhor estilo realista Alex Ross / Felipe Massafera. Rapaz, que desbunde! As expressões, a iluminação nos rostos, os cenários, tudo te transporta para dentro da leitura, como se você tivesse viajado no tempo e fosse parar no Mississipi de 1927. A arte realista de Jones faz você acreditar que o impossível é possível.

Caso você ainda precise de mais, vamos às vantagens e desvantagens:

Tô Lendovantagens
  • Saiu no Brasil! Êêêê!
  • Pela Mythos! Êêê de novo: a Mythos marca forte presença nas livrarias, o que significa que não deve ser difícil achar um exemplar
  • Volume único!
  • História densa e cativante
  • Arte fenomenal
  • Contexto histórico que, embora não te dê tudo na leitura, te faz ir atrás de mais conhecimento e aprender coisas novas
  • Leitura rápida. Mas ao mesmo tempo que é rápida, não é exatamente superficial, então provavelmente você vai querer ler novamente, nem que seja pra gastar mais tempo apreciando a arte do J. G. Jones
  • Contém alguns extras bem interessantes
  • Melhor de dois mundos: bad trip da realidade, mas com um aquele gostinho de esperança do escapismo!
Tô Lendodesvantagens
  • Só capa dura! (Sim, eu não gosto de capa dura)
  • A arte da capa não é a mais convidativa do mundo nem faz jus a intensa trama que lhe aguarda. Essa é uma daquelas que pode passar batida pelo seu radar nas livrarias.
  • O final não é tão bom quanto o desenvolvimento da história, mas não prejudica em nada a sua jornada (mas acho bom deixar o aviso)
  • Por se tratar de temas complicados da história americana, pode ser um belo soco no estômago, a começar pelo título da revista, que tem uma origem bastante controversa e dolorosa de conhecer. Mas precisamos conhecer os erros do passado para não cometê-los novamente, não é verdade? A história por trás do título é de doer!
  • Algumas pessoas reclamam da Mythos praticar preços muito altos, mas eu já achei essa edição no site deles por R$30,00! Trintão vale MUITO à pena.
  • Por ambos os autores serem caucasianos, parece que a revista foi duramente criticada no exterior.

Agora todo mundo comigo: Muito obrigado, Jaiê!

Tô LendoAlgumas imagens!
Fruto Estranho HQ
Fruto Estranho HQ
Fruto Estranho HQ
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2019-08-02T14:06:58+00:00 31 de julho de 2019|0 Comentários