CDC #117 – Nada a Perder

Início/Caverna do Caruso, Destaques, Leia!/CDC #117 – Nada a Perder
Nada a Perder HQ

De uns tempos pra cá eu tenho chegado à conclusão de que eu virei p**inha do Jeff Lemire. Old Man Logan dele é meu título preferido entre as revistas mensais e também amei seu Gavião Arqueiro e Cavaleiro da Lua. Caminhando para o lado mais “alternativo” dos Super Heróis, amei também Black Hammer, que saiu aqui pela Intrínseca. E agora, para coroar meu amor incondicional, também adorei Nada A Perder, publicado aqui pela Editora Nemo.

Aliás, num pequeno parênteses (que na verdade não é um parênteses, é mais um parágrafo com sensação de parênteses e o parênteses mesmo acabou sendo utilizado pra explicar que não era um parênteses, ironicamente) a Editora Nemo tem publicado muitas coisas legais, um nível de acerto altíssimo, vale a pena dar uma conferida no catálogo! Fim do parêngrefo.

Nada a Perder não tem nada de Super Herói. Definitivamente nada de Super e muito pouco de herói. O livro conta a história de um jogador de hockey, que teve alguma ascensão na carreira, mas, por conta de um deslize (no início não sabemos o que aconteceu, vamos descobrindo através de flashbacks e pistas deixadas pela história – UAU, isso sim, são parênteses) ele perde tudo e se vê obrigado a voltar para a sua cidade natal. É uma espécie de Tieta invertida (ou Durrenmatt às avessas, se você quiser bancar o intelectualzão), no sentido de que temos o retorno de um personagem à sua cidade natal, mas ao invés dele voltar com um enorme sucesso para esfregar na cara dos outros, ele parece estar pior do que quando saiu. Essa volta, acidentalmente, faz ele confrontar várias questões mal resolvidas da sua vida, que talvez ele nem mesmo sabia que tivesse.

Uma das coisas interessantes aqui é que é uma obra com pouco texto, mas escrita com extrema sensibilidade. Numa leitura superficial, não acontece muita coisa. “Ah, tá, ele ficou sentado na neve mó tempão e viu um cachorro”. Mas tudo que acontece tem um significado por debaixo daquela superfície e cabe ao leitor estar atento para acompanhar os seus impactos. Nesse sentido me lembra um pouco Breaking Bad, onde algumas das revelações mais importantes aconteciam dentro da cabeça dos personagens e na expressão dos atores, ao invés de suas falas.

A arte do Lemire (que escreve E desenha! Ai, esse homem, meu deus… S2) nos ajuda a mergulhar nessa cidade perdida no mapa, no meio de tanta neve. Não é uma arte “bonita”, mas por outro lado, não é uma história “bonita”. O uso das cores é bem eficaz na narrativa, retratando o presente em tons de azul, dando toda uma sensação de frio e desolação importante para a trama e utilizando cores mais quentes apenas nos flashbacks, deixando o passado mais “acolhedor” e interessante que o presente. É quase como se a gente quisesse fugir pra lá.

Cacete, falei muito, acho que eu me empolguei. Vamos pras vantagens e desvantagens:

Tô Lendovantagens
  • Saiu no Brasil, pela Editora Nemo. A Editora Nemo marca forte presença nas livrarias, então isso significa que não deve ser difícil encontrar esse título nas prateleiras ou até com desconto nas lojas virtuais
  • Leitura fluída e rápida. Como tem pouco texto, esse é um daqueles que não vai ficar muito tempo na pilha de leitura
  • Ótimo para trazer amigos-não-leitores para o universo de quadrinhos. É bom pra mostrar que a mídia vai muito além de super heróis
  • Leitura bastante sensível
  • Apesar de ser uma leitura razoavelmente rápida, acho que ela dá vontade e merece ser lida novamente, pra redescascar a cebola com mais atenção. Então eu acho que é uma daquelas que vale a pena ter na estante.
Tô Lendodesvantagens
  • Que o Lemire não me ouça, maaaas eu não gosto muito da arte dele (DESCULPA, LEMI, TE AMO). As pessoas se parecem um pouco, o que ajuda a confundir as feições no meio de tanta neve e o traço é meio feião mesmo, de um modo geral. Mas nada que tenha atrapalhado a minha leitura (espero que ele não saiba ler português)
  • Os fatos das pessoas se parecerem um pouco exige um pouco mais dá atenção do leitor. Mas não muito, porque só tem tipo 4 pessoas na cidade.
  • Eu acho que gostar desse título vai depender muito da sensibilidade de cada um. Quem fizer uma leitura mais objetiva, pode acabar achando meio boring e sem propósito. A leitura acontece mesmo, na minha opinião, no subtexto.
  • Por se tratar de um protagonista meio red neck de uma cidade do interior americana, ele pode talvez ser uma leitura meio “héterocêntrica”. Eu entendi isso como uma visão antropológica sobre esse tipo de pessoa. Minha mulher por outro lado, já se irritou um pouco mais. Então não sei. Fica aí o aviso.

No mais, queria aproveitar para agradecer ao Sidney Gusman, que foi a primeira pessoa a me falar desse título, antes mesmo dele ser publicado aqui no Brasil. Aliás, ele é uma espécie de Homem do Futuro das HQs, sempre com umas indicações do século 30.

E eu queria saber de você. Já leu? Gostou/não gostou? O quê você faria se tivesse que voltar pra sua cidade natal perdida no meio da neve?

Tô LendoAlgumas imagens!
Nada a Perder HQ
Nada a Perder HQ
Nada a Perder HQ
Nada a Perder HQ
Nada a Perder HQ
Nada a Perder HQ
2019-04-24T12:41:20+00:00 24 de abril de 2019|23 Comentários