CDC #110 – Local

CDC #110 - Local

Local é um daqueles quadrinhos com uma daquelas premissas tão boas que facilita meu trabalho na hora de convencer as pessoas a lerem, se liga só: histórias independentes (one shot), acompanhando a vida de uma mesma menina, sendo que cada capítulo tem uma cidade diferente de pano de fundo. É um projeto muito interessante.

Mas antes de falar dele, um pequeno preâmbulo (como de costume), sobre como essa revista veio parar em minhas mãos. Participei do Santos Criativa: Festival Geek em (adivinha, só)… Santos! Lá descobri que a cidade tem um forte cenário nerd (incluindo uma Gibiteca NA ORLA DA PRAIA) e eu tive o prazer de trocar ideia com outros nerds de calibre, organizadores do evento. Um deles era o Renato Filho, que numa das minhas caronas de volta pro Hotel, encontrou um pouquinho mais de fôlego (afinal estávamos todos exaustos) pra falar sobre quadrinhos comigo. A conversa acabou caindo no Brian Michael Bendis (meu autor predileto e um dos preferidos dele também) e falamos sobre a maneira com a qual ele escreve os diálogos com enorme organicidade. No dia seguinte, para minha surpresa, Renatinho me presenteou com os dois volumes de LOCAL, publicados pela Devir, dizendo que achava que eu ia gostar, por conta da semelhança com a escrita “bendiana”. Achou certíssimo!

Como eu falei na abertura, as histórias são fechadas, bem curtinhas, e bastante pé-no-chão. São tramas mundanas e possíveis, nada de super poderes, sobrenatural, etc. Coisas cotidianas, que poderiam acontecer com qualquer um de nós. O mais interessante é o seguinte: as histórias funcionam perfeitamente de maneira isolada. Você pode, por exemplo, ler um capítulo só de LOCAL e se dar por satisfeito. Mas ao ler tudo, você percebe que essas histórias vão formando um mosaico da vida da protagonista (que em muitos casos não passa de uma mera coadjuvante), até termos uma personalidade bem desenhada e uma verdadeira história de vida. Ao final, temos uma estranha sensação de familiaridade com os eventos ocorridos e a impressão de termos vivido cada um deles junto com a jovem Megan, a “protagonista/coadjuvante” da revista.

Os diálogos do Brian Wood, autor da série, são bem verdadeiros, e realmente me lembraram o aproach “vida real” do Brian Michael Bendis, porém sem a comicidade que lhe é característica. O traço de Ryan Kelly lembra muito o da Becky Cloonan (uma desenhista que eu gosto muito) e não é à toa: eles trabalharam juntos em American Virgin. Ryan faz uma ótima caracterização de personagens e tem uma grande preocupação com detalhes, que é recompensada ao final da leitura.

E ao final de cada capítulo, temos o depoimento de cada um dos autores, dizendo como foi o seu processo e indicando músicas para as passagens que acabamos de ler, tudo de um jeito muito sincero, colaborando para fazer de LOCAL uma experiência particular para cada viajante.

Vamos às vantagens e desvantagens:

Tô Lendovantagens
  • Saiu no Brasil, pela Devir.
  • Só dois volumes
  • Leitura fluida, passa bem rápido
  • Apesar de ser uma leitura fluida e rápida, os extras das histórias servem para dar uma encorpada na edição, tirando do caminho uma possível sensação de leitura “rápida demais”
  • Excelente para catequizar novos leitores de quadrinhos, aqueles que “não sabem por onde começar” ou que acham que “não gostam de quadrinhos”.
Tô Lendodesvantagens
  • Está fora de catálogo, então para encontrar deve ser necessário algum garimpo
  • Preto e branco. Não acho uma desvantagem realmente, o Ryan Kelly trabalha muito bem os aspectos PB da sua arte, mas acho que uma corzinha aqui cairia super bem!
  • Existem uns detalhes presentes em toda a trama, tipo um easter egg de objetos (algo de um capítulo que aparece em outro capítulo), que pode passar desapercebido pelo leitor mais desatento (como aconteceu comigo, cof, cof…)
  • A arte levemente poluída do Ryan Kelly pode não gerar uma folheada muito convidativa, saca? Daquelas que você dá uma passada de olhos e fala “humm… acho que não é pra mim…” MAS É SIM! DÁ UMA CHANCE

Essa é uma das coisas que me deixa abismado: a revista tá rodando por aí desde 2008. Eu nunca tomei conhecimento. Devo ter passado por ela várias vezes (sou assíduo frequentador do catálogo da Devir) e ela entrou no meu radar. Se não fosse essa carona, essa conversa em Santos, e tudo mais, eu jamais teria tido a oportunidade de ler algo que me marcou profundamente. Por isso que eu gosto de indicar quadrinhos aqui. Se eu puder fazer isso com uma pessoa apenas que seja, ficarei extremamente feliz.

Muito obrigado, Renatinho!

Tô LendoAlgumas imagens!
CDC #110 - Local
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2019-01-09T11:25:21+00:00 9 de janeiro de 2019|27 Comentários
  • Alexandra Gregório

    Eu gostei, mas eu tô apaixonada pelo pétalas, eu ganhei ele no sábado, comecei a ler ontem, era pra ter sido segunda, mas meus parentes n foram embora, aí n gosto de ler com muita gente falando no meu quarto, me da um certo ranço, kkk, mas Caruso eu tô apaixonadaaaa, quando acabar eu te falo mais sobre, e sobre esse q vc falou Hj, bem, eu gostei Sim, achei bem interessante n vou negar, mas tá fora de catálogo né, uma pena… n sei como posso comprar então…

    • Que bom que você tá gostando de Pétalas, Alexandra! É bem fofo! Quanto a Local, eu acho que talvez não seja muito a sua praia, nem precisa se preocupar em tentar achar. Deixa pra quando você estiver um pouquinho mais velha…. rs
      (Também odeio ler com gente falando!)

      • Alexandra Gregório

        Sim, eu percebi q tinha umas coisas q n gostei tanto, mas enfim, eu vou terminar de ler e te conto tudo!!! Kkk

  • Alexandre Cavalcanti

    Fala, Caruso!
    Tive contato com Local pela primeira vez na Gibiteca Henfil e li cada volume em um dia.
    Depois que consegui adquirir o material, reli Local com bastante mais calma, uma história por dia, e usando a trilha sonora indicada em cada história. A experiência foi muito melhor.
    Se você curtiu Local, sugiro dar uma olhada em DEMO da Becky Cloonan. Um material de primeira também.
    Uma outra história que foge um pouco da temática, mas que moda em meu coração é Echo, de Terry Moore. Essa eu li em 6 TP’s pelo Comixology e muuuito legal.

    • Fala, Alexandre!
      Que bacana que você fez essa experiência com a trilha sonora! As músicas são boas?
      Já comprei DEMO, tá pensando o quê?! Hahahaha Foi a primeira coisa que eu fiz assim que eu acabei de ler. Aproveitei que a minha mulher estava viajando e mandei entregar no hotel dela. Mal sabia eu que era um encadernado do tamanho de uma Lista Telefônica… Ela ficou putaça comigo, coitada! rs
      ADORO o Terry Moore! Lerei Echo com certeza. Mas no momento ainda estou na missão de “zerar” Estranhos no Paraíso, rezando pra Devir publicar os outros encadernados absolutos da série!
      Obrigado por escrever aqui, cara! Excelentes indicações!

      • Renatinho Santos

        Depois me fale o que achou de Demo!

        • OLHA O RENATINHO AÊÊ!!!! Falo sim, cara, pode deixar! Muito obrigado mais uma vez!

      • Bruno Messias

        Eu só vou comprar Estranhos no Paraíso quando/se a coleção sair completa no Brasil. Bone também. I want to believe! Agora vai!

        Sou fã do Bendis também. Acabei de ler o Homens-Aranha (encadernado capa vermelha). Os diálogos do Peter Parker adulto com a Gwen jovem são a melhor parte.
        Meu diálogo preferido do Bendis é de uma hq do Demolidor, com o Luke Cage e o Punho de Ferro discutindo se o Aranha é gay ou não…

        • Hahahahaha Procura aqui no site a resenha sobre Powers, Bruno! Um material do bendis incrível, que nunca foi publicado aqui na íntegra! Vale a pena conhecer!
          Eu também sou bem cético em relação à Bone e Estranhos no Paraíso (já partiram meu coração muitas vezes). Mas algumas coisas que me deixam esperançosos dessa vez: a Devir está fazendo um trabalho bem sólido com as suas publicações ultimamente, vide Saga, Paper Girls e Lazarus. E em relação a Bone, entendi que a edição da Todavia Livros reúne 3 volumes originais de Bone. O que significa que faltam apenas DOIS LIVROS pra sair tudo completo aqui!!! Fé em Odin, my friend!!!!

  • Ricardo Varotto

    E eu fico aqui na minha, só anotando…

    • Hahaha Algum dia eu vou escrever sobre alguma coisa que você já tenha lido, aí eu vou querer saber a sua opinião

      • Ricardo Varotto

        Mas eu já li um monte de coisas que você (e o Kadu, e o Tibério…) me recomendou. E a maioria acertou em cheio.

  • Ricardo Varotto

    OFF TOPIC.

    Você sabia da existência dessa versão em desenho animado do Savage Dragon de 1995-1996? Nunca havia ouvido falar. Já estou providenciando umas amostras.

    • Hahahaah Não só sabia, como já tenho em DVD. É beeem tosquinho. O Erik Larsen inclusive já comentou que ele é um dos motivos para ele não querer licenciar seu personagem pra mais nada. Só dor de cabeça, sem a parte boa (segundo ele).

      • Ricardo Varotto

        Pois é. Eu comecei a baixar aqui para conferir, e achei meio mais ou menos. De qualquer forma, só tem áudio em russo, então é melhor que não seja bom mesmo, para não dar raiva.

  • Gustavo Borges

    Um amigo me emprestou essa HQ para ler a uns 5 anos ou mais, ainda estava engatinhando em termos de leitura de quadrinhos. A história ajudou-me a abrir os horizontes quanto a que tipo de histórias podem ser contadas dessa maneira, exatamente como você sugeriu em seu texto.

  • Gustavo Borges

    @fernandocaruso:disqus Um amigo me emprestou essa HQ para ler a uns 5 anos ou mais, ainda estava engatinhando em termos de leitura de quadrinhos. A história ajudou-me a abrir os horizontes quanto a que tipo de histórias podem ser contadas dessa maneira, exatamente como você sugeriu em seu texto.
    Outro assunto nada a ver com Local: No Podcrastinadores você disse que nunca assistiu nada steampunk que realmente te agradasse, então sugiro o longa metra de animação Steamboy do Katsuhiro Otomo, criador de Akira. Foi a animação mais cara já produzida até aquele momento, é tão absurdo que paralisaram o projeto por dois anos para arrecadar mais dinheiro para terminarem o projeto com todo o seu esplendor. Como sei que você tem dificuldades em conseguir coisas pela internet só dar um toque que upo de maneira bem simples para você baixar no Google Drive.

    • Ah, sim, Gustavo! Eu assisti Steamboy! No cinema, inclusive… Embora eu estivesse me referindo mais a live action do que outras mídias, eu também não acho Steamboy lá grandes coisas. Akira dá de mil a zero. A animação é fantástica, a técnica é primorosa, mas a trama não é. pra mim, nem de longe memorável. Mas isso também talvez bata com outro problema meu de não encontrar nenhum Anime que eu ame de paixão. Então não sei se nesse caso a culpa é do Steam Punk ou do Anime! Rs… (Mas Akira sim, eu amo. Apesar de preferir muuuuuito mais o mangá.)

      • Gustavo Borges

        Primeiro a parte mais fácil, o original quase sempre é superior as adaptações, isso vale para livros, quadrinhos, mangás ou mesmo filmes com roteiro original que são refilmados para americanizar a película ou rejuvenescer a história. O grande lance do Steamboy é não dizer qual lado está certo e deixar a decisão totalmente para o espectador, sem vilões ou causas óbvias, complicado é comparar qualquer coisa com Akira, quase injusto com a concorrência, é uma obra muito densa que transmite muita coisa de uma só vez. Steampunk em live action eu vou ficar te devendo, no máximo temos o “excelente filme-ruim” que fez Will Smith recusar o papel de Neo em Matrix, As Loucas Aventuras de James West. Eu poderia perguntar seus gostos enquanto indivíduo e sugerir um anime / mangá que fugisse do padrão infanto-juvenil baseado neles. Existem loucuras que vão de Kill la Kill (que parece putaria mas é um disfarce para Girl Power) disponível na Netflix a Yojouhan Shinwa Taikei onde o traço é nada convencional e o tempo volta ao final de cada episódio para o começo sem os personagens saibam; mas na real prefiro aceitar e respeitar que não é todo mundo que vai gostar de todas as mídias, você é um nerd exemplar e não precisa ver animes para demonstrar isso. Ontem mesmo te vi de Darth Vader no Zorra (episódio antigo).Vou tentar ler mais a Caverna e comentar mais vezes, sucesso para você!

        • Valeu, Gustavo! Sucesso para você também!
          Kill la Kill tá na minha fila, tanto o anime quanto o mangá!

          • Gustavo Borges

            Eu até tenho o Mangá aqui (um dia eu ainda leio) mas acho que é apenas um spin off, é um caso raro onde o anime saiu primeiro, só depois resolveram lançar um mangá para aproveitar o sucesso. Vou adorar saber sua opinião do anime depois que a estranheza inicial for superada.

  • Tiago Soares

    Ja tive essas edições nas mãos mas não comprei por nunca ter ouvido nada a respeito , se encontrar outra vez eu compro .
    Mudando de assunto .
    Caruso você ja leu O Legado de Júpiter do Mark Millar e do Frank Quitely ? Li a pouco tempo , achei muito bom e queria saber sua opinião sobre essa HQ.

    • Li sim, Tiago! Gostei, mas não é nem de longe minha HQ do Millar preferida. Achei o texto do primeiro volume um pouco maçante e a arte muito engessada (e olha que eu AMO o Frank Quitely!). Quase todos os enquadramentos são iguais, não tem muitos ângulos diferentes. Tudo meio chapado. O segundo volume eu gostei um pouco mais. No fim das contas, gostei da premissa, mas não curti tanto a execução.

      • Tiago Soares

        Também gostei da premissa apesar de ter aquele gostinho de (Ja vi isso aqui em algum lugar ) provavelmente por causa das referências e a trama um pouco previsível . A arte achei espetacular ( sou putinha do Frank Quitely rsrs ! Na verdade dos Franks , Frank Quitely , Gary Frank e Frank Cho .)
        Mas oque gostei mesmo foi entrar em um novo universo de super-heróis com uma origem e história diferente . Queria saber sobre aqueles heróis. No fim fiquei com gostinho de quero mais , fazia muito tempo que não sentia isso lendo uma HQ de super heróis.

        • Te recomendo dar uma olhada nas minhas colunas sobre Noble Causes e Powers, que fazem exatamente isso que você descreveu. E, num prisma mais “leve”, Capes! Vale a pena conhecer, dá uma olhada!

  • Acho que era Um Pedaço de Madeira e Aço, do Chabouté, que saiu pela Pipoca e Nanquim, Patty!

    https://pipocaenanquim.com.br/videocast/a-genialidade-do-quadrinho-mudo-um-pedaco-de-madeira-e-aco-pipoca-e-nanquim-295/