CDC #100 – Dois Irmãos

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CDC #100 - Dois Irmãos

Acompanho o trabalho do Fabio Moon e Gabriel Bá há algum tempo. Não posso dizer que é desde o início, mas pelo menos desde os encadernados da Via Lettera publicando as histórias dos 10 Pãezinhos. Continuo não sabendo diferenciar os dois quando os encontro nas convenções, mas já li material deles o suficiente para ter algum peso quando eu digo que Dois Irmãos foi a minha obra preferida deles dois.

Acompanho o trabalho do Fabio Moon e Gabriel Bá há algum tempo. Não posso dizer que é desde o início, mas pelo menos desde os encadernados da Via Lettera publicando as histórias dos 10 Pãezinhos. Continuo não sabendo diferenciar os dois quando os encontro nas convenções, mas já li material deles o suficiente para ter algum peso quando eu digo que Dois Irmãos foi a minha obra preferida deles dois.

Deles três, a bem da verdade, pois eles estão adaptando o livro do célebre autor manauara Milton Hatoun. Uso aqui o “célebre” com toda cara de pau que me é carcterística, pois não li nenhum trabalho dele, só fiquei sabendo mesmo que ele era famosão depois que o querido amigo André Maximus, do MdM de Manaus (eles estão abrindo franquia, parece) me falou.

CDC #100 - Dois Irmãos

A história acompanha a vida de dois irmãos gêmeos, filhos de um imigrante árabe. Aliás, acompanham desde antes, desde a chegada do pai deles, nos idos de 1920, na capital amazonense. Desse modo, podemos ver também o crescimento de Manaus no avançar dos anos, começando com charretes pela rua, a chegada dos carros e até uma ditadura ali no meio (que pra quem acha que ela não existiu, vai ser interessante ver que ela alcançou até o norte do país, com a mesma tenebrosidade).

O texto é extremamente envolvente e os personagens absurdamente realistas. Eu tinha certeza de se tratar de uma obra biográfica (mas outra conversa com o Máximus me garantiu que não). Me senti novamente lendo Machado de Assis aos 13 anos de idade, mergulhando naquele universo, naquelas descrições elaboradas e convivendo com pessoas de outras épocas (embora, é claro, estejamos tratando de épocas completamente diferentes – eu não fui um leitor tão desatento assim de Machado de Assis, ouviu Escola Parque?).

A arte dos gêmeos está afinadíssima. Parece que eles encontraram o estilo definitivo, as figuras têm movimento e ao mesmo tempo que tem distorções, permanecem fiéis à sua caracterização, são fáceis de reconhecer rapidamente e, o mais impressionante, envelhecem! Você consegue ver versões de idades diferentes e entender que se tratam do mesmo personagem e ainda enxergar as semelhanças com seus progenitores. Um trabalho muito minucioso de estudo de caracterização, que não parece estudo nenhum, parece só a vida acontecendo.

Apesar de ser um livro bem grande, eu li bastante rápido. A trama não é cheia de enormes reviravoltas, mas te prende pelo realismo e a relação entre os personagens. Terminei curiosíssimo para ler a obra original e eu acho que isso é sinal de um trabalho bem feito! Tô na dúvida aqui se eu falo um pouco mais da trama, mas eu acho que não há necessidade. Acho que ela vai te dar tudo o que você precisa no momento em que abrir a primeira página. Basta saber que é uma história bastante humana, bem brasileira, com a mistura de culturas que nos é familiar. E os dois irmãos se odeiam, pronto, falei, não resisti, desculpa. É um babado atrás do outro, menina!

Vamos às vantagens e desvantagens, antes que eu acabe fofocando a história toda:

Tô Lendovantagens
  • É uma obra nacionalíssima: de um premiadíssimo autor brasileiro, desenhada por quadrinhistas brasileiros também premiados e lançado pela Quadrinhos na Cia, braço da Companhia das Letras. Ou seja, nenhuma necessidade de passaporte ou cursinho de inglês.
  • Por ser de um braço da companhia das letras, essa é uma obra que tem grande entrada nas livrarias, portanto não deve ser difícil de achar por aí.
  • Uma excelente oportunidade para conhecer um conhecidíssimo autor que eu não conhecia ainda.
  • Arte espetacular, estilizada, lembra bastante um Mignola com mais elasticidade.
  • História absolutamente envolvente, com personagens realistas. Bom pra sair um pouquinho da nossa superficiliadade supereoesca de costume.
  • Manaus. Rapaz, como eu amo essa cidade. Já fui pra lá umas 5 vezes, pra fazer shows e gravar programas e sempre me diverti bastante. Deixei boas lembranças (deixei mesmo, porque no dia seguinte eu não lembrava de nada) no Porão do Alemão. É uma cidade com muita personalidade, então se você já foi ou tem curiosidade de ir, essa é uma maneira muito prática de visitá-la, no conforto da sua casa, sem as horas de vôo ou os quarenta graus a mais. E faltou falar isso na resenha: os gêmeos fazem um ótimo trabalho retratando a cidade visualmente nas diferentes épocas.
Tô Lendodesvantagens
  • Preto e branco. Já falei que não acho isso uma desvantagem, mas há quem ache, por isso acho melhor avisar. O preto e branco aqui ajuda a arte a saltar mais, deixar os detalhes mais aparentes e estabelecer o clima da história. No entanto eu também fico imaginando que esse trabalho com as cores espetaculares da Cris Peters, por exemplo, seria digno de um Oscar!
  • O nomes árabes podem ser um pouco confusos. Eu que sou um leitor um pouco mais desatento me pegava confundindo tudo, até os entre os nomes masculinos e femininos. Halim, Zana, Râina, Omar, Hatoum…. não, espera, Hatoum é o autor. Tá vendo?
  • Por ser um livro grande, a primeira folheada pode afastar um pouco. Pode dar uma preguiça, sabe? Entrar naquela categoria de “um dia eu leio” que você nunca acaba lendo. Mas esse aí merece o esforço. Na verdade o esforço é só o de começar, a obra faz o resto.
  • Algumas pessoas que já conheciam o conhecidíssimo trabalho do Milton Hatoum me disseram preferir a obra original. Como não sou uma delas, não posso opinar sobre isso… Mas se você já o leu, fica aí o aviso.

Taí, espero de coração que você goste. Mas queria saber da galera que passeia por aqui: tem alguém de Manaus? Ou alguém que conhece a cidade? Troquemos figurinhas!

No mais, até a próxima quarta e boas leituras!

Tô LendoAlgumas imagens!
CDC #100 - Dois Irmãos
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2018-08-01T11:29:20+00:00 1 de agosto de 2018|16 Comentários
  • giovanni antonni

    Caruso adorei a dica, sempre quis saber de quadrinhos nacionais pois sei que os brasileiros são bem criativos nesse ponto alem de terem um traço muito bonito e de qualidade como Joe Bennett que fez o Capuz Vermelho, Bilquis Evely que fez os traços da mulher maravilha renascimento que acho muito bonito e o RB Silva que faz vários trabalhos para a Marvel, então é muito bom ver um trabalho totalmente nacional com uma qualidade como de Dois Irmãos. Parabéns

  • Greicy Duarte

    Ótimo dica, Caruso! Não li essa hq mas assisti a minissérie e gostei muito.

  • Jean Carlos

    Eu comprei Open Bar do Eduardo Medeiros, inclusive chegou hoje, e gostei muito dessa dica também isso mostra que tem muitos autores brasileiros bons. https://uploads.disquscdn.com/images/a2226d7468ee36f9aa8b5eaa676de9c6fdc49b11de169833b7631aafcf0377c6.jpg
    No plastico ainda.

    • Tá na minha lista pra resenhar aqui na Caverna, Jean! Eu gostei bastante! E olha que curioso: estou nesse exato momento lendo o Sopa de Salsicha, dele também, que saiu pela Companhia das Letras, e adorando!!

      • Jean Carlos

        Ele ta na minha lista também.

  • Eduardo Mathias

    Cara, eu li Dois Irmãos, mas fiquei bem decepcionado com a arte em alguns momentos da HQ, quando comparado com Daytripper dos dois irmãos, parece ter páginas meio inacabadas ou com traços “meio preguiçosos” enquanto outros quadros perfeitos, lindos e detalhosos. Achei bem boa a adaptação da obra do celebre Milton Hatoun(já li um pouco dele[ Sempre ta aparecendo pelos vestibulares da vida]), bem fidedigna e bem fluida. E acho que é isso, ainda acho uma puta recomendação, so fico preso no aspecto de achar que as vezes a HQ dá umas fraquejadas, tvlz até por ser grande mas fluida.

    • Engraçado, Eduardo eu tive a impressão contrária: o que você descreve como “traços meio preguiçosos” eu vejo como o artista encontrando seu estilo e ficando mais seguro na hora de “estilizar”. Como eu curti esse estilo que eles encontraram, esses traços mais “deformados” me agradaram muito! Li uma entrevista do Alex Toth que me marcou muito e me fez olhar diferente o traço de vários desenhistas: ele dizia que demorou uma parte da vida para aprendendo o que botar no papel e outra parte aprendendo o que tirar do papel (claro que as palavras dele eram bem melhores que as minhas, mas acho que a ideia é essa). E eu vejo os gêmeos aqui fazendo exatamente isso, retratando uma imagem com somente o essencial.

  • Dk Ribeiro

    Nossa, é ainda melhor que Daytripper?